<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312</id><updated>2012-02-16T05:33:40.588-08:00</updated><title type='text'>Praia da Lina</title><subtitle type='html'>Cama pra três</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>41</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-641711557682523445</id><published>2007-12-13T05:59:00.005-08:00</published><updated>2012-01-03T00:09:36.891-08:00</updated><title type='text'>1. um afogamento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Não dava, não dava mais. Não dava mesmo. Que fossem pragmáticos, pelamordedelz! Não tinha mais como dar certo e não era por falta de tentativa, conviessem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então tá... Então tá bom, né... Ok!... Hm... eu vou arrumando minhas coisas já... Já tiro tudo daqui... Yeah... I’m already gone” O olhar dócil, bem de viés esperando e quase que impondo uma açãozinha de clemência, um passinho atrás...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não. Conhecia perfeitamente esse olhar! Era bem assim o efeito dele: a gente ficava doendo de compaixão e oferecia um abraço de amigo, que rapidamente já virava um abraço de urso, bem forte, e depois, de jiboia, que prendia todos os membros e deixava a gente sem ar, sem ação, sem nada, prontinho pra ser devorado. E era, se era! Daí, toda a conversa adulta e madura, toda a segurança de um discurso bem articulado, tudo perdia o efeito, porque é claro que esses abraços de jiboia têm alguma coisa que entorpece os sentidos - grandes inimigos do homem racional nessas horas - e a gente acaba inevitavelmente na cama, justamente com a pessoa que já deveria ter dobrado a esquina. Era por isso que esperava que as malas fossem feitas sem encarar olharzinho nenhum. E não iria pra um outro cômodo também, &amp;nbsp;ficaria ali pra se certificar de que não sobraria nem uma pecinha de roupa, nem um vidrinho de perfume, ou qualquer outra coisa que fosse um pretexto em potencial pra uma visitinha. E rápido com isso que não tinha o dia todo não-senhor!&lt;br /&gt;“Ok, ok... Não precisa ser tão desagradável... Sorry, ok! É que bateu uma leseira... Já fumei uns três agora de tarde... Ãh-hã, mas... You know... preciso de muita calma quando alguém vai me pôr pra fora de casa, sabe... Tem que fumar, né, fazer o que mais...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, precisava ficar calmo, que remédio?! Não tinha a menor disposição pra jogar nada pela janela do apartamento – que mico! Daí era melhor apertar um também e fumar enquanto esperava. E foi o que fez... Deu um tapa... Forte... Soltou, tossiu. Tossiu... tossiu mais. Respirou... Outro trago... Respirou... Mais outro. Ofereceu a vez, que não foi aceita. “Tou bem já...” Certo, continuava fumando então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ficava olhando aquela pessoa arrumando roupas lentamente... Separando o que estava sujo do que estava limpo... Abrindo uma grande mala... Separando as calças, guardando no fundo... Alisando com a mão – “Não gosto que amassem...” - ... E, de repente já não era mais uma pessoa. Não era não, olha só, era uma figurinha... Estranha, tão delicada, tão delgada, tão branca... Gostava daquela malemolência toda, era como a fumaça de um incenso, ou como o leite no percurso entre a caixinha e a caneca... Era assim talvez: se o incenso fumaçasse leite, seria igual àquela figura. Nossa, tão delicada! Coisa linda... linda... Muito linda! Era o jogo nas munhecas que ele gostava mais. Nas munhecas e no pescoço, uma elasticidade, todos os movimentos tão redondos e lentos... Muito bom de se olhar, encantador mesmo. E não deixava de reparar também nos movimentos da cintura, dos ombros, do queixo, dos dedos. Ah, meldelz! Não tinha a menor dúvida de que era aquele o corpo que mais lhe tinha dado prazer em toda a vida... E era difícil, muito difícil se desfazer de uma coisa como essa... Porque desejo é aquela coisa... cala fundo na alma da gente e ainda tem a natureza fácil de se entrelaçar ao amor e à paixão e daí... Daí é o melhor sexo que se pode ter, o que mistura desejo, paixão, amor e um pouco de raiva, pra o jogo ficar mais interessante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hey! Tá viajando, ãh?” Olharzinho de novo, vozinha bem baixa, bem de veludo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esteve, mas não estava mais. Sabia que se continuasse nessa divagação, o tal olharzinho surtiria o efeito certo e era isso o que ele menos queria. Tinha de raciocinar, de fazer tudo certo dessa vez, bastava de perder a cabaça... Mas olhava e permanecia olhando... Tinha era de dar um jeito de afastar as metáforas, que amor, amor e paixão e coisa e tal, tudo isso se funda muito em metáforas. Era melhor traduzir a cena numa fórmula, uma formulazinha redutora. Vamos lá: leite + fumaça de incenso + jogo na munheca = desejo + processo de falência autosustentável. Precisava atinar com isso... É, não podia esquecer mesmo, olha o perigo! Imagina só! Se bem que podia se enroscar só uns quinze minutinhos, tipo um bota-fora, alguma coisa assim... Mas não, mas nada! Porra nenhuma!!! Não podia de jeito nenhum, nem pensar em pensar em...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você gosta de me ver né?... O lamentável disso tudo é a gente não poder se ver mais porque eu também gosto que você me olhe...” E tirou a camiseta. Que não tirasse não! Já tinham falado disso! “Take it easy! Vou só trocar... Vou... pegar uma limpa... eu dormi com essa aqui ontem...” Espreguiçou... Espreguiçou devagar... Alongando... Alongando bem a silhueta esguia... Esticou o queixo e até os dedos, que nem gato faz quando acorda... E se recompôs, também que nem gato... E passou a cara pelo ombro, também que nem gato... E olhou de viés outra vez, também que nem gato... E tínhamos então um gato perfeito. E também mais uma metáfora. Parasse com aquilo. “Isso o que?” Sabia, sabia sim. “Para você...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechou os olhos com força, a essa altura estavam secos, mau efeito da maconha. Antes de tornar a abrir notou que sentia o cheiro de um perfume fresco muito mais próximo que antes... Teve medo de abrir os olhos e constatou que estava retardado por ter fumado demais. Teve medo... Teve vertigem... Sentiu um hálito no pescoço... “Cê é mais alto que eu... dá pra pegar a outra... mala lá em cima?” Não quis responder... Não quis abrir os olhos... Estava muito perto, perfumado, sem camisa, só com aquela calça-jeans justinha... “Cê tem medo de mim?... Fica não... É bom...” Sabia... Ah, como sabia! Mas não dava, tinha de ter juízo, pelamordedelz, não tinha mais como! “É só hoje...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando por fim abriu os olhos, já era muito tarde porque o perigo maior estava bem ao alcance da boca, úmido e quente. “Me beija...” Não teve jeito, beijou. “Me beija de novo...” Precisava que ele entendesse que já tinha acabado, que não podia ser, que não eram os homens certos um para o outro... “Me beija de novo...” Beijou... Deixou-se abraçar forte, forte, forte... Sentiu sufocar... E por quase um minuto esteve perdido à deriva em alto mar, num tipo de narcose que antecede o afogamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-641711557682523445?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/641711557682523445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=641711557682523445' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/641711557682523445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/641711557682523445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-01_13.html' title='1. um afogamento'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-2540500337837373911</id><published>2007-12-13T05:59:00.004-08:00</published><updated>2012-01-03T00:10:22.096-08:00</updated><title type='text'>2. a brisa pelas pedras</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;“Jac, eu não quero ouvir isso... por favor, não. Não ouse, nem mesmo pense em me dar alvará pra um relacionamento paralelo ao nosso casamento. Não mesmo!” Tinha a cara vermelha e muito vermelha. Não dava pra saber se de raiva ou de vergonha, mas ele bem que queria adivinhar. Na verdade queria era saber se toda a tensão era por ele estar abrindo mão da exclusividade do corpo dela (e seria o caso de raiva) ou se tinha adivinhado um desejo muito íntimo dela (e então, estaria com vergonha). Pensou em perguntar... Quis perguntar ardentemente! Mas o ardor passou em coisa de segundos, o que não passou foi o sadismo que sentia em ver a mulher toda alterada com assuntos de ordem pessoal... Gostava, adorava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas achava um sadismo amoroso, quase saudável mesmo... Porque gostava dela, gostava muito, queria dar a ela tudo que ela quisesse. Mas ela não gostava de ficar alegre, nem de ser feliz, nem de se sentir livre... Nada, nada disso ela queria, tinha muita certeza. Não tinha como ser muito doce, muito gentil e coisa e tal... Tinha de ser cínico e sarcástico quase todo o tempo, tinha de fazê-la sentir-se exposta, confusa, com medo... pra ela nunca ir embora. Sabia perfeitamente que esse não era o casamento dos sonhos e quando pensava na história toda, chegava a se achar muito cruel mesmo... Mas era difícil, as coisas iam saindo do controle sem que se soubesse exatamente por qual processo, não havia muito jeito de conter. Ficou gostando dela um dia, bem assim: acordou e entendeu que já se importava em demasia pra vê-la chorando e não tomar nenhuma providência, pra bem ou pra mal. Então ficou decidido que daria um jeito de dar a ela tudo quanto precisasse, mesmo que fosse alguma coisa moralmente pouco fácil de tolerar. Era nesse pensamento que estava quando não resistiu mais, armou uma cara bem cretina e desferiu a pergunta à queima roupa, se tinha vergonha por estar a fim do outro ou se tinha raiva pela falta de ciúme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, Jac, francamente...” – a cara já não estava tão vermelha. Fazia longas pausas pra falar, devia estar procurando um bom argumento pra resposta – “... francamente... Eu... eu na verdade nem sei o que dizer a respeito disso...” e sorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa! Boa fuga! Era mesmo impressionante a capacidade que ela tinha pra se desembaraçar. E ainda poderia afirmar com toda a “franqueza” (ela adorava essa palavra!) que estava confusa, que não tinha juízo formado e blábláblá, escapando permanentemente do incômodo e sendo honesta, o que era pior. Achava aquilo completamente irritante, mas era uma sensação muito gostosa de sentir, quase como tentar aparar uma brisa com as mãos e não conseguir, mas gostar por ter sentido o vento alisar pele: essa era Livi, uma brisa fugidia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tava legal, por essa ela passava. A questão era que essa coisa de ela ser tão boazinha, tão altruísta, tão abnegada... ah, isso não parecia muito saudável não. Não era saudável não senhora! Tinha que parar com isso, mas onde é que já se tinha visto uma coisa dessa? Então ela ia morar com o pai por consideração à mãe, se casava sem amar por consideração ao pai, se privava de ter um caso por consideração ao marido... E quando iria se considerar a si mesma? Nunca? Nunca, né? Se não, perderia a definição enquanto gente, né? Não era isso não? “Não, querido, tá enganado...” Enganado o-caralho! Tinha sim essa vocaçãozinha pra heroína romântica, essa coisa brega de ser problemática e suprimir os próprios desejos por um bem maior, toda mártir. Acordasse, porque a vida ia passando e ela, tadinha... “Mas o que é que você sabe do que eu quero, Jac? Pode me dizer?” Talvez não pudesse dizer mesmo, achava que não, mas tinha certeza de ela não seria feliz se não fosse obrigada por outra pessoa, essa era sua dinâmica... E pra completar, que a queridinha não tentasse e nem pensasse em lhe dizer o que fazer ou lhe proibir qualquer coisa que fosse, que guardasse as proibições pra si própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verborréia devia ter deixado a Livi muito cansada porque não respondeu e foi tratar de fumar antes das últimas palavras do Jac. E ele olhava seus movimentos lentos e descuidados e distraídos e aéreos... Ela quase que flutuava pelas escadas, não se ouviam seus passos pelo piso de madeira, não se via realizar curvas fechadas e sempre, sempre deslizava um dedo pelas paredes enquanto passava, o que provocava um ruidinho que se confundia com o de sua respiração. Todas as vezes que a via passando, Jac se certificava de que a amava e então tentava se lembrar o que nela o havia seduzido; nunca sabia dizer, eram sempre muitas razões diferentes e nenhuma ao mesmo tempo. Foi a única mulher que teve de verdade, talvez fosse a única até o fim da vida – a ideia era essa desde o princípio, só não entendia porque no fim de tudo era tão escravo, se nem ela mesma reivindicava seus sentimentos. Cansou-se de pensar nisso também e achou muito apropriado a Livi lhe ter oferecido o baseado, porque queria descansar, pensar um monte de bobagens, jantar e até fazer sexo, com um pouco de sorte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento, o Jac acaba de permitir abertamente o trânsito da Livi pra muito além do alcance de sua terra e ela vai parar em alguma altura do oceano, longe, perto de alguém que viria a ser a mais arrasadora paixão de sua vida. Mas ele ainda não sabe disso, ele ainda não sabe de nada. Sabe só que precisa relaxar e dar um jeito de a Livi ficar bem boazinha com ele, o que provavelmente daria muito trabalho naquela noite...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-2540500337837373911?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/2540500337837373911/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=2540500337837373911' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/2540500337837373911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/2540500337837373911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-02.html' title='2. a brisa pelas pedras'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7723656599974739103</id><published>2007-12-13T05:59:00.003-08:00</published><updated>2011-12-22T21:24:50.991-08:00</updated><title type='text'>3. as pedras</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eram seios épicos, dignos de toda uma epopeia, quase um imperativo para o olhar. Não dava pra se desviar deles, nem sendo bicha. Na verdade, gostava muito dos seios das meninas, mas só quando eram grandes assim, que nem os da Livi. Nunca olhava com desejo, era mais o prazer estético mesmo, ver uma coisa linda e feminina e redonda e macia... Era isso. Achava as mulheres coisas muito lindas de se ver e muito raramente se sentia impelido a tocar em alguma – precisava de muito estímulo pra querer. E bem no fundo, mas bem lá no fundo mesmo, gostava de ter um olhar das mulheres que os outros homens não tinham... Essa coisa de não ver mulheres como se vê carne o agradava bastante, dava a sensação de ser bem civilizado e moderno e elegante e o Jac gosta muito de tudo isso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo bem com você, menino lindo?” ela perguntava sempre sorrindo e vinha até ele passando o dedinho pela parede. Sim, estava bem e melhorando, muito contente em vê-la ele havia ficado. Conversaram sobre qualquer outra coisa bem sem importância: ela desviava os olhos em várias direções enquanto ele a olhava muito fixamente... Gostava dela em seu modo de falar e andar e rir. E ela adorava jazz, meldelz, uma moça tão novinha que gostava de jazz, olha só! Muito inteligente e sabida das coisas, como uma tia gostava de falar. Bonita, quase linda, com aquela carinha estranha onde olhos era muito maiores do que nariz e boca. Tinha uma simpatia irresistível por ela... era sim... Como era? O que havia dito por fim? Desculpasse, esteve desatento...&lt;br /&gt;“Nada demais, Jac, uns problemas de grana, pra variar... Tou meio encrencada...” Um sorriso azedo que doía! Mas era coisa muito séria? Era de muito dinheiro que precisava? “Puta!!! Uma quantia tamanha que nem cabe na minha boca pra eu falar dela... A sifra podia ser em dólar, pra você ter uma ideia...” Fechou os olhos com força e os abriu novamente... Entortou a boca e respirou fundo. Nossa, mas em que encrenca ela havia se metido afinal? “Vix, história chata e bem demorada... Coisa antiga... Te conto depois porque tenho que entrar pra trabalhar, né, chefe?!" Riram, era chefe porra nenhuma, parasse com aquilo. Riram de novo, estava certa, precisavam entrar que ele tinha uma pilha de petição pra escrever e ela outra pilha para revisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria na verdade ter ficado com ela pra saber o que estava acontecendo de tão sério, ela estava com uma expressão leve mas não julgou que estivesse realmente tranquila. Mas realmente, não era chefe dela pra se dar ao luxo de dispensá-la... Muito embora devesse ser e seria! Seria se não fosse aquele velho filhodumaputa que era o maior sócio do escritório e pai-carrasco ao mesmo tempo, o filhodaputa! Filhodaputa sim, mil vezes, filhodaputa! Tava acabando com a vida do Jac com aquela historinha estúpida de casamento... Absurdo! Ter que se casar pra conseguir uma coisa que trabalhou muito e muito mesmo, a vida todinha, na verdade, só trabalhando em função disso e o velho vinha com aquela conversinha patriarcal e antiquada de casamento. E o escritório era dele!!! Não tinha nada a fazer a não ser obedecer e ficar no lugar do desgraçado ou ser empregado pro resto da vida e conviver com a certeza de que havia jogado um tempo precioso da vida no lixo. Agora tinha plena consciência de que seu pai tinha simplesmente lhe roubado a adolescência! Estudava feito um desesperado porque o velho se recusava a pagar um cursinho e trabalhava porque tinha de “aprender a dar valor ao dinheiro e ao trabalho em si também”: “você só é um ser humano de verdade se pode viver pelos próprios meios, João Carlos”, foi essa a sentença que o velho deu, trabalhar mesmo sem precisar, ou melhor, trabalhar principalmente por não precisar. Mas tava certo, acabou que tinha se acostumado muito com trabalhar e nem se imaginava vivendo feito playboy... Havia se tornado um viciado em trabalho ao fim das contas, principalmente depois de ver que seu esforço gerava grandes progressos, mas olha só que lindo! Tinha começado como office-boy, depois estagiário, depois advogadinho e agora era advogado fodão, muito considerado. Mas não estava na droga da sociedade porque não era casado, porque não tinha mulher, não tinha família, não tinha moral. Tínhamos aí o problema de ser gay e escolher uma carreira convencional orientada por papai, papaizinho com uma cabecinha de século XIX a mula-empacada-maldita-filhadaputa, sempre tão duro, sempre impedindo seu caminho! Já fazia quase três anos que estava nessa situação de sinuca de bico, sem ter como resolver... E não tinha jeito, gostava de namorar homens, não queria muito arrumar uma namorada, principalmente se fosse uma dessas meninas bonitinhas e burrinhas e espertinhas e que são doidas por carro e grana e vão se virar pra arranjar um caso com o instrutor da academia na primeira chance... E mesmo que conseguisse uma garota legal, nem lembrava mais do que se deve fazer com uma mulher, nenhum ânimozinho, ia fazer uma coitada infeliz. Era desanimador pensar em tudo isso e tanto que já se tinha esquecido o motivo que o levou a reconsiderar – pela enésima vez – toda essa ideia do velho pai. Não se lembrava agora de que queria ajudar sua amiga, Jac estava mesmo envenenado de raiva e completamente cansado e achando que já passava da hora de deixar a tal pilha de petição em dia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7723656599974739103?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7723656599974739103/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7723656599974739103' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7723656599974739103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7723656599974739103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-03.html' title='3. as pedras'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-6883513019380548170</id><published>2007-12-13T05:59:00.002-08:00</published><updated>2012-01-03T00:10:56.098-08:00</updated><title type='text'>4. a brisa e a parede</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O álbum com as fotos do casamento demorou a ficar pronto muito mais do que se imaginava. E ela nem sabia direito porque queria tanto ver essas fotos prontas, mas se pegava pensando nisso distraidamente várias vezes. Talvez fosse pra ver com os olhos como era ser casada, porque sua cabeça e seu sentimento não estavam processando essa informação de forma alguma. As coisas foram acontecendo muito rapidamente, como num romance em que os fatos narrados são tantos que no fim o leitor não se lembra mais de como tudo começou... Perdida e atropelada pela própria história, mas que coisa curiosa. Mas deixava pra lá, deixava... Agora estava largada no lindo sofá de casa e virava as páginas com fotos. Havia usado um vestido simplesmente obsceno na cerimônia civil e na festa, mas não sem protestar muito; o Jac tinha desenhado o modelo e mandado um bom alfaiate costurar: nada mal, conceitual, mas muito provocante. E provocação foi o termo pra aquele casamento, a palavra de ordem do Jac. Era o trio de jazz em vez do quarteto de violinos que o sogro gentilmente se ofereceu pra pagar, era aquele vestido decotadíssimo em vez do modelo singelo que a falecida sogra usou e que o sogro tão gentilmente se ofereceu pra ajustar, era a nata da comunidade gay paulistana presente em vez das pessoas que o sogro tão gentilmente se ofereceu pra convidar e tudo o mais, da comida à tapeçaria. Tudo exaustivo demais pra ela, que estava no meio de um fogo cruzado entre o noivo e o sogro e o que era pior: não tinha podido optar por nada, teve a voz silenciada o tempo todinho. Mas deixava, deixava pra lá sim... Deixava porque o pior , o que havia de mais grosso já tinha passado e havia sido certamente a tomada de consciência das consequências envolvidas naquela escolha. Então... então, examinando bem, era alguém entre a Margarida d’A Dama das Camélias e a Paulina d’O Jogador, era essa a Olívia-do-João-Carlos. Sim, era dele, era propriedade privada dele, pela qual ele havia pagado muito e muito caro e reformado depois da compra, mulher com valor de uso e troca e coisa e tal, partindo quase que pra o fetiche e instrumentalizada, pra completar. Nem acreditava quando formulava assim, parecia estar pensando sobre outra pessoa, nunca sobre si. Mas era a si mesma que estava vendo nas fotos, estava ali, impressa, indelével, inegável. O caminho até ali tinha sido muito confuso e francamente, francamente, não se lembrava dele todo, mas sempre tentava (a gente nunca pode se esquecer do fez a gente ser o que é...). Então revia: o Jac era um conhecido do trabalho e da academia... Era um cara que nadava em grana, coisa que ela nunca teve na vida e com que nunca se importara... Era a doença do papai e a notícia que só se operava nos Estados Unidos... Eram todas as tentativas de empréstimo bancário negadas... Era o Jac, muito bicha, precisando se casar urgentemente pra se dar bem com o pai dele... Era uma proposta indecorosa feita sem pudor e à-queima-roupa que foi aceitando sem pensar muito ou impor condições. Era esse o resumo da história, mas não a história toda... O que tinha feito, meldelsdocel?! Nem havia lhe passado pela cabeça que se tratava de casamento mesmo e não de um trato de aparências, bem novelesco... Nem lhe havia passado pela cabeça que seria a mulher do cara, que dormiria e acordaria com ele todos os dias... todas as noites. Não entendia até agora como tinha se esquecido completamente de perguntar ao Jac se aquele casamento se basearia no sexo, como quase todos são... Não se havia lembrado de perguntar só o mais importante, tomou conhecimento que sim dois dias antes da cerimônia, enquanto provava o vestido de noiva... Ela envergonhada, vestida como uma puta de luxo em leilão de jóias e ele completamente siderado por aquela imagem que, na verdade, ele mesmo havia criado. “Você tá uma diva... Nem eu acredito que tudo isso é meu... – tomou um folegozinho – Aliás, tenta aproveitar sua despedida de solteira porque depois... Cabou a farra!”, isso foi a tensão da história, foi o tapa que a acordou de um transe em que estava já fazia alguns meses... O Jac era mal-e-mal um amigo e agora, maridão, olha só. Teve raiva dele no começo, achou que ele tinha obrigação de ter esclarecido essa coisa estranha de eles dormirem juntos, teve muita raiva, porque ele era gay, caralho! Ele era gay, por que é que tinha de tranzar com ela? “Mas eu nunca falei que não tranzaria, você deve estar louca...” Realmente, nunca disse, mas por que tinha que ser assim, porra? “Me dá um bom motivo pra não dormir com a minha mulher? Ela não quer? Foi se casar por que então? Pelamordedelz, né, Olívia! Te escolhi pra casar porque você não é vulgar que nem as outras meninas que eu conheço, não vai me dizer que você só tá a fim da grana mesmo! Não, nem responde que eu sei que sim, mas se é isso mesmo, problema seu”. O Jac era assim, ia sempre direto ao ponto, uma gracinha, não! Mas deixava pra lá sim... Também, nem ligava muito pra sexo mesmo... Nem ligava... Achava que não pelo menos, mas já nem sabia mais... Fato era que passados dois meses de convivência com ele, não se importava de verdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-6883513019380548170?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/6883513019380548170/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=6883513019380548170' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6883513019380548170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6883513019380548170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-04.html' title='4. a brisa e a parede'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7323544896984713429</id><published>2007-12-13T05:59:00.001-08:00</published><updated>2012-01-03T00:09:10.999-08:00</updated><title type='text'>5. a brisa do mar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Vivia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.........vagando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[em qualquer] via&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[porque não].........via&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;....................................Lívia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tragou, pigarreou e concluiu: terrible... Estava infame na verdade, ela nunca ia gostar de uma coisa dessas. Tá certo que também não ia ler mas se era sobre ela devia ter o jeito dela... As cores dela...Os olhos dela, um azul noturno tão indescritível, qualquer coisa assim, meio onírica... E todo um verde invocado pelo nome dela... Really really bad! Ela era crítica literária, era uma vergonha escrever uma coisa assim em nome dela! No fucking way! Toda ela indescritível... Toda ela escultural, toda movimento e dança...&lt;br /&gt;Olívia. Gostava de falar o nome dela mais e mais a cada vez. Gostava de Ls e Vs e As, que são as letras mais femininas... Preferia Liv, era como a chamava. Mas sozinho, sozinho no quarto à noite por entre brumas verdes embriagantes, repetia muito Olívia, mesmo sem gostar do O inicial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que viu Olívia não viu Liv e não viu nada: estava bêbado com a própria imagem sendo aplaudida por tanta gente e teria se atirado energicamente em quaisquer braços sorridentes. A primeira vez que viu Olívia não viu Liv e só viu Jake, muito sexy, que mandava uma rodada de margarita pra sua mesa e um sorriso. Sea tinha gostado do Jake, tinha sim, achado ele um tesão. Mandou um convite pra uma aula de dança contemporânea, sabe, pra agradecer a gentileza do drink, mas quem apareceu foi a mulher que ele levava à tiracolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda vez que viu Olívia não viu Liv, só viu medo, parecia uma mocinha reprimida em demasia, tinha que ensiná-la a se distender e deu-lhe uma aula de alongamento, recomendando que ela voltasse, que gostaria que dançasse com ele e ela sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terceira vez não viu Olívia, já viu Liv... E houve mais dia nenhum em que não pensasse nela no instante de acordar e também uns minutos antes de cair no sono, até o fim de sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E realidade era que ela não merecia um poema tão infame! Mas as malditas mãos ficavam trêmulas, não escrevia nada que prestasse daquele jeito. Tragou novamente e tossiu. Girou o baseado pelos dedos, era hábil com isso... Gostava de ver a fumaça subindo em espirais por seus dedos e imaginava a mão em chamas internas... Sentia cansaço, a respiração estava um pouco difícil...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, ia mostrar nada a ela não, ela ia ficar meio convencida, ia ter certeza da Verdade absoluta desse momento e ia acabar a graça... A graça, todo mundo tem uma, a dela é a hesitação e a insegurança. Toda assim era ela, de andar vacilante, de beleza contestável, de olhos inquietos, de boca que ensaia o que dizer antes de se abrir. E insegura ela se apaixonaria mais fácil... Ah, ela ia ficar gostando dele sim, a menininha, in one way or in other... Não sabia bem ainda o que ia fazer quando ela gostasse, mas ia ficar feliz... E ia dar um jeito de deixá-la contente também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rasgou o poema, achou melhor escrever uma melodia, uma melodia, isso a traduzia melhor, melodia fugidia... Melodias vagueiam pelo ar... Tragou forte, prendeu a fumaça e tragou novamente... Teve uma queda de pressão, pensou em se sentar ao piano, mas deitou-se, adormeceu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7323544896984713429?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7323544896984713429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7323544896984713429' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7323544896984713429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7323544896984713429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-05.html' title='5. a brisa do mar'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-3570598584032567750</id><published>2007-12-13T05:59:00.000-08:00</published><updated>2012-01-03T00:21:45.819-08:00</updated><title type='text'>6. marola</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Era tão desagradável e feio o costume que as pessoas tinham de especular sobre a vida de outras! Tão feínho, mesquinho... atozinho bem –inho mesmo! Look at this! Olha a cara da Noemi, tão bonita no geral, ficou ridícula com essa boquinha nervosa indagando coisa que ele não ia responder...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vocês tão saindo, Sea? Tão tendo um caso? Fala logo, deixa de ser besta!” Fuck!!! Não falava, só fazia que falava... Saíam sim, claro... Iam pra casa juntos depois do ensaio... Iam à pé... Menos se chovia, se chovia iam de carro. Suspirou longamente, entediado demais! We are the dead, don’t you think? Hm... Seria lindo uma luminosidade diferente naquela sala, a luz fria feriam os olhos do Sea, eles até lacrimejavam... Alguma coisa amarela ou azulada talvez... Uma réstia de luz amarela a dourar os olhos dela... Sol ao pôr-do-sol... Amarelos eram os raios nos cabelos da Liv... Não gostava de nada dourado, só pele... Seu cabelo era dourado e ele vivia pintando porque achava uma cor difícil...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sea, será que você tá prestando atenção no que eu estou te falando? Tou falando com você, ô viajante!” Fuck!!! A voz da Noemi era estridente quando queria chamar atenção! E ele estava entendendo perfeitamente o que ela dizia, muito embora não respondesse. “Então por que não fala nada?” Não queria. “Tá, tá bem, quer que eu te deixe aqui sozinho, mala do caralho?” Não, ela podia ficar. Podia, o Sea não expulsava ninguém. Sorriu apenas com um lado da boca, era seu hábito pra situações em que tinha de sorrir mas não tinha vontade. Parecia um pouco cínico, sabia, treinou bastante essa expressão diante do espelho. “Mas... só pra saber, você tá a fim dela, não tá não?” Ah... Encrespou os lábios, apertou os olhos, girou molemente a mão, queria passar ideia de descaso... “Mais ou menos? É paixão ou tesão só?” Ah... Ah... Paixão sempre! Havia sido apaixonado por quase todas as pessoas que passaram por sua vida. “Mas vai rolar sexo nessa paixão?” &lt;span lang="EN-US"&gt;God damn it&lt;/span&gt;! Oh... Noemi, Noemi... Ficasse calma... Virou-se subitamente e chegou com o corpo bem perto do dela, o rosto bem perto do dela, de forma que se pudesse sentir qualquer expiração. Tocou o dedo no queixo dela e armou uma cara muito sensualizada. Estaria ela querendo saber de sexo por que? Queria fazer? Estava precisando, era isso? Ele podia dar um jeito nisso... “Ai, Sea, mas que merda! – estava nervosinha agora – Deixa de ser oferecido, nojento! Fica o dia todo falando dos seus namorinhos pra todo mundo e vem com palhaçada quando eu pergunto!” Ria, ria baixinho. I just have nothing to say, you know… Sabe-se dele o que ele quer que se saiba e do jeito que ele quer, muito deselegante ser perguntado sobre sua vida íntima. I’ve got to much to hide, Sea sempre tinha uma reticência pra dar como resposta quando não queria falar. “Foda-se você então, Siegfried! Vamos logo treinar que eu tou ficando sem saco com você. A propósito, você não fumou não, né? Vai ficar com essa cara de passado no ensaio não, né?” Confirmou em silêncio, sorrisinho. “Tem que fumar menos maconha, viu!” Okay, se lembraria disso oportunamente. Por hora estava pensando numa sequência bem chata e repetitiva pra passar pra ela... Queria acabar com ela, de tanto cansaço, só pra retaliar... “Bem filhodaputa o senhor, né?” Afetou uma voz grave: “This is me, honey… So… Let’s dance!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Sea realmente se vingou da curiosidade da Noemi como queria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-3570598584032567750?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/3570598584032567750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=3570598584032567750' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3570598584032567750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3570598584032567750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-06.html' title='6. marola'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-5777493568747430415</id><published>2007-12-12T11:21:00.035-08:00</published><updated>2012-01-06T00:50:14.341-08:00</updated><title type='text'>7. o vento e as ondas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;...Olívia sabia que já não era mais o narrador da própria vida. Não era mais...&lt;br /&gt;“You just can’t relax...” Desculpasse, estava pensando em tanta coisa... “So don’t! Just relax!” Tinha que tentar... Não entendia bem a razão por que tinha de estar relaxada, era apenas um rascunho de escultura. Mas se o Sea dizia, era que tinha de ser. Se bem o conhecia, dali a pouco ele seguraria seu rosto entre as mãos (aquelas mãos tão lindas!), fecharia os olhos, tornaria a abrir e tiraria dos dentes um barulhinho sibilante, ordenando que ela se acalmasse. Pronto, já acontecendo: “Schssssssssssssssssssssssssssss...” As mãos dele eram quentes e longas e estreitas e imperativas, ao menos com a Livi eram assim... Não importava o que ele queria fazer com ela, se ele pousava as mãos, era obrigada a obedecer. E agora, ordenava que descontraísse os músculos, mas ela estava de fato muito tensa e não sabia como faria.&lt;br /&gt;“É o seu marido-viado que te deixa assim nervosa, é? Okay... vamos ver... vamos ver... Ah...” Na verdade era o Jac sim mas era por causa do trabalho que... “Schsssssssssssssss... Tira o resto da roupa... Isso, a calcinha também... Calma, não fica vermelha...” A Livi não sabia o que fazer, sentiu uma fisgada forte nos ombros e uma onda de calor e eletricidade saindo do estômago e lhe encharcando todo o corpo, respirava com dificuldade. Estava com o juízo suspenso e não sabia bem como se comportar, confusa, confusa, confusa, mas o que era que havia ali? Queria muito saber o que se passava pela cabeça do Sea... Lidar com ele era como se lançar no oceano sem bússola, ele não dava muitos sinais de suas intenções como as pessoas normais faziam... E havia se acostumado ao João Carlos, um cara totalmente claro, totalmente transparente e tão sólido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas começou a relaxar mesmo... Ah, era tão bom... Não havia notado, deixou de prestar atenção, mas já estava nua, deitada... e o Sea passava as mãos por toda a extensão de seu corpo, com firmeza mas sem força, sem hesitar e sem nenhuma sensualidade expressa. “Parece que o vento esculpiu seu corpo...” Quase não ouviu, tão embriagada que estava com aquela carícia macia... quente... Derretia, derretia toda e as mãos dele a recompunham e modelavam e passeavam por ali e por lá... Seus lábios se encheram de sangue, os seios endureceram, era um desejo animalmente intenso que sentia agora... Teve vergonha, mas não quis pensar nisso por hora, preferia deixar sua pele numa entrega passiva por todo tempo que fosse possível – “não está acontecendo nada, não tenho que ter medo”. Simplesmente se abandonou... Os pelos do corpo se ergueram em resposta automática a um toque na coxa, ela arfou... e ele percebeu. Percebeu – “Droga!” – e deixou isso bem claro, acabou com o transe imediatamente: o filhodaputa teve a cara-de-pau de lamber a ponta do indicador e percorrer com ele o espaço entre os seios, tudo muito ligeiro. Mas o que era aquilo!? Foi o que disse, mas os olhos queriam saber se ele a queria também e continuou quase sussurrando: “Por que é que você se sente tão à vontade em pôr as mãos no meu corpo?” Voltou a estar tensa, a boca seca, os ombros de aço, não conseguia olhar a cara dele e se lembrava de uma novela que havia lido, “uma coisa é buriti outra é buritirana”. O ar ia ficando muito rarefeito, sem ventilar nada nada, muito ruim de respirar. No final, não tinha gostado de dizer nada daquilo, nunca era bom falar nessas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca era bom falar nessas horas e, bobeando, o Sea sabia disso porque em vez de responder lançou os olhos aos dela, até que ela olhasse de volta. Depois, piscou bem lentamente, inclinou a cabeça um pouco e sorriu, rolava os dedos uns pelos outros, parecia uma menininha arteira, mas de um instante pra outro parou com o dengo e a encarou com um sorriso bem sério, desses que dão firmeza pra gente, e era assim que lhe dizia: ela era bem sua, era bem sua mesmo, tinha nada que ter vergonha de estar nua. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Mas nada, nada disso. E se estivesse enganada, ia saber? Uma coisa é buriti outra é buritirana, essa era só uma das leituras possíveis pra o olhar do Sea. Não tinha como saber. Mas sabia que era dele agora... e que tinha mais um motivo pra achar que já não estava mais narrando a própria história. Sea lhe oferecia a mão para que se levantasse e um hobbie. Oferecia uma atmosfera praieira e a voz mais reconfortante “Such a perfect day... I’m glad I spent it with you...” Gostava dessa música. E ele sabia? Sabia como? Ela nunca havia... Ah! Era a cara dela? Era mesmo? E por que? Não falaria? Que chato!!! E quando ficaria pronto o trabalho? Queria ver... Só na exposição? Como assim, que grosseiro! Era ela a modelo, porra! Tinha que deixar ver sim senhor, se não ela não pousaria mais. Seria, seria uma pena sim, ela também achava, mas fazer o que, não? Hahaha! Precisava voltar, voltar e estudar um pouco. Podia sim ir ao ensaio, embora estivesse um pouco cansada. Não se incomodava em ir não, maneira nenhuma. Ele iria, não? Então estava bom... Estava com cara de chuva lá fora, achava que não voltaria à pé com ele não, chegaria encharcada. Mas era bom que chovesse, o tempo estava muito seco, muita poluição...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Às vezes você desembesta a falar umas coisas que não tem a ver com você e não significam nada... É querendo dizer outras que você faz isso, não é?” Nossa, mas que coisa, o Sea tinha mesmo que procurar entrelinhas em tudo por que? “Oh, sorry!!! Se não é isso é o que esse blábláblá? Você tá stressada, Liv? Tá parecendo...” Sim, estava. O Jac... Ele a enlouquecia quando queria... “Ah, é isso... Esse cara... Mas que homem você foi arrumar, hein!” – bem sarcástico. Ah, o Sea devia estar de sacanagem! Ela não arrumou nada, ela foi arrumada pelo João Carlos. “E como é que vocês tão?” – pra falar dessas coisas o Sea ficava todo sério, ela se sentia quase num divã. Estavam do mesmo jeito, ele mandando, ela contestando no começo e obedecendo no final. Era sempre assim. Ele vinha dando pra encher o saco por causa de trabalho agora. Nunca nada do que ela fazia era bom o bastante, ele tinha sempre que chamar atenção, que corrigir alguma coisinha, perfeccionista pra caralho! Era foda! Enchia demais o saco! Daí chegava e achava que tinha que ficar tudo bem em casa, que não tinha que levar stress de trampo pra cama e que uma-coisa-uma-coisa-outra-coisa-outra-coisa, que não tinha nada que ficar de mau-humor por aí... “Sei... sei... E, deixa perguntar... Depois desses discursos ele quer transar também, é?” Ah, nem sempre, mas em geral sim. Muitas vezes sim. “E você deixa ele transar com você, suponho...” Muitas vezes não. “Então tem vezes que sim, é isso? Conta pra mim!” Ele sabia que sim. “Mas me conta, querida, como é isso? Você gosta?” Era claro que não gostava, mas às vezes acabava cedendo por uma razão ou outra. Mas que curiosidade mórbida aquela! O Sea estava sorrindo grossamente, meio cínico. Provavelmente sabia que ela se desconfortava falando de sexo e perguntava de propósito. “Escuta, Liv, tem alguma vez em que você goste de dar pra ele?” Mas que porra era aquela!? Que grosso! Era dela que ele estava falando! – na verdade, estava mais tensa do que envergonhada com o vocabulário, mas não queria transparecer, embora achasse que não conseguia. “Não precisa esquentar, Liv, pode falar numa boa... Juro que não vou te chamar de mal-comida” – sorriu fazendo cara de bonzinho, o filhodaputa – era claro que ele havia notado a tensão. Ficava antipático com aquela cara. “&lt;span lang="EN-US"&gt;I’m just tryin’ to be your friend&lt;/span&gt;…” Certo... certinho... Depois falariam disso então... “Você deve ficar mal com essa história, ãh?” Queria saber? Deixava, deixava então, estava bem, já o conhecia o bastante pra saber que ia insistir no assunto até ter uma resposta. Estava bem, tinha vezes que ela gostava sim de ficar com o Jac, mas era claro que tinha, porque se nunca gostasse de nada, se nunquinha gostasse de nadinha, depois de sete meses de casada já teria tentado suicídio, mas era claro que já teria. “Sei, sei... E em que condições você gosta?” Em que condições? Perguntinha capciosa, não! Ele fazia sinal afirmativo com a cabeça, sempre, sempre sorrindo. Bem... Não sabia exatamente qual era a química certa pra ela gostar do Jac, mas cachaça ajudava bem... E às vezes, quando estava com muita raiva... Ah, deixasse pra lá, estava atrasada. Até depois! “Como até depois? Espera aí, me conta isso direito! Espera... Tá fugindo mesmo? Tudo bem, Lívia, você me paga! Me dá só um tempinho pra pensar no que fazer...” Nada, ia antes que ele retaliasse. Foi-se embora sem beijinho de despedida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-5777493568747430415?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/5777493568747430415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=5777493568747430415' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/5777493568747430415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/5777493568747430415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-08.html' title='7. o vento e as ondas'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-4829157196952934080</id><published>2007-12-12T11:21:00.034-08:00</published><updated>2012-01-08T09:18:35.724-08:00</updated><title type='text'>8. fissuras</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Havia nove noites vez que não conseguia ter uma noite de sono que prestasse – dormia menos que quatro horas e por isso andava trêmulo, muito irritadiço e também meio choroso. Havia quatorze dias que passava mal com quase tudo o que comia, exceto pão – uma queimação no estômago violenta e nojentíssimos refluxos que já não se curavam com sal de frutas nem com leite de magnésia. Havia também quatro semanas que não trepava e isso era um sério complicador pra um cara como ele, que sempre viu sexo como uma necessidade biológica tão básica quanto comer, mas isso era parte da causa dos seus problemas e não um sintoma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jac estava achando que precisava mesmo era de um bom analista, precisava de terapia, tinha de falar com alguém urgentemente. Precisava descarregar o peso que o trabalho acumulava na sua cabeça, porque estava foda! Era muita, muita coisa acontecendo. Andava procurando resolver problemas judiciais de um cliente antigo que só complicava a situação mais e mais a cada vez e cobrava resultados rápidos o tempo todo. Esse cara, era obvio, não ia nada com a cara do Jac e se queixava pra o velho pai sobre a ineficiência do filhinho dele – só não chamava de viadinho porque se o casamento com a Livi era um fracasso, servia pelo menos pra calar a boca de cretinos como aquele, mas era certo que o escroto queria muito chamar de viadinho. Puta saco! (Neuroticamente o Jac não queria acreditar que uma opção sexual, que estava mais pra condição do que pra opção, podia gerar um estereótipo que interferisse tanto no seu trabalho a ponto de perder o respeito, muito embora soubesse que era assim mesmo, que vivia no Brasil e no Brasil era assim e quase agradecia intimamente ao pai por ter obrigado a casar; quando Jac se deprimia essa neurose vinha com toda força lhe perturbar). Paralelo a isso ainda tinha o pessoal do escritório, os outros sócios que também não engoliam o Jac porque ele tinha lá seus planos humanitários de dar assistência gratuita a quem não podia pagar, afinal advocacia tinha que ser acessível a todo mundo – ele sempre tinha achado isso e a Livi lhe deu força pra pôr a idéia em prática, tão linda ela! – mas os velhos filhosdumaputamercenáriosdesgraçados estavam mais a fim de encher o rabo de grana e sobrecarregavam os outros advogados com as maiores besteiras pra não sobrar tempo pra ninguém ajudar o Jac. Tinha também uma tensão horrorosa com o Claudinho que não se conformava com o fim do namoro porque tinha certeza de que o Jac ainda gostava dele e não estava totalmente descoberto de razão, mas o fim do namoro ainda pesava menos do que o motivo do fim, que era fazer bonito pra papai bater palminha – o Cláudio estava se tornando um verdadeiro ativista gay depois que Jac se casou. E ainda tinha a vaca da Tina que queria ter se casado com o Jac no lugar da Livi de qualquer jeito, porque já que ele tinha que ter uma mulher e não curtia, podia ser qualquer uma e ela que já era doidinha pra cair numa cama com ele, se a cama estivesse num belo apartamento nos Jardins seria muito melhor ainda. Ela não se conformava em ter perdido a guerra pra uma moça que chamava muito menos atenção do que ela e dizia o dia todo que a Livi era uma “baratinha descascada” e “arrivista social”. Tudo isso, todo dia, num único andar de um prédio e o Jac ali no meio, se sentindo como sendo cozido na pressão. Pra alimentar as chamas desse inferno a Livi tinha resolvido, por alguma razão misteriosa, que só ia pro trabalho pra cumprir horário e não ia fazer porra-nenhuma direito, o que o obrigava a ter de revisar todo o trabalho dela sempre já que não queria repassar pra outra pessoa que fosse contar a situação pra papai – dentro do escritório ele passava a imagem do casamento perfeito sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era evidente que o casamento era um verdadeiro lixo e que ele segurava nos dentes a imagem da perfeição. Precisava da ajuda dela e ela não estava disposta a fazer nada por ele, nem quarto adentro nem quarto afora. Passava os dias com o olhar perdido, longe demais, voejando por algum oceano em outras realidades... Se ele a chamava, armava uma cara de tédio implacável, caminhava muito indolente, não ouvia o que ele dizia. Choramingava pelos cantos da casa quase o tempo todo aos finais de semana em vez de apanhar sol ou fazer qualquer outra coisa de útil, ficava parecendo ele nem sabia o que com aquela cara-deprê. Ah, e claro, fechou o &lt;i&gt;parque de diversão&lt;/i&gt; por tempo indeterminado. Era lógico que ela sabia que o Jac não a obrigaria a dar pra ele já que não era nenhum selvagem e aproveitava a situação, dizia que não tinha clima e coisa e tal. Tudo bem, tudo bem. Mas era mais lógico ainda que se ela fizesse um esforcinho pra que a convivência deles fosse a melhor possível, teria clima... Vinha com aquele papo de que o casamento deles era uma mentira, mas pra o Jac nunca havia sido, não tinha mentira nenhuma, era só que ele encurtou o caminho e casou sem ter namorado, mas casou com ela gostando um pouco sim, por que era que ela não adotava uma política de gostar-progressivo também? Ele havia adotado e, pra desgraça própria, dava certo, mas tão certo que agora ele estava apaixonado feito um idiota e sentia o estômago retorcer a cada vez em que ela o repelia. Estava começando a se desesperar porque achava que não havia mais o que fazer pra agradar aquela mulher e não podia prescindir dela. Dia após dia carecia dela mais e mais e em contrapartida ela ia pra mais e mais longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A válvula de escape de tanta pressão tinha preço – dois o grama –, tinha nome – era maconha. Fumava compulsivamente durante as noites de insônia, enquanto escrevia petições. Fumava antes de ir trabalhar e quando voltava, fumava pra jantar e pra tomar banho, fumava por qualquer motivo ou mesmo sem motivo nenhum. O Jac sempre se gabou de ser um cara muito moderado mas agora estava perdendo o controle da situação. Fumar não ajudava em nada mas lhe dava uns momentos de calma, levava seus pensamento em outras direções e evitava o choro. Mas essa noite não... Essa noite não estava dando certo. Essa noite a Livi tinha se deitado sem se despedir, tinha vindo jantada da rua, tinha batido a porta do banheiro bem na cara quando foi cumprimentar “Preciso de um banho pra ontem!” Essa era uma noite em que corria tanto perigo que achava que se alguém ligasse, ali, no meio da madrugada, e dissesse um eu-gosto-de-você qualquer ele iria onde quer que fosse pra se jogar num colo imediatamente. Estava sem comer, estava sem dormir, estava sem trepar, estava numa condição subumana e não tinha previsão de quando tudo isso ia passar, mas os prognósticos eram os piores possíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem saber bem por que e sem ver o que fazia, deitou-se no tapete, juntou os joelhos ao queixo e chorou engasgando muito e se perguntando viciosamente o que estava fazendo com a própria vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-4829157196952934080?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/4829157196952934080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=4829157196952934080' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4829157196952934080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4829157196952934080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-09.html' title='8. fissuras'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-223360980040605983</id><published>2007-12-12T11:21:00.033-08:00</published><updated>2012-01-13T01:34:53.458-08:00</updated><title type='text'>9. uma vazante</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Sentado bem na beira, olhava o horizonte e pela primeira vez, não via nada vindo dali. E era realmente curioso porque essas visões de futuro sempre foram um ponto muito forte seu. Mas era que nunca saberia dizer por que ela teve de ir embora, por que fugia em vez de voltar pra casa. Sempre foi uma cabeça muito pragmática, não fantasiava, quase nunca sonhava. Só que agora... agora lhe restava apenas um sentimento que sempre deplorou na vida, agora era só esperança, esperança de que ela voltasse. Tinha também uma pena doida de si mesmo, um lamento ruim pelo que estava acontecendo em sua vida... Ah, mas o que houvera em sua vida, como tudo mudou tanto sem que ele pudesse conter? O pôr-do-sol paulistano nunca foi tão melancólico... Suspirou... suspirou diversas vezes seguidas. Aproximou as mãos do rosto, ainda guardavam o cheiro dela, foi quase um consolo pra aquela saudade de amargar... Tornou a olhar a Bela Vista, dali se via toda a Nove de Julho e mais tanta coisa... São Paulo acontecendo lá embaixo e ele ali, parado, lamentando... A Livi devia passar um tempo no vão do Masp &amp;nbsp;quase todos os dias, ele ficou contente por fazer alguma coisa que de alguma forma o aproximava dela um pouquinho. Olha só, até conseguiu sorrir... É, estava muito amargo mesmo, quase não se agüentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Quer fumar um?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, obrigado. Nem procurou saber quem oferecia, não achava adequado fumar em plena Paulista, apesar de muita gente fazer isso. Tanta chance de rodar com a polícia...&lt;br /&gt;"Hey, take it. You'll feel better..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, então era ele... "Sim, sou eu... E é você. Sounds like me and you". Sea oferecia a mão a cumprimento, mas o Jac o puxou pelo braço e beijou no rosto: tinha saído do armário afinal. "Hey, congratulations! Vai fazer uma festa?" - foi logo se sentando e acendendo o cigarrinho, bem a despeito do sorriso propositadamente amarelo do Jac. Mas como tinha gente sem bom-senso nesse mundo, meldelz! A gente sempre se surpreendia... Ia fumar ali mesmo, na Paulista? “Bem, eu acho que posso arcar com todas as conseqüências de gostar do que eu gosto e fazer o que eu quero...” Esse parecia um argumento que merecia uma boa resposta, especialmente por ter vindo do Sea, mas Jac teve muita preguiça de pensar. Esteve em silêncio um momento e acabou aceitando fumar, talvez não tivesse nada a perder mesmo. O Sea sorriu; nesse momento o Jac não sabia se gostava dele ou não e nunca soube antes também, mas agora gostava de olhar pra ele, estava lhe parecendo mais bonito que das outras vezes... Menos estranho pelo menos, não usava maquiagem nem roupas extravagantes, só um jeans e uma blusa larga muito velha, que havia sido da Livi – nela ficava péssima, muito grande, mas caía bem a ele – e não usava as horríveis lentes de contato que tiravam a cor dos seus olhos: Jac acabava de descobrir que Sea tinha olhos verdes muito escuros e achou bem bonito... Era todo meio bonito na verdade, só precisava ganhar um pouco de peso e se bronzear para perder a cara-de-doente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, tou aqui curtindo o veneninho da ferroada dela, cê também, né? Conta pra mim.” A pergunta foi tão fora do que Jac esperava que se engasgou com a fumaça: não era possível que justamente aquele cara estivesse puxando assunto de amigo. Mas que coisa! Se bem que pareceu interessante conversar com ele um pouco, talvez pudesse dar umas cutucadas doloridas, pra exercitar o sadismo. Prendeu bem os olhos à cara do Sea e respondeu que sim. “Saudade é pior no começo, queima mais... Depois vai ficando mais suave... Ela foi embora hoje, não?” Sim, havia pouco. “Ela não quis que eu fosse junto até o aeroporto...” Mas era claro que não! Ela estava fugindo por causa dele justamente... “Por minha causa? Escuta, Jac, você tem certeza que é por isso?” De mágoa pura pelo morte do pai era que não havia de ser, não?! Por que mais? “Olha, Jac, eu tenho a sensação de que quem acabou com a vida dela foi você, muito antes de mim...” Achasse o que quisesse, não era seu o problema. Preferiu estar em silêncio por uns instantes pra evitar animosidade, porque estava dando uma vontade de encher a cara do freakzinho de porrada... Teria de se conter... Mas o cara teve um acesso de tosse tão violento, ficou parecendo tão fraco, deu até pena... Hahahá, tudo bem, estava vingado no momento. Riu mais um pouquinho. “Você é meio sádico, não é, Jake?” Ah, não, não ia falar disso justamente com o doente do Sea... Mas era sim, no fundo era e sabia que o outro sabia. O que mais irritava no cara era que ele tinha uma perspicácia doentia – achava mesmo era que tudo ali era doentio, mas também não falaria disso. E o Sea estava dando risadinhas, maldito! Tinha a impressão de que o Sea scaneava todos os seus pensamentos, feito água entrando pelo ouvido, e se sentiu um pouco vulnerável, um pouco mais do que já estava; não gostava de ficar vulnerável, mas sabia reconhecer quando não tinha mais jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sea se acomodou um pouco mais perto, numa familiaridade bem surpreendente. “Posso te fazer uma pergunta... bastante indiscreta mesmo?” O tom de confidência naqueles olhos enormes chegava a dar medo... E adiantava dizer que não podia? Já tinha feito algumas... Falasse então. “Você por um acaso tomou banho antes de sair de casa, Jake?” Nossa! Qualquer pergunta nesse mundo era esperada, menos essa! Não, não, não havia mesmo a menor, nem a menor chance que fosse de o Jac imaginar que teria de responder àquilo, apenas arregalou os olhos e fez um sinal negativo com a cabeça, bem discreto. Sea sorriu simpático, sabia que não. Mas sabia por que? “Você tá com o cheiro dela... do corpo dela... nas mãos e no rosto – tocou os dedos de Jac bem levemente – mas mais nas mãos... Você deve ter catado a noite toda, imagino... Ela gostou?” Jac sentiu um ânimo estranho: queria saber da verdade, então tava bem, ia saber. Sim, tinha transado com ela sim, a noite toda, todinha, na sala, no quarto, no banheiro, na cama, no chão, na mesa, de pé, deitado... E foi sexo oral, anal, mão... Teve de tudo... Se ela gostou? Claro que sim! Ela tinha uma tara louca em ser comprada. “Em ser comprada? – era uma cara de espanto e Jac adorou poder surpreendê-lo também – Você... Não! Você não pagou pra ela te dar, né? Pagou? Sim... Sim, você pagou pra ela te dar... Oh-my-god!” Era evidente que sim, como achava que ela havia conseguido comprar as passagens de avião e um lugar pra ficar em Buenos Aires? Ele deu a grana pra ela... – Sea abaixou a cabeça – mas ela não quis aceitar de graça. Ela tinha pedido as contas no escritório, queria pegar a grana do FGTS e sair por aí. Mas o dinheiro não ia dar pra muita coisa, ia acabar rápido, e o Jac achou melhor dar uma boa grana pra ela. Em vez da demissão deu uma licença por tempo indeterminado, se ela voltasse para o Brasil, teria emprego pelo menos. “Deu um jeito de não perder pra sempre... É simples e perfeito, eu não teria feito melhor... Mas é claro que não... É a sua ex-esposa, você deve saber lidar com ela... – tinha uma melancolia grande na cara agora – Cacete, tou admirado com você, tou mesmo. Eu queria ter passado uma última noite com ela também...” É, sabia... Sabia sim, mas não quis falar, olhava longamente o rosto fino do Sea e achou que tanta tristeza deixava-o realmente mais bonito. Teve uma compaixão muito grande, sabia que deviam estar sentindo quase a mesma coisa naquele instante e não era nada agradável. Abraçou os próprios joelhos, deitou o rosto sobre eles, tornou a olhar a Bela Vista. Era realmente um lindo entardecer, lindo que doía. Alguma brisa trazia um cheiro de manacá e ele se lembrou de que ela gostava muito de manacás e que o pé que ela havia plantado no jardim do prédio estava grandinho agora... Sentiu um cafuné nos cabelos, era o Sea, parado bem ao lado, pertinho. Olhou os olhos dele, estavam dóceis e tristes, dava vontade de olhar mais. Ele agora tocava o rosto do Jac com os dedos, numa delicadeza própria de criança; avançou devagar e lhe deu um beijo leve e molhado na boca... Depois deu outro... E o Jac o afastou educadamente antes do terceiro. Mas o que era que acontecia com o Sea? “São só uns beijos, Jac... Você não saiu do armário?” Sim, tinha saído mesmo, mas não era por isso que sairia beijando o primeiro que aparecesse – disse isso por não saber o que dizer, estava um pouco assustado com o inusitado da situação. “Pára de besteira... Eu sempre tive vontade de beijar você e acho que você também, né? Ninguém paga drink pra alguém que não conhece se não tiver segundas intenções... E você já me fez isso mais de uma vez...” Sim, realmente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo que ia concordando, uma idéia muito surreal lhe passou pela cabeça e a teria repelido se não achasse que o Sea era a coisa mais doentia que já tinha visto na vida, ia até se levantando pra falar: escutasse, estava dando aqueles beijos porque ele tinha o cheiro da Olívia na boca, era isso? Sea se levantou também e segurou os passadores de cinto da calça do Jac. Riu. “É, é por isso também... Claro! Dá pra pegar vocês dois com um esforço só, olha que prático?! – riu de novo – Mas não se sinta depreciado por isso, querido, por favor... Prometo que não te peço pra vestir a camisola dela se a gente dormir junto algum dia...” Riu novamente e olhou alegrinho pra cara do Jac, que se sentia um pouco mais relaxado e dava um tapinha com o indicador no queixo do outro. Riam-se um pra o outro. O Sea era um pouco mais baixo que o Jac mas sempre lhe deu a impressão de ser mais alto... Devia ser porque era muito magro ou talvez porque não era mesmo nada do que parecia ser. Jac recebia uma carícia no rosto sem saber quais eram as intenções verdadeiras por trás de tudo aquilo. O que estaria querendo? “Olha, Jake, no momento só ficar aqui com você mesmo, e se puder ser bem pertinho melhor” Sim, certo, mas o que mais queria? “Schssssssssssssssssssssss – apontava o céu, que tinha um cor-de-rosa fantástico – Pára com isso, fica comigo hoje”. Não sabia, não sabia se uma coisa daquela valeria a pena e, muito embora a proposta parecesse sedutora, não achava que tudo seria muito simples na manhã seguinte. Ah, e a propósito, podia chamá-lo de João Carlos mesmo. Sea riu de novo, baixou a cabeça, tornou a olhá-lo. “Não vai atender se eu te chamar de Jake?... Tá com tanto medo assim de ter alguma intimidade comigo?” Ah, tinha medo sim. Tinha visto o que ele teve moral pra fazer com a Olívia. “Ninguém aqui falou em casamento... Jake... DJEEEI-KE... Jake... E a propósito, você não tirou minha mão da sua cintura até agora...” Realmente, realmente... Pensou que precisava encontrar motivos pra afastar aquele homem de si e, se não fazia, era que de fato não queria. Mas o Sea ainda continuou: “Olha, eu acho na verdade que você não tem nada a perder...” Nem a ganhar tampouco, né? “A ganhar? Talvez sim... Você não vai dormir sozinho pelo menos, o que é um perigo pra gente carente...” Teve dúvida quanto ao que fazer por um instante, mas o Sea fez uma carinha travessa que desmanchou a hesitação. Beijaram-se. Abraçaram-se longamente... intensamente... Voltaram a se beijar e o Jac aprendeu que o Sea beijava com os olhos muito fechados.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-223360980040605983?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/223360980040605983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=223360980040605983' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/223360980040605983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/223360980040605983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-10.html' title='9. uma vazante'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-8606736652455520317</id><published>2007-12-12T11:21:00.032-08:00</published><updated>2012-01-13T01:59:13.378-08:00</updated><title type='text'>10. a erosão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Os olhos pretos do Jac eram a coisa mais preta que a Olívia já vira em toda a vida: muito, muito pretos. Bobeasse, nem a cor do universo infinito não era tão preta como os olhos do Jac. Tinha cara de trabalho sério e a Livi achava que era isso que o deixava mais bonito – devia ser o charme dele. Nem entendia como uma pessoa que nem ele, sempre tão sóbria, acabou virando gay, mas um dia ele explicou que o negócio dele tinha mais a ver com namorar uns homens do que ter um estilo gay de ser e viver e vestir e tal. O Jac era assim mesmo, super bem articulado e muito certo em tudo o quanto fazia, tipo uma fortaleza mesmo. Era sim, mas naquela manhã, Olívia ia ver que até muralhas de pedra podem cair sob efeito de ventania constante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou, era sábado, o Jac não estava ao lado na cama. Estranhou, pensou em voltar a dormir, pensou em levantar pra procurar o Jac e resolveu dormir mais uns minutos... Mas não conseguiu. Levantou-se e foi até a sala e nada de Jac na sala. O escritório então... Não estava sentado diante do computador... Meldelz! Mas o que tinha acontecido com ele que estava deitado no chão enrodilhado daquele jeito? Meldelz! A Livi estava estática, sem saber o que fazer, qualquer coisa lhe parecia ruim. O Jac certamente não estava passando mal e nem morto, estava só dormindo mesmo e pra ter dormido ali, daquele jeito, era que a noite devia ter sido uma das piores da vida. Já tinha um tempo que achava que o Jac tinha tomado ares Kafkianos, nunca tinha nada muito positivo estampado na cara e nem no que falava... E meio tenso, perdido, o próprio Joseph K. E a grande verdade era que se o processo ia mal desse jeito ela tinha uma parcela de responsabilidade relativamente grande. Sentiu um frio de morte lhe correndo a espinha toda. Precisava tirá-lo dali, abaixou-se, tocou o rosto. Ele despertou muito assustado: “Lívia... Nossa, que... Nossa, que dor de cabeça, Lívia! Tou mal...” Mas o que era que ele tinha? Queria que ela fosse buscar alguma coisa? Era melhor sentar um pouco, sair do chão... “Quero nada não, Livi... Mas fica aqui comigo” – o olhar era sonolento e sombrio e frágil, feito de criança doente. Esse era o tipo de olhar que a obrigava a fazer as coisas, mas nesse caso, faria o que ele pedia mesmo sem o tal olhar. Fez com que ele se acomodasse em seu seio e o abraçou, queria dar carinho e cuidados, dizer alguma coisa boa... Mas ele encaixou o rosto entre os dois seios dela e a apertou nos braços com tanta força que ficava difícil pra falar. Daí, ah-meldelz, já era sacanagem dele fazer aquilo, só podia ser! Daí ele chorou com muita e muita vontade! Não soluçava nem nada, só inundava sua blusa com um rio que minava das pedras de ônix que tinha nas órbitas, tipo rio desatado mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Livi estava se desmanchando no meio de tantass lágrima, não suportava que alguém sofresse tanto assim por sua causa, estava se descontrolando. Não tinha coragem de pedir que ele parasse e nem podia, mas gostaria. Abraçava, deixava... Deixava chorar, ele devia estar guardando isso havia tempo. Deixava... Deixava também que as defesas contra ele afrouxassem, deixava sim... O que mais haveria de fazer? Era isso que todo aquele choro estava reivindicando... Deixava... Era uma criancinha que vinha numa cesta rio abaixo, como não iria recolher? Como não? O Thomas tinha recolhido a Teresa também, o Thomas, tão leve, cuidou de toda a fragilidade da Tereza, pôs pra dentro de casa e da vida a Tereza e sua pesada mala, em plena Praga em revolução... E esse era o romance de sua vida agora. Livi era Thomas e tomaria sua Tereza pra si, não a deixaria porta afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segurou o rosto do Jac com as duas mãos, ele já parava de chorar e mantinha os olhos fechados, a cabeça baixa. Falasse, falasse com ela, ela estava ali com ele agora... Falasse... “Livi, eu... Eu não sei...” – tornou a chorar um pouco, engasgou, não conseguia dizer o que precisava. Falasse, não tinha problemas, ela ajudaria no que fosse. “Olívia, ah... Ai, Olívia eu, eu amo você... Eu não ia te falar, não queria que você tivesse pena... Mas é que... Eu... Desculpa...” Chorou outra vez. Era de fato a primeira vez que ouvia eu-te-amo do Jac e o desconcerto foi tamanho teve medo de si mesma. Agora sim, agora estava bem fodida! Tereza em seus braços pra sempre, nunca mais conseguiria ser egoísta e ignorar sua vida conjugal... Nunca mais teria o direito de negar nada a ele, nada do que ele realmente precisasse... Agora tinha um marido de verdade, de-fato-e-de-direito, homem pra amar e respeitar até que a morte separasse, era isso, e teria de aprender a amá-lo rapidinho, se não ia ser pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por hora tinha que resolver o que fazer com o eu-te-amo do Jac, que ainda estava reverberando pelo ar. Porque dissesse o que dissesse qualquer psicanalista ou filósofo desse mundo, lembrava mais de Espinosa e sabia que quem ama precisa ser amado de volta igualzinho, na mesma medida. E não ia dar pra responder também-te-amo imediatamente porque o Jac tava triste mas não era retardado e não ia acreditar, ia achar que ela dizia por pena e estaria certo, ia ser pior. Nesse caso então era melhor apelar pra outras esferas do amor, era melhor ir beijando e tirando a roupa porque se com sexo se não decide uma guerra, pelo menos se dá uma trégua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esteve por cima do Jac todo o tempo porque sabia que ele gostava, mas depois de terminar, deixou que ele se descansasse em seu peito. Fazia tanto tempo que não se deixava tocar pelo Jac que já estava esquecendo como era, o jeito dele, mas sabia que não gostava muito. Só que naquela manhã, toda a melancolia fez do Jac um amante irresistível. Não entendia por que e nem queria, mas era um dos melhores sexos que já tinha experimentado. Foi assim o fim de semana inteiro.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-8606736652455520317?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/8606736652455520317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=8606736652455520317' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/8606736652455520317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/8606736652455520317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-11.html' title='10. a erosão'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7155064513653805542</id><published>2007-12-12T11:21:00.031-08:00</published><updated>2012-01-13T02:27:02.221-08:00</updated><title type='text'>11. pedra rolante</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Esteve relutante em ir à tal festa por um tempo, tinha um tanto de serviço atrasado pra terminar e sabia que se saísse iria dormir até mais tarde e o trabalho esperaria mais um tempo. Mas a Livi acabou conseguindo convencer propondo uma barganha muito sem-vergonha. “Vou sair de qualquer jeito e queria você lá comigo. E se você for, pode fazer alguma maldade bem sacana no quarto comigo depois” e fazia uma linda carinha de pervertida. Tava bem, o apelo ia funcionar daquela vez. Agora escolhia com todo o cuidado a roupa que usaria, gostava de estar maravilhoso em eventozinhos sociais, especialmente os da Livi, onde só ia gente moderninha e diferente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A noiva já terminou?” – estava linda, sorrindo, toda iluminada por um pó brilhante no rosto e no colo, o cabelo dividido, quase uma melindrosa... Deu um abraço por trás e uma mordida nas costas. Gostava muito quando ela tinha esses arroubos de afetividade, era uma brisa de veranico no meio do inverno. Estava adorando o vestido que ela usava, o decote nas costas era muito sedutor. Ela nem respondia, ria simplesmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou a tal festa percebeu que a diversão morava antes e depois dali, porque já se sentiu deslocado no primeiro cumprimento que recebeu. Um homem mais velho, muito expressivo, que dava beijos intensos em todo mundo em vez de um aperto de mãos. Passados alguns instantes Jac se deu conta de que quase todo mundo por ali fazia a mesma coisa. Povinho alternativo pra cacete! E se sentavam no chão e riam alto e faziam críticas abertas uns aos outros sem quaisquer eufemismos e se sentavam no colo uns dos outros e trocavam selos na boca e se vestiam às vezes com muita elegância e outras sem nenhuma mas sempre dando um jeito de chamar atenção... Era um baile de egos! Um querendo saber mais que o outro sobre moda ou cinema ou teatro ou qualquer outra arte... E a Livi era tão desembaraçada naquele miolinho... Voejava de lá pra cá com o dedinho passando nas paredes, sorridente, quase uma ninfazinha. Achou muito curioso que fosse aquele o mundo dela porque pra ele tudo aquilo era muito artificioso demais! Dava até uma sensação de sufocamento ficar ali parado esperando a Livi retornar de sua volta olímpica pela pista. Mas voltou e lhe deu o braço, o que o deixou menos tenso. E surge então uma mulher extremamente indiana vinda sabia-se lá de onde bem na frente da Livi, vira pra o Jac e diz “Bento é você com sua amante”, beija-a na boca bem rápida e vai passear por aí. Quem era ela? O que era aquilo? “Não sei, Jac, não conheço essa menina.” Fosse quem fosse, era uma sujeitinha muito folgada, não!? “Tá com ciúme?” Não, não era ciúme, mas e se fosse? A vaca tinha de dar um jeito não provocar situações, não? “Deixa... Deixa quieto... Esse povo tem isso de gostar de causar um pouco de impacto mesmo... É que nem aqueles seus amigos falando da viagem que um fez pra Riviera, do carro novo que o outro comprou... Mesma coisa. Cada um aparece com o que tem.” Mas ela, Olívia, ela não tinha tanta gana em aparecer e também gostava das mesmas coisas que aquela gente toda... “Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito, gosta de se comparecer. – riu – Foi o Guimarães que disse isso... Mas é verdade, eu acho que já passei da idade...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, tudo bem. Chegou mais alguém que puxou assunto com ela e Jac resolveu olhar a paisagem, se sentindo meio que antropólogo, meio que psicanalista. Ficava imaginado quais haviam sido os problemas na infância daquela gente... Nossa, havia num canto mais escuro um casal completamente estranho! Era um cara negro, todo bonitão, de blaser e cabelo black-power e uma mulher com um vestido muito sóbrio e reto e um cabelo curto, muito vermelho e bem penteado. O detalhe era que ela tinha mais altura que namorado, que também não era baixo. Era uma coisa impressionante mesmo, Jac estava contente em poder vê-los de longe... Ele sorria muito, gesticulava muito e parecia muito alegre; ela era mais contida, chic, parecia uma bailarina... Tão branca! “Jaqueeee, tou falando com você!” Nossa, desculpasse, tinha se distraído. Estava tudo bem? “Claro! Acabei de experimentar uma cachaça de framboesa fantástica. Quer provar também?” Não, era melhor não, tinha de voltar dirigindo ainda. A propósito, conhecia aqueles dois lá no outro canto? Lá, lá no escuro, o negão e a ruiva alta... Ela olhou e deixou-se gargalhar mesmo. “Nossa, não acredito, que coisa incrível! Eu conheço sim, claro, mas não é uma mulher, é o Siegfrid. Vem, vamos lá dar oi pra eles.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram. Realmente, de perto se via que era um rapaz. “Você não lembra dele, Jac? Era o cara que a gente foi ver uma performance numa balada lá no centro, lembra? Tava todo de David Bowie no dia, você tinha gostado dele, tinha até mandado umas margaritas na mesa dele... Lembrou?” Ah, claro... O David Bowie... Sim, tinha se lembrado, mas nunca, nem em mil anos o reconheceria. Naquela noite tinha ficado um pouco bêbado, viu o cara dançando no palco, achou interessante. No fim da performance o cara abaixou e mandou um beijinho com o dedo e o Jac, que tinha então uns três ou quatro meses de casado, estava desesperado pra beijar um gato... Mas acabou não beijando não. Uma amiga da Livi apareceu com um cartão, disse que o tal David Bowie tinha dito pra ele ligar, pra aparecer na escola de dança em que ele trabalhava pra ganhar uma... aula. O Jac queria muito ir – assistir aula de dança o cacete! – mas só naquela noite, já não achava que compensava o crime no dia seguinte e o problema não era a Livi gostar ou achar ruim, era só que ele, João Carlos, não estava disposto a viver uma mentira com ela, queria ser o melhor marido possível. No final, ela é que foi até lá e acabou fazendo o curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi Sea, tudo bem?”, e como os outros, o Sea a recebia com um maldito selo na boca. “Esse é o João Carlos, o meu bofe... A gente chama ele de Jac”. Sea olhou nos olhos, com cara de malícia: “Sim, eu sei quem ele é... Então, e esse aqui é o Marcos, meu namorado”. O tal Marcos sorria muito simpático, parecia sincero e menos afetado que o resto das pessoas. O Sea segredou qualquer coisa pra Livi, depois pediu: “Ãh, Jake, eu poderia pegar sua mulher pra mim um tempinho – riu – Te prometo que devolvo limpinha...” Claro, levasse... O folgado-filhodumaputa tinha uma cara muito arrogante e era bem mal-educado por ir falar baixinho com ela por ali e deixar o namorado e ele, marido dela, pra escanteio... Mas estava bem, daria um jeito nisso depois... “Não fica queimado, João! O Sea é assim mesmo, ele gosta muito de aparecer...” – riu. Não, tava tudo bem – ao menos era o que dizia mas nem tinha intenção de fazer o Marcos acreditar. O Sea era assim sempre então? “Assim como? Vaidoso? Sim, sempre... E ele deve ter ficado com ciúmes de você com a Olívia também, sabe? De ela ter de dar mais atenção pra você do que pra ele...” Mas o Jac era marido dela, isso não tinha sentido. “As pessoas não precisam fazer sentido, João, e o Sea faz questão de não fazer mesmo.” Realmente, percebia-se pelas roupas dele também. Usava vestido sempre? “Não, na verdade não. Mas já teve vez que ele ficou usando um tempo. Esse aí ele viu uma mulher numa revista usando e resolveu copiar o molde, mas deu uns toques meio Matrix, tá vendo...? Uma coisa meio igual batina, só que dá mais liberdade de movimento. Ele mesmo sentou na frente da máquina e costurou... Ele é criativo...” O cara já estava fazendo cara de bobo apaixonado, falando de como o outro era bacana, mas o Jac não tinha o menor ânimo pra escutar as exaltações. Olhava pra Livi, ela se divertia, ria muito. O cara da batina estava com a mão no decote das costas dela... Agora se encaravam, pareciam ter uma proximidade incomum de almas. Chegavam mesmo a ter os rostos parecidos, os olhos muito grandes, narizes longos e estreitos, bocas pouco rasgadas, só as cores diferiam, ela bem morena, ele bem branco... “É, eles são até parecidos mesmo, são da mesma fôrma, né, João. Olha, até os trejeitos...” E ele, Marcos, não tinha ciúmes do namorado que saía por aí beijando todo mundo? “Não, não dá pra ter ciúmes do Sea, não. Mas na verdade eu nunca fui muito ciumento. E nosso caso é bem sossegado, se ele toca ou não um puteiro o problema é dele. Mas pra você ter me perguntado isso é que você tá com ciúme.” Estava sim, estava incomodado. Porque nem em mil anos ela se alegraria ao lado dele como estava naquele momento. Mas não diria isso, não queria ser desagradável ou emotivo no meio de uma... festa! Saco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles voltavam, voltavam de braços dados deslizando e rindo e olhando pra trás. A Livi quase tropeçou no Marcos sem olhar por onde andava, teve o Jac de escorar pra ela não cair. Como o braço dela ainda estava preso no Sea, também teve de pedir permissão pra pegar de volta a própria esposa. “Prontinho, Jake, está entregue e a salvo... a sua... mulher...” – ele olhava bem cínico e muito discretamente apertou a bunda do Jac, que não acreditou que aquilo poderia estar acontecendo e perdeu a paciência: foi logo apertando o braço do cara e falando baixo e incisivo “Você é muito folgado, sabia... Tinha que apanhar um pouco pra ficar esperto... Mas eu não vou te bater... Porque eu acho que é isso mesmo que você tá querendo, vou ter que pensar em outra coisa”. O Sea olhava sem mudar a expressão do rosto, era mesmo um ator, não seria muito fácil lidar com ele. E algum idiota ainda o salvou da situação. “Mas escuta, ô showman, você não vai dançar pra gente não? Tinha prometido, achei que essa roupinha bonita era pra isso”...&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;“Eles querem que eu dance, Jake. A gente tem que atender o público. Você me deixa ir dançar?” – sorria muito falsamente e, pra Livi – “Se lembra do que eu te ensinei de Zouk, né? Vai ter uma provinha a-go-ra!”. Pediu-se música, dançavam no meio do salão, todo mundo em volta olhando os dois... Ele a conduzia pelos giros e requebros da dança como se ela fosse uma pluma e toda uma atmosfera de sedução pairava baixa em redor deles. Era bonito de ver, ela tão linda e forte, os músculos marcados debaixo de tecido fino do vestido e ele com uma elegância de mestre-sala. Bonito sim, bonito demais. Era naquele movimento que ela se largava, que voava... Ao fim da dança todo mundo aplaudia muito, ela sorria e escondia o rosto e o Sea agradecia os aplausos feito um verdadeiro astro. Naquele instante o Jac entendeu que o corpo da Livi era solto e leve e que prendê-lo seria agarrar uma nuvem com uma sacola de supermercado.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7155064513653805542?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7155064513653805542/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7155064513653805542' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7155064513653805542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7155064513653805542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-12.html' title='11. pedra rolante'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-8720669606743721932</id><published>2007-12-12T11:21:00.030-08:00</published><updated>2012-01-14T01:40:05.860-08:00</updated><title type='text'>12. o mar cantava ao vento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Deixava... Deixava sim, tudo bem. Era só por hoje, nada demais. Nada assustava, ela apenas se descansava, se sentia sem ter que se proteger. Eram muito bons amigos - amigos que se gostam, só isso, uma coisa tão íntima, só dela, um instante particular. E era tudo tão bom... Tão suaves as mãos... e gentis e... Era alguma coisa de que ela precisava, um pouco de fantasia (não dá pra ser tão responsável assim o tempo todo, muita pressão!). Um alumbramento que chegava e desde logo era verão. Tudo muito natural pra ela, como se as longas mãos do Sea fossem mais uma ondulação do seu próprio corpo...&lt;br /&gt;Uhn... Na verdade, achava que não sabia onde o Sea queria chegar com tudo aquilo... Porque aquela história de fazer escultura era muito pouco convincente, mas estava bem, mesmo assim, tudo bem. Deixava, certamente ele a queria bem. Não sabia com que tipo de querer, mas devia ser, tipo, um querer-bem. Porque fazia com que ela se sentisse bonita, bem bonita, bem perfeita em seus desenhos e linhas. Ah, só podia ser coisa de quem gosta, coisa de amigo, uma sensualidade tão inocente. Sempre toque de superfície, suave... A brisa da manhã pairando pelas ondas do mar, quase um sussurro de paixão. Podia gastar todo tempo da vida nesse sentimento de música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sentimentos de música, eles são paixões que entram na alma da gente pelo sensível mais passivo, que é o tímpano... Daí, vai gravando os sons na nossa memória de sentidos e vai alterando a ânimo da gente pra alegre ou pra triste, depende, a gente escolhe a música certa pra cada instante de alma... Mas o bom é que a paixão arrefece e se apaga quando a música acaba. Depois, só lembrança. A Lívi ouve música o tempo todo, especialmente quando tem os sentimentos meio mornos, quando faz falta uma emoção arrebatadora natural, falta que a ela acontece com frequência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Sea, ele era... era uma melodia de toque e de cores e perfumes, tipo uma música sinestésica, tipo um poema simbolista ou tudo isso junto, uma fanomelopéia. Tão bom, nem parecia verdade.&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Não pensava em nada, nem em si, nem nele, não tinha como ser melhor. Quando ele tirava as mãos da sua pele dava um froiozinho e um arrepio sempre... "Fine... Are you cold sweety? Tudo bem?" Sim, tudo bem, e sorria. Em geral, se vestia e saía, mas hoje, agorinha mesmo, o Sea a segurava pelas mãos. "&lt;span lang="EN-US"&gt;I need sleep... Sleep close to you... I think I dreamed about you last night" Dormir, ah, sim... &lt;/span&gt;Podia ser, outro dia, menos hoje e ele sorriu amarelo, não muito contente com a resposta. Mas precisava ir, tinha de ser assim por hora - mesmo porque não estava preparada pra nada que não fosse imediato. Ele lhe deu um beijinho nos lábios, como de costume, disse que ligava e que ela ligasse se precisasse...&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Mas a dona Olívia não queria ouvir nada, preferia se lembrar da última melodia antes de o dia voltar ao seu normal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-8720669606743721932?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/8720669606743721932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=8720669606743721932' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/8720669606743721932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/8720669606743721932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-14_12.html' title='12. o mar cantava ao vento'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-4642114955479674790</id><published>2007-12-12T11:21:00.029-08:00</published><updated>2012-01-14T01:54:27.251-08:00</updated><title type='text'>13. vento do sul</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;A Lívi não gostava muito de falar, sempre preferiu escrever. Bom, na verdade, não se incomodava em falar, mas era mais dada a escutar mesmo. Quando ficava triste, mas triste de não ter jeito, preferia ir pra Pasárgada que se abrir com um amigo e era o que fazia em geral. Foi por isso que se sentiu bem nua e descascada quando o Sea perguntou dos pais dela. Ah, ele sabia que o pai ia mal de saúde, preso no hospital e que mãe ela não tinha. .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sei sim, pequena, mas nem sempre deve ter sido assim, que você não é... Como é que se diz? Filha de chocadeira. O que tinha antes?" Nua, bem nua, como nunca se sentiu com ele antes. Nua na chuva. &lt;span lang="EN-US"&gt;"Venus naked on my chains, this is the way I want you, hahaha!". &lt;/span&gt;Sorria esperava a narrativa dela, não desviava os olhos, os olhos ostensivos. E ela, ah, ela tinha de obedecer. Estava bem então, deixava... Certo, vamos-lá, era uma vez uma mulher muito bonita e muito mimada. Ela viveu num castelo encantado nos Jardins durante toda a vida, esperando um príncipe que a levasse para conhecer o mundo. Daí veio um príncipe que não dispunha de muitos fundos pra manter essa princesa, mas ela ficou num fogo danado quando viu o hippie louco e foi logo fugindo de casa. Como ele era bem duro e ela nem sempre ficava alegre com isso, o jeito era encher a cara de droga e eles tomavam ácido feito condenados. Nem precisava dizer que os pais da princesa ficaram putíssimos com essa história toda. Daí veio a Olívia... Daí a aventura da princesa teve que durar mais que o necessário e, quando a vida virou rotina de dona-de-casa-de-classe-media-baixa, vixi, daí perdeu a graça. Ela pouco queria saber da filhinha e estava de saco cheio com o príncipe (que tinha uma blábláblá bem chato sobre política e revolução) e com as drogas, queria retomar a vida de onde a tinha deixado. Fugiu de casa outra vez, pediu ajuda aos pais, queria ir pra França e deixar a criança em algum colégio interno muito bom... Mas nesse meio tempo, a Olívia já era Lívi e usou a pouca autonomia que tinha pra dizer que não largaria o pai sozinho - ele se tornou muito depressivo depois da separação. A mãe insistiu, mas como não teve jeito, ficou num veneno tamanho que nunca mais deu notícias que não fossem por escrito e assim, a Lívi se acostumou a ler a mãe - até preferia no final. Quanto ao pai, era tudo de bom, só não era pai, fez o melhor que pôde e deu todo amor que tinha pra dar. Mas por causa dessa coisa de ele não ter jeito com criança, a Lívi não teve muitas referências de mundo infantil, já lia Machado de Assis e Kafka aos onze anos, conhecia qualquer coisa de teoria econômica e cresceu ouvindo MPB e rock'n'roll de todos os tipos – o único disco infantil que teve foi Os Saltimbancos. Ela sempre gostou muito do pai e, embora ao lado dele se sentisse bastante sozinha, era a única família que tinha, e então, estava bem. Também não teve muitos amiguinhos porque mudava de escola com frequência. Isso era meio chato, mas fazia restar muito tempo pra ler - o pai sempre dizia que nenhuma companhia superava um bom livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"E você fez Letras por causa do seu pai?" Em parte sim. Na verdade tinha gosto por leitura por causa do pai e estudou Literatura por gostar de ler... Mas achava que não tinha a ver com o fato do pai ser professor, isso não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas e paixão? Você nunca teve muita vontade de ser qualquer coisa diferente, sei lá... Cabeleireira, médica, rockstar, ginasta, essas coisas que a gente quer quando é criança?" Ah, sabia lá... Sempre preferia deixar que as coisas acontecessem e ver onde se encaixava melhor. Porque quando queria ser coisas diferentes, essas coisas estavam no plano do impalpável, sabe? Já quis ser sereia, ninfa, anjo... Já quis ser homem também... .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas isso é natureza, a gente não escolhe..." A gente nunca escolhia nada... Nunca. "Oh, I don’t think so! Tsctsctsc! Eu acho que escolho quase tudo que tem a ver comigo". Pois que achasse, isso era o que dava Vida pra vida da maior parte das pessoas. Mas e a vida dele? "Como foi minha vida antes de você aparecer? Sei lá. Não me lembro bem de muita coisa, as drogas acabaram com a minha memória. Mas eu já tive que morar em vários países diferentes e minha mãe foi bem puta e eu não tenho pai e estudei bastante mas nunca me formei em nada e já transei com mais gente do que o céu tem estrela e tenho mais anos nas costas do que parece e... sim, eu já sei português o suficiente pra nunca mais ter de falar inglês, mas não paro pra não perder meu charme de gringo – brega né?... Deixa ver... O que mais é importante? Ah, sim, eu gosto de gatos... and this is all I have to say about it". A Lívi riu, gostava do filme a que ele fez referência mas achou a biografia muito sintética... Queria saber outras coisas. Tinha um diário? "Sim, mas não vou te dar. E não vou te contar mais nada também. Vai ter que me aprender na prática, se quiser" e ela queria sim, queria ver a vida dele acontecendo, gostava de tudo sobre ele, até de quando ele a deixava sem ação ou muito embaraçada. Mas não disse nada disso, estava certa de que ele sabia. &lt;span lang="EN-US"&gt;"Well, you know, Liv, you're good, you're really good... and I don't know why". &lt;/span&gt;Não sabia por que? Não tinha nada que saber, ela era assim, todas as garotas-olívia eram assim. "Nada, tem mais coisa aí, vai ver como tem".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-4642114955479674790?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/4642114955479674790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=4642114955479674790' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4642114955479674790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4642114955479674790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-14.html' title='13. vento do sul'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-5417098531205213462</id><published>2007-12-12T11:21:00.028-08:00</published><updated>2012-01-14T02:14:18.449-08:00</updated><title type='text'>14. a dureza</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Acabavam agora de sair do banho. O Jac ia escovar os dentes mas parou pra olhar o reflexo da Lívi no espelho, ele tinha esse hábito de olhar as pessoas muito longamente, o que a deixava bastante incomodada, porque em geral o objeto de estudo daqueles olhos era ela mesma e ser analisada não era coisa de que gostasse: era tipo a análise do livro de sua vida, que ainda não estava concluído. Mas o Jac gostava de ver tudo, nem beijo não dava de olhos fechados - a coisa menos romântica de todos os tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora os dois estão secos, com os dentes escovados e o Jac a conduz até a cama segurando pela nuca, como se guiasse um carro, e embora deixe, a Lívi também odeia isso. Na verdade, havia muitas e muitas coisas no Jac de que ela não gostava - ele tinha ares aburguesados, afrancesados, quase um Primo Basílio.&amp;nbsp;Mas o jeito com que ele dirigia era o pior: pra começar, tinha um carro enorme, um off road, meldelzdocel, pra andar em São Paulo! Nem tinha cabimento uma coisa daquelas, o carro ocupava a vaga de dois quando parado e se tornava uma máquina de aniquilação de motoboys quando andava - dava pro Jac um saborzinho de poder tão estúpido apavorar motoboys que ziguezagueavam pelo trânsito! E corria com aquela banheira o desgraçado, como corria! A marginal era um grande autódromo pra tirar racha. Como podia?! Isso sem falar na lição de moral que ele tinha que dar pra todos os flanelinhas da cidade. Por que saía de carro se não queria passar por isso? Não dava pra entender...&lt;br /&gt;"Liviiiiii...? Ce tá me ouvindo?" Opa! Tava distraída, viajando... Repetisse.&lt;br /&gt;"Então... Comprei um óleo de chocolate pra passar na tua pele... Acho que ce vai gostar...".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, tínhamos ai outra coisa irritante: ter sempre o palpite de que ela ia gostar das besteiras que ele comprava. Nem dava pra gostar porque ele comprava de tudo! Era tanta coisa que ela nem tinha tempo pra ver se agradava mesmo ou não. Um absurdo de consumismo! Mas o pior era que ele fazia disso um estilo de vida e além de comprar coisas, também comprava gente. É sim!!! A Lívi era só uma das pessoas que ele já tinha comprado. A questão era que ele achava que dinheiro significa poder pra calar a boca de qualquer um e assim, ele nunca pegava fila em nenhuma repartição pública, ele nunca ficava sem entrada pra show por superlotação ou sem reserva em restaurante, ele nunca deixava de entrar em nenhum espetáculo, mesmo estando atrasado, ele sempre conseguia embarcar no vôo que queria e na poltrona que preferia, mesmo com overbooking... Perguntasse por que, a resposta era sempre a mesma: se tinha estudado e trabalhado desde cedo era pra não ter de passar por certas coisas – o que na linguages da Livi, traduzia-se por: sou mauricinho-de-classe-média mesmo, conheço a lei e tenho grana. Em poucas palavras, um legítimo filhodaputa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Lívi! tá viajando outra vez, gata... Minha leoa... Vem cá, tem presentinho. Olha isso aqui". Mas ela contraiu uma certa animosidade pensando nisso e não queria ser muito educada. Ele olhava todo o corpo dela e depois os olhos por bastante tempo. Mas ela respondia com displicência: que parasse porque não queria saber de porra de óleo nenhum. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Agora a Lívia podia ver a cara do Jac se contraindo de raiva e sentia um prazer muito íntimo por isso. Sabia que ele não faria por menos - com o orgulho do João ninguém brinca, diria o sogrinho! Mas ela brincava sim e folgava, já que não tinha como a vida ficar muito pior, pelo menos se divertia irritando o bonitinho... que de fato se irritou. Metralhava o ar com a respiração e cerrava os punhos e forçava os dentes uns contra os outros; silenciou uns instantes... Estalou o pescoço pra relaxar, massageou os próprios ombros, forçou um sorrisinho sarcástico e pegou com forca o braço da Lívi: "Escuta, você vai tratar de ficar boazinha comigo hoje"... Ah, francamente, não tinha nenhuma Lívi afim disso não... "Não é problema meu. Eu tentei ser legal. Agora bem fica boazinha. Relaxa, senão é pior pra você".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram essas as duas outras coisas extremamente escrotas no Jac: fica-boazinha e relaxa-se-não-é-pior. Mas ia deixando, fazer o que? Tinha de deixar agora... e deixar tudo pra lá depois.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-5417098531205213462?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/5417098531205213462/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=5417098531205213462' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/5417098531205213462'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/5417098531205213462'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-15.html' title='14. a dureza'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-3664638120288275101</id><published>2007-12-12T11:21:00.027-08:00</published><updated>2012-01-14T02:40:04.245-08:00</updated><title type='text'>15. a suavidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O Jac era um cara que acreditava em deus, mas só tinha seusapartes com o divino quando as coisas iam mal. No fundo, a conversa dele comdeus era quase um blábláblá com algum alterego pra por em questão o dar-certoou não de algum assunto. Agora, por exemplo, estava queimando uma das mãos comuma xícara de capuccinno fervente e a outra com a ponta de um baseado, enquantoseus olhos da alma procuram a branca pomba do divino voando pelos ares astrais.Ele não entende por que é que quando as coisas vão indo bem precisa aconteceralguma merda pra estragar absolutamente tudo. Estava ali a Lívi, no quarto bemao lado, dormindo feito um anjinho em cima duma nuvem. Linda de ver! Meuldelz,paizinho-nosso-que-tá-céu, dissesse: como era que aquela mulher podia fugir comtanta facilidade? Agora que estava tudo bem entre os dois ela ia... Nossa, quevacilo esse! Havia demorado mais de um ano, um ano e quatro meses pra serexato, todo esse tempo pra pôr esse casamento em ordem. E agora, justamenteagora que já não brigavam por qualquer coisa e que estavam se entendendo oupelo menos se aceitando como eram e que na cama iam muito-bem-obrigado, bemagora aparece essa porra de viagem que ela precisava fazer com os amiguinhos doteatro... e o Jac não podia acompanhar. E era obrigado a permitir, afinal decontas já tinha deixado e dito que não iria junto muito tempo atrás, muitotempo mesmo, uns cinco meses pelo menos, quando ainda não estavam tão bem assime queria mais que ela arranjasse mesmo alguma ocupação que não fosse perturbar.Pois bem, muito bem! Pai-nosso-que-está-no-céu mandou um castigo filhodaputapor toda sacanagem que o Jac já fez na vida: pai-nosso ia fazer com que ela sedivertisse pra caralho com o amiguinho dela, e com toda permissão do mundo! Masque inferno, que merda! Ela poderia transar com o tal do Siegfried o quantoquisesse, três noites seguidas, maior lua-de-mel, e sem culpa, mas-que-beleza!Sem culpa porque o imbecil do Jac, num momento de desatenção deixou ela irviajar e em outro, ainda na primeira semana de casado, disse que ela poderiatransar com outras pessoas, contanto que fosse totalmente discreta. Nossa!Estava se sentindo um idiota e por responsabilidade própria. Ah, pai-do-céu, desseuma forcinha e não deixasse muita chateação despencar na cabeça do Jac porconta dessas burradas, ou fazesse com que ela achasse o gringo um lixo na cama,em-nome-de-jesus-amém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O baseado já havia acabado e o capuccinno esfriava. Tomou num gole, antes que otrabalho de montar a cafeteira se tornasse tão inútil quanto sua conversa comdeus. E não ia fazer mal enrolar outro pra fumar, né? Não ia trabalhar mesmo...O problema era dixavar o fumo já que tinha queimado as pontas dos dedos. Pensouem pegar uma tesoura mas desistiu; sim, doía e o fumo muito prensado estavafazendo arder demais, mas até que não era ruim. Uma dorzinha de nada, atédistraía... Mas nada melhor pra distrair do que o corpinho musculoso da Lívi sóde calcinha se espreguiçando, bem ali, na porta do escritório. Ah, meldelz!Corpo lindo, tão perfeitinho, pelezinha marrom sem nenhuma manchinha sequer...&lt;br /&gt;"Bom diiiiia, lindo! Já vai fumar a essas horas?" – bocejo comprido,mãozinha na frente da boca. Vixi, estava de pé fazia tempo. Tinha ido àacademia e malhado um pouco, tinha ido à padoca porque o cream cheese haviaacabado, tinha posto em ordem uma papeladinha, estava ali tomando café agora,já tinha até fumado um antes, estava queimado no dedo inclusive...&lt;br /&gt;“Tá bom, então vamo-logo tacar fogo nisso aí que hoje eu não tenhoporra-nenhuma pra fazer e tou a fim de ficar lesada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela mesma acendeu. Não tinha o hábito de fumar, dizia que dava muito sono, masàs vezes até se excedia. Pegava carinhosa a mão do Jac e o levava pra sala,pedia pra se deitarem juntos no sofá. Pro Jac, o estado natural da Lívi estavaexpresso na carinha que ela fazia naquela hora: olhos poentes perdidos no nada,rosto descansado, a boquinha molhadinha... Mas era foda! Pra baixar os olhos umpouco só e ficar admirando os seios dela era um palitinho. Como eram lindos efirmes e grandes e... E estavam ali, livres, pra qualquer um que precisassedeles. Mas que droga! O Jac queria saber em que ela pensava: seria por acaso emdar pro outro? Ah, não, tomara que não... Mas e se estivesse? E se elatransasse mesmo? Não, isso ia acontecer de qualquer jeito. A questão era outra:e se ela gostasse? "Lindinha, ce vai dar pro seu professor que eu tousabendo, mas ce promete pra mim que, se gostar muito, nem vai me deixarsaber?" Só depois de ter falado foi que o Jac percebeu o ridículo do queestava pedindo (maconha era mesmo um problema, ele perdia a atenção quandoestava viajando muito e ficava mais sincero que o recomendável). E a mulhertambém devia ter achado o pedido muito estranho, porque tossiu e fezcara-de-interrogação. "Mas quem te disse que eu vou dar pro Sea?" Ah,era claro que ia, não precisa ser um gênio pra perceber a tensão sexual que existiaentre eles. E ela se espantava: "Tensão... tensão sexual? Que éisso..." O Jac sabia que a Livi não mentia quase nunca e, quando nãoqueria falar a verdade, enrolava até que se mudasse de assunto. Poderia atéparar de falar naquilo, mas uma maldade muito familiar levava o Jac a nãoconseguir. Então, tinha sim uma tensão sexual entre os dois que já devia estarà flor da pele, inclusive. Qualquer um via isso... Pelo jeito com que seolhavam e dançavam, tanta conectividade, tanta afinidade... Até se mexiam dejeitos parecidos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Então, lindo, mas você sabe que o Sea é gay, né?" Sabia, era claroque sim, mas até aí, ele, Jac, também era. E daí? "Daí que eu não toupensando em dar pra ele, é isso. Não acho que vai rolar sexo com o Sea. Páracom isso".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Jac preferiu se calar sobre o assunto, mesmo sabendo que a Livi estava “enganada”quanto a dormir com o cara. Era melhor pensar em outra coisa, nos peitinhosbonitinhos dela, por exemplo. Ela notou o que ele olhava e veio se sentar nocolo, com carinha de tarada. Mas não, o Jac não estava afim. "Por que não,lindo? Ce é sempre tão animadinho..." Nada especial, só não estava afim,gostava de olhar os peitos dela porque eram bonitos, mas não era tesão não."Ah, que fofinho!" Ela cobria de beijos seu rosto e pescoço, às vezesse comportava feito menina que tinha aprontado e queria agradar o pai pra nãohaver zanga. Deu um beijo com a boca bem molhada, bem molinha e meldelz, comoera bom aquele beijinho! O Jac gostava muito de sexo, tinha larga preferência por homens, mas transar apaixonado superava qualquer experiência sempre... E eleestava muito apaixonado. "Vem cá, vai, só um pouquinho..." Olhando praaquela carinha, nem tinha como dizer não, mas ela teria de dar uma ajudinha, tudobem? Sim? Ah... E, desculpasse a insistência mas... Se ela por um acasotransasse com o Sea, prometia que voltava pra ele depois? Que voltava sempre?&lt;br /&gt;"Tá bom, gatinho, agora vem cá..."&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-3664638120288275101?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/3664638120288275101/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=3664638120288275101' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3664638120288275101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3664638120288275101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-16.html' title='15. a suavidade'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-1674080346380793190</id><published>2007-12-12T11:21:00.026-08:00</published><updated>2012-01-14T03:00:53.062-08:00</updated><title type='text'>16. águas revoltas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O Sea sentia certa eletricidade incomodando seus nervos,havia mais de uma hora que não conseguia se concentrar na aula de inglês quepreparava pra o dia seguinte. Alguma coisa fazia com que seus dedos das mãos semovessem compulsivamente, como se tivesse bebido litros de café italiano de umavez; os lábios tinham um tique também. Não podia dormir e não podia trabalhar:"All the knives seems to lacerate my brain... Fuck!" Não queriachapar também porque ainda não estava bem recuperado da ultima bebedeira.Precisava conversar com alguém e esse alguém bem que poderia ser a Liv ou oMarcos. Era então o caso de abrir o MSN pra ver se os dois estavam on-line. Foiaté a cozinha pra pegar alguma coisa pra comer enquanto digitava - um grandecopo de chá verde e uma tigelinha cheia de cenouras e erva-doce cortadas empalitinhos, estava ótimo; ajeitou a cama rápido, a comida do lado, abriu olaptop e apoiou no colo, com o intermédio de uma almofadinha. O Marcos nãoestava on-line, só a Liv.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Hi, Lady X!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Oioioi, Ziggy! Ziggy eh vc, ne, Sea?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Used 2 b. Kkkk :D&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Fala, td bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;+ o -, 1/2 nervoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Pq? Pode falar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Sim, tou aki pra isso mesmo. Ahhhh, sei lá, meu, 1000 coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;1 por vez então. Rsrsrs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Ok. Uma eh q a nossa apresentação tá chegando e eu sempre fico nervoso mesmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;+ vc já fez tantas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Mas tds me deixam assim... Every fuckin 1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Mas dai não tem jeito, tem q esperar mesmo. E a outra coisa, o q eh?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Mommy called me, after all this time. She’s coming 2 Br.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Legal... Ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Still don't know. not sure... just don’t know what to think about it.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Mas pq?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Ah, eh tenso, ne, Liv. Vc sabe como eh isso de tensão familiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Pois eh... Minha situação com o meu pai eh foda... Essas porra eh fodameeeeeeesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Kkkkkk... Hey, só vc pra me fazer rir mesmo. Mas então, ela vai chegar logo quea gente voltar do RJ, Liv. Vai ficar em casa 2 dias e depois vai pro RJ tb,visitar minha outra mãe, q vc vai conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Ah eu vou, eh? Cool.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;vc sabe q sim, sua mala. Mas então, a pergunta eh a seguinte, eu tava pensandoem dar um jeito em casa, por umas flores em td. Q flor vc acha q eu deviacomprar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Faz assim, c me diz como ela eh q eu t digo 1 flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Well... she's wild and beautiful and lovely and smart and... a little crazy too&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Orkideas e flores do campo e cravos, se ela não tiver rinite alérgica, pqcheiro de cravo eh muito forte. Não compra arranjo pronto, compra as floressoltas, vc eh criativo, vai saber o q fazer. E a propósito, evite usar vestido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Kkkkk. I'll remember that. Thank's a lot. U r my love.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Rs. Eh sim, até d +.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;U know... I'd like to see u now, sweety.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Ah, não vai rolar. Também tou com saudade, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Tou sabendo, vc tá com o seu marido viado, ne? Td bem, a gente se v amanha. Masnada mal ganhar um abç agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Deixa... Depois a gente se v. Mas e o Marcos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;tá legal, vou ligar pra ele depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leave diz:&lt;br /&gt;Lindo, preciso sair agora. Bj. Te +. Ah, e fica bem, tah? Dorme bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ziggy diz:&lt;br /&gt;Bye! X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durou pouco a conversa, mas foi gostoso. O Sea podia ouvir a voz da Livenquanto lia o que ela escrevia e era bom, acalmava. Mas não havia dado tempode mandar a música que ela tinha pedido. Era a músicas deles, tão linda, elehavia posto pra ela dormir numa noite em que se falaram por telefone, ela cominsônia... Ah, mas que vontade de ouvir a voz dela cantando, podia ser só umpouco... Mas não, não ia dar. Podia ligar um minutinho só, mas sob quepretexto? Ah, sob nenhum, que se fodesse. Pegou o telefone, discou o número docelular, porque não queria correr o risco do Jake atender.&lt;br /&gt;Chama uma vez, duas, três... "Oi, Sea, fala!" Nada, era que não tinhapodido agradecer por ela ter sido gentil. "Ah, que-isso! Tudo certo"E agradecia a dica das flores também. "Flores? Que flores?" Comoassim “que flores”? As que ela acabava de indicar pelo MSN. Tava louca? Tinhafumado? "Ahahaha... Ai-meldelz, Sea. Se eu te contar, você vai ficarputo... Mas vamo-lá. Seguinte, agradece o João Carlos então porque foi com eleque você teclou" Como??? "E, eu fui tomar banho e deixei o MSNligado, você deve ter falado com ele". Sea se sentiu um poço de ácido.Roeu uma cenoura com toda a violência enquanto sentia a vista escurecer. Aqueleboyzinho cretino! Fucking-god! A Liv podia passar o telefone pra ele please?!"Sea, deixa!" Nem-fodendo! "Quer mesmo? Então tá, são vocêsdois!" ... ... ... O Sea ainda não sabia o que dizer, mas precisava, fosseo que fosse. "Alô, sweety!" (o Jac com voz afetada, pra parecer a do Sea).Alô, barbie! E aí? Tinha se divertido? "Nossa, mas que hostilidade! Tavatentando ser legal!" Ser legal my-ass! Tava era querendo especular a vidada mulher. "Ih, ó você errado de novo... Deixa de ser paranoico. Não foinada demais, inda te ajudei com as flores, a Livi não manja nada de flores...Ahah..." Mas era claro, né? Tinha que ser a bicha do Jake pra entender deflores... "Ah, escuta, tá nervosinho demais pro meu gosto. O-que-é-que-é?tá tenso por quê? Ficou querendo me comer no MSN e agora tá bravo porquê?" Prestasse atenção, na verdade era o Jake quem tava querendo comer oSea, que particularmente ainda preferia a Olívia. A propósito, passasse otelefone pra ela de novo. "Não vai dar pra ela falar, Sea, ela tá com a...Com a boca muito ocupada. Uhhh..." E ele tava falado no telefone com outrocara enquanto isso? Mas era muito bicha mesmo! Que-se-fodessem os dois eboa-noite! "Vai, seu doente, vai dormir tocando uma".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sea desligou, estava envenenado. Teve vontade de rasgar a cara bonitinha doJake. Depois, apenas em fazer alguma coisa pra que ele ficasse puto. Comer aLiv bem legal podia ser, mas não queria, pelo menos não por esse motivo, sefosse por isso, era melhor improvisar uma encenação pra ele ficar na dúvida,que é a alma do terror, e o Sea era muito bom com terrorismos. Mas depoiscomeçou a gostar de ter raiva do Jake e no instantes seguintes pensou quetalvez sair com ele pra dar uns almaços também não seria mal, alguma coisa bemone night stand. Ele era um idiota sim, mas era bonitinho pra caralho, a Livitinha razão. Quando se encontraram numa festa, o Sea nem acreditou, não selembrava do Jake tão bonito assim. Não fosse a Livi e o Marcos teria tentadoalguma coisa. Provocou um pouco, o Jake achou ruim (que previsível!). Mas haviadançado com a Liv nessa mesma noite, e essa era uma experiência tão semdescrição que apagava quaisquer outras impressões. But she had to go... withhim... to him. Ela tinha que ter dormido com o Sea naquela noite, não teve nadaa ver ter ido embora. Mas o manipulador-comprador-de-gente monopolizava a Liv,dormia do lado dela todo dia! Sea duvidava que ela se acomodasse no peito delepra dormir - com o Sea, só poderia dormir se fosse assim. Teve raiva do Jakeoutra vez, muita raiva, porque ele era dono da mulher mais especial já nascida enem sabia dar o que ela queria. E ainda precisava esfregar na cara de todomundo que era bofe dela, every fuckin one's face, e ela deixava... Deixava sim!Aquela história de boca ocupada era o que??? Fuck!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A raiva ficou tamanha que se visse qualquer um dos dois na frente, arrebentariano braço, mesmo que ficasse hospitalizado depois. Passados mais alguns minutos,desejou nunca ter conhecido a Olívia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-1674080346380793190?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/1674080346380793190/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=1674080346380793190' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1674080346380793190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1674080346380793190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-17.html' title='16. águas revoltas'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-203873890506569429</id><published>2007-12-12T11:21:00.025-08:00</published><updated>2012-01-27T00:01:34.755-08:00</updated><title type='text'>17. maré alta</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family: Calibri, sans-serif; font-size: 11pt; line-height: 115%;"&gt;Àluz da lua cintilava, bela e noturna, numa profusão de brilhosinhos dourados:assim era ela, a imagem que nunca se perderia em sua memória corrompida. Umamulher de pele de coco queimado e olhos de madrugada, velada por uma mantadourada, toda ela... Todinha. Douravam poucos cachos no sarará desgrenhado,douravam poucos raios no azul-negro dos olhos, dourava pele e pelos em cadapedacinho do corpo. Dourava feito mel escorrendo em mogno, feito ouro brutoperdido no cascalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora se movia lentamente e no movimento cintilava entre os lençóis, tãoperdida nos sonhos profundos, sonhos maus talvez. Deitou-se ao lado dela comcuidado, não queria que acordasse por nada, mas era um cuidado mais fundado noamor mesmo, porque sabia, ela não acordaria facilmente. Entrava pela janela umfacho de luz solar que clareava em vermelho os dedos da mão, parecia néon...Bom estar com ela, tocar os cabelos, sentir o compasso da respiração – issoacalmava. Fechava os olhos por um tempo procurando ter alguma sensação que asupremacia da visão apagava... Ah, o cheiro dela, cheiro de macadâmia... e osabor de carne de caça fresca que tinha na boca. Deu vontade de provar o gostodela toda, mas tinha esperado muito tempo pra vê-la ali, bem ao alcance dasmãos, dormindo pra descanso de uma noite de dança, não estragaria nada por umdesejo de sentidos. Ela, sua, muito sua, prisioneira do sono e toda sua... Butnot really close she was... Not really close… An angel sleeping is never closeenough. Mas as pessoas nunca se aproximam de verdade, a gente tem a ilusão deestar junto, mas nunca está. É a nudez que dá essa ilusão, ficar sem roupaparece que aproxima as pessoas e era por isso que sempre gostava de tirar asroupas dela, foi por isso que insistiu tanto em esculpir tendo o corpo dela pormodelo, pra se sentir bem junto dela, que se fodesse se fosse uma ilusão, nãotinha nada de errado em ter prazer com ilusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sexo só atrapalhava esse tipo de coisa, só atrapalhava, my-god!!! Acabavacom o que havia de suave na vida... Tornava tudo mais intenso, provocavareações adversas aos sentimentos e outros sentimentos que revoltavam osprimeiros. Lembrava-se agora da noite do seu aniversário: tinha pensado em sexocom ela desde que despertara, maior idéia fixa. Mas teve de beber demais, comosempre, e ficou muito patético, como sempre, e quase magoou alguém, comosempre, e saiu muito magoado, como nunca. Havia ligado pra Liv, pedindopelamordedelz pra que ela o encontrasse naquela festa nojenta, onde todo mundotava incomunicável por causa das mais variadas drogas incluindo ele mesmo que,como não bastasse, ainda fedia terrivelmente a suor e a vômito – era claro quena demora dela pra chegar deu tempo de gorfar pelo menos duas vezes – nojo! Eela chegou simpática, querendo saber qual era a urgência do que ele tinha pradizer e ele respondendo “let’s spend a night together, now I need you more thanever, blábláblá” e ela achando que ele tava de brincadeira, pedindo que eledissesse logo porque queria tanto que ela estivesse ali, que tinha de ir emboralogo... Puta, que coisa cretina, estava tão bêbado que nem conseguia organizaruma fala com sentido, mas conseguiu assim mesmo dizer que naquela noiteprecisava transar com alguém e só podia ser com ela porque gostava mais dela doque do resto da gente que estava por ali, mas o pior ainda foi pegar o pulsodela e forçar um abraço naquele quarto escuro, naquele chão imundo... A caraqueimava só de lembrar, como é que pôde logo ele, sempre com tanto controlesobre o próprio corpo, to loose the fuckin head. Precisava parar de pensarnaquilo, tinha medo que o tambor das pulsações nervosas retumbassem o bastantepra acordar aquela ninfazinha... Mas não dava pra esquecer fácil quandopensava, essa era a coisa. Foi triste demais ter acordado achando que haviaficado com ela finalmente, mas nem se lembrar de como tinha sido – não haviaficado absolutamente nada na memória dos sentidos, apenas algumas marcas dedentes e unhas pelo corpo, coisa muito aterradora, embora abrisse espaço praidealizar e ter algum delírio mais bonito pra lembrar depois. Pior mesmo nemera isso! Pior mesmo foi ver o filme que o Juliano tinha gravado da festa! Issofoi o pior, uma das piores situações que lhe aconteceram em toda a vida, porquenesse maldito filme, a mulher que estava cavalgando sem roupa por cima dele nãoera a Liv (o nome que ele repetia convulsivamente) e nem ninguém que conhecia aponto de se lembrar, era uma vaca que se divertiu com alguém que não estava emcondições mentais ou físicas de dizer nada. Como foi que ela fez aquilo? O Seajamais faria sexo com quem quer que fosse sem consentimento, muito pelocontrário, tinha verdadeira tara em que as pessoas pedissem, mais de uma vezaté. Sentiu-se estuprado, no mínimo abusado, com raiva e com nojo de si mesmopor ter propiciado aquilo! Porque tinha parcela de culpa sim, não era só daslut a responsabilidade, muita covardia dizer que sim. Ficou deprimidíssimo portoda uma semana, não tinha meios de se olhar no espelho e nem de ver a Liv, quetambém devia estar cheia de náusea por causa do comportamento dele e nuncateria esperado que ele fosse tão grosseiro porque nunca era mesmo... Foi abebida ou foi o fumo ou foi o padê ou foi a bala... A bala e a bebida, comcerteza, não se deve beber e tomar bala, já devia saber. Que lixo de homemtinha se tornado, que beleza de réptil, isso sim, escroto, se contorcendo e serastejando na sujeira do chão, a creep, muito apropriado! Passou dias achandoque a Liv nunca mais seria a mesma de antes dessa noite e não saiu de casa pranada amarrado por esse pensamento, mas foi tolice, porque ela era incrível eentendeu perfeitamente a falta de decoro ou de elegância ou até de decência.“Quem nunca causou em aniversário que atire a primeira pedra, né?”, não estavazangada e nem triste, só bastante irônica e silenciando pensamentos que elenunca vai conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque ela era assim, doce-doce, espírito em repouso. No sono especialmente,por isso a deixava dormir. Mas já estava tarde e ela devia acordar dali aqualquer momento e seria um despertar extasiante, poderia dar beijos e beijos ebeijos e fazer tanto carinho nela... Era bom, ela gostava e dava um prazerimenso fazer coisas de que ela gostasse. Tinha a tarde toda pra isso e mais amadrugada seguinte e a tarde seguinte e a próxima madrugada, não queria nempensar em voltar pra São Paulo. Oh, sweetness! Fazia mais de quinze anos que oSea não dormia ao lado de alguém sem tentar transar, mas essa tinha sido acondição da Liv pra dividirem o quarto durante a viagem, que apenas dormissem.Até que era bom sim, com ela fazia muito sentido isso de amar sem sexo, eramuito... não sabia definir, não tinha palavras, achava que um suspiro bemprofundo conceituava melhor, não tinha passado por isso antes... Mas era algumacoisa com a alma, alguma coisa mais romântica que chorar de paixão. Apesardisso, achava que a determinação dela não duraria muito, a dele mesmo nãoestava durando, seu corpo carecia urgentemente do toque dela, mas qualqueriniciativa precisava partir dela. Assim, esperava... que ela se cansasse dosono... que ela se cansasse das superfícies... que ela se cansasse de suasolitude morena.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-203873890506569429?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/203873890506569429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=203873890506569429' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/203873890506569429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/203873890506569429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-18.html' title='17. maré alta'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-9119456522032039209</id><published>2007-12-12T11:21:00.024-08:00</published><updated>2012-01-27T00:20:38.807-08:00</updated><title type='text'>18. água mole, pedra dura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O Sea não pensou muito antes de fazer o que estava fazendoagora, teve uma ideia muito súbita e foi logo executando. Ele está descendo arua exatamente agora, daqui a pouco vai parar num café e encontrar o Jake, vaifalar alguma bobagem sobre o tempo, pedir uma dose de vodka, dizer mais algumacoisa simpaticamente inútil, vai beber o que acaba de chegar, uns dois golespra tomar coragem, e vai perguntar ao Jake se tem programa pr’aquela noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nossa, Sea... Você tá pensando que eu tava afim de ficar com você de novo, é?Por que é que você achou isso?” – estava sorrindo sarcástico... Como assim por que?Não afim estava mesmo? “Mas... mas Sea, por que você acha isso, caramba!?” –falando baixinho pra não chamar atenção. O Sea não entendia. Pra que serirônico? Estava jogando? Pra que? Àquela altura do campeonato não tinhasentido! E chegava a ser irritante, fazia com que se sentisse um pouco ridículopor estar procurando uma pessoa feito aquela. O Jake dissesse, please, estariajogando, alguma coisa assim? Porque ele, Sea, não estava, não tinha tempo praperder com isso. Tinha ido encontrá-lo porque gostou da noite que passaramjuntos e não se incomodaria em passarem outra. Achou que o Jake podia ter tidoa mesma opinião de-repente, mas ele não tinha, então deixasse quieto. Nãoqueria, tudo bem, nem sempre a gente ganha. “Mas quem te falou que eu nãoquero? E quem é que tá jogando? Você é especulador pra cacete, né?!” O Seacomeçava a ficar impaciente: se era especulador, o outro era manipulador... eum pouco sádico também, fazer os outros passarem por isso era bem sádico. “E tecusta muito sofrer um pouquinho pra me excitar?” Pensou que não, não custavanada não, talvez pudesse até ser bom, mas não ia dizer. “Vamos, Sea, fala aí...Você é todo estranho... Meio doente, meio... freak...” – chegava perto, punha amão na cintura e mexia os dedos (dava cócegas!) – “Conta pra mim, vai... Vocêcurte sofrer um pouquinho, né? Tá tudo bem, eu vou adorar te machucar”. What? OSea nem entendia porque, mas só conseguia pensar em sexo selvagem, não queriafalar nem ouvir mais nada, ficou até gasto com o numerozinho do outro. Quandoera com a Liv, a única coisa que queria era estar junto e ouvir e sentir ever... Mas o Jake não, o Jake era fechar os olhos e trepar. E ele era muitogostoso, pegada de macho mesmo, bem forte, nem entendia porque foi que a Livpassou tanto tempo sem ter tesão naquele homem e pensou inclusive que ela deviater mentido. O Jake agora apertava o queixo do Sea, depois puxava seus cabelospretos de leve e o Sea só conseguia morder os próprios lábios, nem pensavamais. Que fossem embora dali, era melhor. “E você tá achando que vai me levarpra cama, Siegfried?” Mas que homem complicado! Pra que aquelas perguntasestúpidas, mas que egocêntrico, todo mulher-fatal, cheio de olhares e se fazendode discreto... Mas ia tomar uma resposta agora, e em muito bom-tom: “Olha,Jake, tudo bem, a gente vai pra cama se você quiser, mas só se você disser quequer mesmo. Não vou coagir ninguém”, ficou até quente depois, vermelho,bobeasse. E o Jake arregalou os olhos pretos, que viraram as maiores pedraspretas que já se vira. Riu, perdeu o rebolado claramente. Passava a mão pelorosto, coçava a cabeça... e o Sea ficava olhando enquanto tomava mais um golede vodka. “Vai tomar só isso mesmo, Sea? Não quer mais nada?” Ah, queria sim,queria mais coisa, mas era melhor não fazerem ali. “Eu achava que você era umcara menos direto, tou surpreso” e ele achava que o Jake seria menosartificioso, tinha pedido vodka porque achava que seria bom pra dar coragem,estava certo no final, não? Not easy... “Olha, Siegfried, veja bem: tambémgostei de ficar com você, o que não significa que a gente vá ter umrelacionamento de verdade, né, faz muito pouco tempo que a Livi foi embora eisso mexe comigo bastante e aposto que com você também, acho até que isso devocê me procurar deve ser pra fugir dela, mas tudo bem, a gente pode sedistrair um com o outro e se divertir e coisa e tal. Mas é o seguinte, duascoisas: uma é que você não pague de meu namoradinho pela rua e outra é que sevocê falar mais alguma coisa em inglês, vai ter de receber passivamente umasporradas na boca, tá bom assim pra você, amor?” O Sea achou graça na macheza dooutro, muito bofinho mesmo, muito bonitinho, dava vontade de rir; estava aliviadoporque o joguinho de sedução tinha parado em tempo. E como não podia “pagar de namoradona rua”, fossem pra casa então, que era melhor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O Sea não pensou muito dessa vez, mas a realidade é que setivesse pensado, faria a mesmo coisa. Soube disso depois de algum tempo.&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-9119456522032039209?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/9119456522032039209/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=9119456522032039209' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/9119456522032039209'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/9119456522032039209'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-19.html' title='18. água mole, pedra dura'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-5527149185072023314</id><published>2007-12-12T11:21:00.023-08:00</published><updated>2012-01-27T00:37:23.970-08:00</updated><title type='text'>19. o mar, quando o vento não venta...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Havia mais de uma hora que Liv estava em pé, parada, olhandolonge a linha de horizonte, onde o céu tocava a água da represa, mas de fatonão estava vendo nada. O Sea já devia estar se acostumando aos longos seussilêncios, mas dessa vez parecia fazer questão de quebrar esse equilíbrio sutilque unia a Livi ao movimento natural do mundo. “Hey... Hey, sexy! Lookin forthe other side of the river?” – sorria simpaticamente, inocentemente (davapena). O outro lado do rio? Não, a terceira margem, na verdade – a vozcarregada da velhice da noite. “A terceira margem, Liv?” – sorriso já desfeitosob efeito do olhar silencioso e vazio de sentidos dela, olhar incômodo, quepersistiu firme por muitos instantes, até que ela pedisse pra ele repetirdepois dela: ce vai, ocê fique, você nunca mais volte aqui. “Ce vai, ocê fique,você... Liv, não! Não, amor, para. Que é isso? Liv, sou eu, you see. Don’t...Don’t do it! I’m afraid...” Mas não havia o que temer, deixasse de bobagem, avida era assim mesmo, a gente transitava, nunca parava. “Não, Liv, para comisso, eu não quero te ouvir falando isso, eu te amo... Não tem isso detransitar, eu parei de transitar pra ficar com você”. Havia parado mesmo? A Livnão tinha percebido – falava devagar, não tinha pressa, era como quando se é criançae se deve abandonar a casa de praia mais gostosa porque as férias se acabaram,uma chateação inevitável, mas que não dá pressa de realizar. A cara do Seaestava muito sombria, devia estar se contorcendo por dentro e a Livi não queriaisso, não queria, nunca quis ver ninguém sofrendo, não gostava de causarimpacto, mas não podia fazer diferente agora, era ela ou ele. Ironias da vida,justamente a Livi fugindo dele (ela sempre supôs que seria o contrário); umtédio tremendo tomou conta dela, as articulações iam ficando menos e menosfirmes e um cansaço imediato retesava seus ombros e pernas e costas. Quanto aele, mordia um dos dedos com força e olhava pra onde não sabia, uma criança emsérios apuros, era terrível, a Livi nunca estava pronta o bastante para as separações.E agora umas lágrimas grossas caíam involuntárias e livres dos olhos do Sea,que tentou dizer qualquer coisa, mas não mais tinha voz. As lágrimas caíam bemno ânimo da Livi e inundavam num minuto, maré cheia de repente, afogando ospensamentos... A imagem do Sea se tornava débil minuto após minuto, mas tantoque machucava a quem via. Mas não, ela não tinha espaço pra vacilar. Escutasse,por favor, sabia que tinha de ser assim, não havia mais o que fazer. Tinhaacontecido muita coisa com ela, muita coisa entre eles e a morte do pai sótinha feito tudo parecer mais doloroso e intenso, sabia lá. Fato era que nãoestava preparada pra segurar aquela barra toda sozinha... “Ah, no love! You’renot alone! Just gimme your hand. You know, you’re not alone. I’ll help you thepain…” Mas não, já havia ouvido isso antes! (estava passando da compaixão àimpaciência em questão de segundos). Até nessas horas uma interpretação… Fosseele mesmo uma vez, pelamordedelz, o show tinha acabado, parasse de interpretarum pesar que sentia de verdade! Deixasse disso, não dificultasse as coisas. Eoutra coisa, ela não estava sozinha porque tinha a ele, tudo bem, mas quem eleteria, em quem se apoiaria? No Marcos, era? Não, não podia ser, ele tambémprecisava se apoiar em alguém, não dava pra negar isso e o Sea não tinha apoionem pra si mesmo, nem pra Livi, nem pra Marcos... “Just shut your mouth,please, don’t say anything... I... no honey… You’re striking me! Look... Euvolto a tomar meus remédios, se é esse o caso, okey? Eu, eu vou ficar bom denovo, prometo…” Sim, ele prometia e era verdade agora, mas dali a pouco nãoseria mais, de que adiantava? Não, deixasse, não ia mudar de ideia, por maistriste que ficasse. Deixasse... “But I just can’t! I can’t let you go, Liv, Ijust can’t do it… Cause I love you, I love you, I love you…” Parasse comaquilo! Lembrava do que havia dito a ela antes de assumirem o caso? Amor era apalavra amor, não era? Pois continuava sendo, mas agora já não tinha poesia.Lamentava, lamentava profundamente... Mas já estava com as coisas arrumadas,pegaria agora um táxi, iria pra casa do Sea e tiraria suas coisas de lá.Partiria pra outro país dali a cinco dias. “Mas pra onde é que você vai, Liv?”Pra Argentina, já havia dito que queria ir pra lá estudar por uns seis meses.Mas se achasse como se manter, não voltaria mais. Havia pedido demissão notrabalho, estava só organizando as coisas mesmo. O Sea tremia no queixo e acabeça devia doer alucinantemente, porque ele a segurava entre as mãos efechava muito os olhos. Desesperava-se: “Liv, como foi que você... Você já táde partida faz tempo e não me fala nada... Por que?” Ela não tinha o que falar,cabia a ele prestar atenção, ela se preparava já fazia um mês. Diria o que? Queestava indo embora em suaves prestações de avisos prévios, entre uma trepada eoutra? Pelamordedelz, fizesse o favor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crueldade do silêncio imperou tiranicamente por mais outro longo tempo,enquanto os olhos da Livi se avermelhavam e o Sea já não tinha mais unhas praroer e nem dedos pra morder que já não estivessem bem machucados. Parava dechorar: “E... me diz uma coisa... O Jake já sabe que você tá indo? Acho quesim, né? Foi pra ele que você foi pedir as contas no trabalho, né?” Sim, o Jacsabia, e não que seu desconhecimento mudasse alguma coisa, mas foi o primeiro aser comunicado, bem por conta do trabalho mesmo, estava inclusive ajudando comalguns detalhes. “Ele está te ajudando a fugir pra sempre? Que porra de amor éesse dele?” Bastava, não queria falar sobre o João. Desse beijos, todos osbeijos do mundo, e ela iria dali a pouco. O Sea suspirou fundo, sugeriu: “Nãoprefere fazer amor comigo? Despedida, vai!” Mas era claro que não tinha desejonenhum, queria apenas agradar a Livi, que muito singelamente sorriu, nãoprecisava que o Sea ficasse nem um pouquinho mais chateado do que o inevitável.Acariciou seu rosto, abraçou forte. Era isso o que ele queria, queria mesmofazer amor? “Eu quero você... Se você quiser, a gente faz, não tenho problemaquanto a isso... Você gosta tanto...” Era sim, gostava, mas não achava queseria bom dessa vez, desse jeito... “Ce tá certa... Tou muito mal, vou acabarbrochando toscamente. Tudo bem então, mas fica comigo, até o dia terminar,deixa anoitecer, passa aqui mais essa noite, que diferença faz?... Please, stayone more night... Eu acho que é isso o que os amantes sempre pedem antes dedizer adeus, né? A gente sempre acaba caindo no clichê quando se trata deamor...” Livi riu outra vez, cedia sim, um pouco por amor, um tanto por alívio.Passaram a noite juntos, não tocaram mais em assunto de ir embora. Dormirammuito agarrados, acordaram cedo e o Sea se esforçou o quanto pôde pra dar a elao melhor sexo da sua vida. Implorou que ela dissesse que ainda voltaria, mesmoque fosse mentira, não importava, que voltaria e procuraria por ele; prometeuescrever todos os dias, mesmo que ela não respondesse. E ela se foi... Sem maislágrimas, sem mais protestos, apenas se foi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-5527149185072023314?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/5527149185072023314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=5527149185072023314' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/5527149185072023314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/5527149185072023314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-20.html' title='19. o mar, quando o vento não venta...'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-2842378148288020807</id><published>2007-12-12T11:21:00.022-08:00</published><updated>2012-01-27T01:26:44.130-08:00</updated><title type='text'>20. as pedras seguram o mar</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;f&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;...e agora seria obrigado a seguir o desequilibrado pelasruas do Bixiga até em casa pra que nada acontecesse a ele, àquelas horas damadrugada! O Jac devia ter esporrado na cruz em outra encarnação, só podia ser!Ele não tinha nada, nadinha mesmo a ver com mais aquela crise nervosa do Sieg,mas ali estava ele, seguindo a bicha louca numa distância segura (claro), para seassegurar de o outro não ter nenhuma ideia errada no meio do caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caralho, viu! Se havia uma boa palavra pra resumir o Sieg, essa palavra eraneurose, neurose-dançante pra ser mais preciso, já que tinha um vício de dançarquase incontrolável. Aliás, o Sieg não gostava das coisas, ele se viciavasimplesmente. E não desgostava também, se apavorava, tinha nojo delas, todosuperlativo e hiperbólico (palavrinhas da Olívia falando na cabeça do Jac). OSieg era sempre alegrinho, meio saltitante até, quase uma gazelinha sorridente,parecia estar num mundo cor-de-rosa, mas a verdade passava bem ao largo disso:não havia um só dia que ele passasse sem se indignar com algum fato, fossesério ou não. Com ele coisas muito corriqueiras, essas coisas da vida detodo-dia, todas abriam margem pra reflexões que abarcavam conceitos de umamagnitude espetacular e se tornavam discursos terrivelmente bem articulados,com que o Jac só concordava no momento mesmo da realização, depois lhe pareciamabsurdos, como pareceriam a qualquer pessoa razoável. Uma vez, nossa, essatinha sido demais! Uma vez, estavam andando de carro e pararam no sinal, umamulatinha foi pedir dinheiro e o Jac fechou a janela antes que ela pudessedizer qualquer coisa – normal, vive-se em São Paulo a final de contas. Mas oSieg, a louca, fez um escândalo tamanho! Disse que era desumano aquilo, que amenina estava mais do que na ponta dos pés só pra alcançar a janela do imensocastelo sobre rodas, aquele carro que a alimentaria por alguns anos se fossevendido, e o vidro era erguido na cara dela e se o Jac não queria dar grana,tudo bem, mas tivesse mais educação e putaquepariu, que civilidade era aquela etudo mais. Mas o pior foi quando o Jac tentou amenizar, dizendo que faria oretorno e pediria desculpas à neguinha. "Vai se desculpar com a neguinha,seu boyzinho escroto filhodaputa? Pra ficar em paz com a consciência neoliberal?Me diz uma coisa, você chamava a Lívia de neguinha também? Ela não é muito maisclara do que a menininha não, nem o cabelo não nega, ela é filha de um negro,você conhece o pai dela melhor que eu!" E a discussão continuou comargumentos que viravam acusações, com acusações que viravam ofensas. E esse erasó um dos casos, os múltiplos casos de explosões sociopassionais do Sieg. O quena Livi era arrogância de intelectual do mundo desencantado, no Sieg era aneurótica vocação pra mártir. Chorava e gritava e sofria demais pelo descaso dogoverno com a educação, pelo fato de o Estado negar às mulheres o direito deabortarem, pela máquina da destruição-universal que era os Estados Unidos, pelasacanagem que era a prefeitura cortar isenção de IPTU de gente pobre por causada falta de um cadastro, pelo superaquecimento global, cada dia era um motivodiferente, a cada ataque o mesmo desespero de sempre...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, pra que lado tinha ido? Ah, ali, voltava pra Paulista outra vez. Nãoparecia o caminho da casa dele, será que ia pra balada? Bom, logo descobriria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última encrenca que tiveram aconteceu já tinha duas noites e não se falaramdesde então. E tinha sido chato, muito mais chato que o habitual, tinha umabritadeira filhadaputa trabalhando madrugada adentro pra arrebentar a Santostoda, em plena terça-feira, sendo que na segunda tinha acontecido a mesmacoisa. E o Jac tinha um problema muito sério com o sono, porque quando ficavasem dormir bem por vinte e quatro horas, se tornava irritadiço demais. Ligoupra polícia e foi informado de que era obra pública e teria de resolver com aprefeitura; ligou na central telefônica da prefeitura e foi informado que teriade falar com a companhia de gás, porque a obra era deles; ligou na companhia degás e foi informado de que a obra era autorizada pela companhia de trânsito eessa, ah, meldelz!, essa não tinha informação pra dar àquelas horas, teria queo expediente começar pra o Jac falar com algum engenheiro responsável e ocacete. A cabeça pra lá de quente, o Jac se sentou na cama enquanto o Sieg davaseu tradicional sorriso irônico, moldado pra situações como aquela. Que sefodesse, ia deixar quieto, não faria caso daquilo, mas caiu na armadilha de seperguntar retoricamente se não havia ninguém no mundo com quem pudesse falarpra dar um jeito naquele barulho infernal. &lt;span lang="EN-US"&gt;Daí veio a metralhada: “Hey, mr. rich guy, try to buy someone now”… Ria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;E agora, pra onde tinha ido? O Sieg andava meio gingado, às vezesapertava o passo e outras retardava, não era fácil de ser seguido. Ah, aAugusta! Em compensação era alto e branco-pérola a ponto de quase reluzir ànoite, também não era difícil de ser encontrado. Mas que volta besta estavadando, devia estar querendo parar em algum boteco e comprar mais droga, bem acara dele isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do gracejo infeliz que o Sieg tinha feito, a coisa ficou insuportável!Não, não deu pra segurar, aquela cara de sarcasmo e a crítica escancarada, não!Como o cretino era superior, né!? O Jac sentiu um desejo obsceno de fazerqualquer coisa pra magoar, pra foder com tudo mesmo! Tinha vontade de bater,mas não achava que daria certo porque o Sieg não se importava em sentir dor.Então teria de fazer alguma coisa pra humilhar mesmo e foi falando, pra searrepender bastante depois: “Olha, meu amor! Vamo lá! Eu tou sabendo que vocêtá aí com as suas contas atrasadas e você tá sabendo do meu nojo pelo seuinglês de puta em beira de porto. Então, vamo logo resolver isso, – pegou acarteira no criado mudo, sacou duzentos e trinta reais e jogou bem na cara doSieg – tem aí uma grana pra você acertar suas contas e pra você pegar um táxipra sua casa, fica pela trepada de agora a pouco. Agora por favor, veste osseus trapos e some daqui. Queria que eu comprasse alguém? Tá-certo, toucomprando um pouco de paz... Quer mais grana que isso ainda?” Pois é, tinhaexagerado na dose... O Sieg não ficou com a grana, obviamente, esticou asnotas, todas juntas e acendeu o isqueiro embaixo, segurou até queimar tudo,showzinho básico, depois saiu. Não se falaram mais e muito embora o silênciocausasse uma saudade corrosiva e um tanto de remorso, não se mobilizou pratelefonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na noite de hoje, estava o Jac trabalhando feito condenado, com prazosjudiciais de quatro casos quase vencendo e o Sieg aparecia feito um maremoto,chorando e falando várias coisas desconexas... Não, não tinha atenção sobrandonaquela noite, pediu pra que ele fosse embora numa boa. “Jake,pelamordedelz, me escuta, aconteceu uma coisa péssima, eu tou pior quelixo...” Contasse amanhã, agora estava foda mesmo, tentasse entender, precisavatrabalhar... “Mas ce sempre tem que trabalhar... Então nunca vai dar pra genteconversar...” Sim, daria, mas não agora, e se ele não entendesse, aí sim, aínunca mais poderiam se falar. Podia ser que tivesse entendido, podia ser quenão, o fato era que ele ia saindo lívido, já não chorava mas tinha uma cara queassustava muito mais. O Jac ficou monitorando o caminho dele, da janela doapartamento, até onde a vista alcançava e saiu atrás logo em seguida, com umpalpite estranho, quase uma intuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez fosse sem fundamento, porque o Sieg virava agora na Peixoto Gomide,devia pegar a Barata Ribeiro, que era rua dele, pelo final, e não ia acontecernada... Mas porra nenhuma, atravessava a Barata, ia pra São Carlos do Pinhal eo Jac já se cansava de seguir e seguir e seguir, já eram três da manhã. Agoraparava no meio do viaduto e olhava a vista da Nove de Julio, era bonito de sever mesmo, especialmente à noite... E agora? Agora se sentava no parapeito,certo, agora era a hora do Jac correr, era pra isso que estava ali, era sim, etremia o corpo todo enquanto corria e temia fazer qualquer barulho que assustassee fizesse o Sieg despencar daquela ponte: estava de pé, do lado de fora doparapeito, não se segurava, uma brisa e cairia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Jac se prendeu com força às costas do outro e deu uma ordem pelo vão dosdentes travados: que se inclinasse pra trás devagar e saísse daliimediatamente, e foi obedecido. “Se eu me mato de tristeza, você morre deremorso?” Por favor, estava tão nervoso que nem conseguia abrir a boca, oqueixo tava até doendo. Não sabia se matava ele mesmo aquele irresponsável ouse levava pra casa, mas na dúvida, iam pra casa e se fosse o caso, matava oSieg no dia seguinte. E contasse pelo caminho o que havia acontecido de tãoruim assim; se abraçaram, iam pra casa do Sieg. “Ah, amor, desculpa... Juro quenão sabia que você... Ah!” – era a voz do desânimo que antecede a morte mesmo,sem afetação nenhuma – “Eu... Ce... Ce lembra que no sábado ce foi me buscar naaula que eu dou pra molecada da comunidade? Então... lembra que a criançadaveio me abraçar porque eu tinha dado umas balas? Teve dois pais que vieramfalar comigo depois... Eles viram a gente ir embora junto abraçado... Puta, foihorrível, eles disseram que os moleques não iam mais assistir minha aula e queeu era um pervertido nojento e não podia pegar meninos no colo e que iam dar umjeito de eu não participar mais da escolinha e iam me matar se eu... disseramque me matavam... Mas, Jake, eu juro, eu não peguei no colo por sacanagem,juro... Mas eu... Eu já não sei mais... Talvez eles tenham razão, porque eu...Eu sou desse jeito, não devia tocar em criancinha... Eu não vou mais poder daraula... Eu tou com nojo de mim...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, dessa vez era sério, sério e muito triste. O Jac tinha interferido navida da Livi e na própria pra fugir de situações desse tipo... Quis chorar, masnão queria parecer fraco, precisava dar apoio agora... Quis se livrar do pesodo mundo de que o Sieg sempre falava, mas sabia que não poderia. Lembrou-se daLivi comentando um poema que dizia que a vida não valia a pena e a dor de servivida, lembrou que tinha achado o poema pessimista e até conformista, mastalvez fosse isso mesmo e ele, Jac, trabalhava justamente pra gente que faziacom que viver fosse assim. Era muito ódio por quem só precisava de amor, eleprecisava de amor, naquele instante mais que nunca: “Sieg, não pensa mais nissonão! Não pensa nisso nunca mais. Eu sou louco por você, tá? Tá?” – beijava orosto, as mãos, a boca – “É verdade sim, eu sou completamente apaixonado porvocê... Porque você é maravilhoso, sim... É sim”. Chegando em casa, se apertaramaté que o ar faltasse, fumaram maconha até que o sono viesse e dormiram muito,o Jac nem quis acordar pra trabalhar no dia seguinte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-2842378148288020807?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/2842378148288020807/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=2842378148288020807' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/2842378148288020807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/2842378148288020807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-21.html' title='20. as pedras seguram o mar'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-1991568086291593111</id><published>2007-12-12T11:21:00.021-08:00</published><updated>2007-12-13T07:55:40.475-08:00</updated><title type='text'>Ato 22</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;O Jac estava parado na calçada da Berrini, esperando a Livi chegar pra provar o vestido que ele havia desenhado inspiradíssimo na curvas sinuosas do corpo dela – ela tinha um rosto estranho, mas era uma gata de corpo e isso precisava ser muito valorizado, com um vestido divino, todo prateado. Certo, o papai queria que ele se casasse pra provar que não era um transviado (ah-cacete, transviado era demais! Que figura, viu!) e ali estava, com aliança no bolso pra pôr na mão de uma menina bem inteligente e escandalosamente gostosa, pra não terem mais dúvidas de que ele tinha... respeitabilidade, maturidade, responsabilidade, em resumo: pra provar que não era playboy e principalmente que gostava de mulher. Muito-bem, se tinha que ser assim, então que fosse, mas ao estilo do Jac, claro, pra dar uma modernizada no que havia de mais conservador. Nada de vestido-da-mamãe, se casaria em alto-estilo, alguma coisa assim, glamourosa... Se não era o casamento com quem queria de-verdade, pelo menos teria uma festa divertida, um apartamento em Cerqueira César de presente, um hospital bom pro pai da menina e uma bela viagem de lua-de-mel... Até que estava no lucro afinal, se não fosse pelo pequeno detalhe da separação com o Cláudio, que agora odiava o Jac com ódio-mortal, se não fosse isso... Dureza foi pensar em fazer com aquela menina a viagem que devia fazer com ele quando fossem morar juntos... Poderiam ter morado juntos, até fizeram planos. Mas era tudo tão agressivo, tão difícil, trabalho X paixão, o racionalismo falando mais alto mas dando um prejuízo tão grande pro peito... Tudo bem, o tempo ainda passaria, podia ficar gostando da Livi, ela não tinha nada de que os homens não gostassem, acabaria se acostumando com ela...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E poderia conseguir até com certa facilidade, agora vendo ela vir em sua direção acreditou nisso, ela vindo de azul, o corpo tão bem-feito dentro de um vestido justo, era bonita sim e leve... Caminhava tão leve, não era feito aquelas meninas que usavam saltos de quinze centímetros, mal se equilibravam em cima e socavam o chão feito umas éguas, a Livi não. Ela vinha vindo lá de longe, tinha um monte de homem olhando enquanto passava, um monte de cara mexendo com ela mas nem parecia que ela ouvia... E não ouvia de-verdade, olha que coisa, ela vinha escutando MP3, agora dava pra ver... De óculos escuros, os cachinhos voando, tão distraída, meu-deus, que mulher relaxada, nem devia estar vendo que o Jac estava ali, a cinco passos dela, não via nada, completamente alheia a tudo o que se passava nesse mundo... &lt;br&gt;&lt;br /&gt;A moça ia aonde? Se assustava, que bonitinha! “Desculpa, João Carlos, eu ando distraída...” Beijinho no rosto, muita cortesia pra o gosto do Jac, que-nem o desculpa-João-Carlos dela que não acontecia nunca antes de noivarem. Chamasse de Jac, por-favor, ou só João se preferisse. “Tá, tá... Eu vou me lembrar disso. Quer beijo-na-boca também? Vem cá...” Riu, deu selinho, pegou a mão dele, foram andando até a alfaiataria. Às vezes ela ficava meio afetada, parecia estar num filme, muito estranha, muito distante da própria vida, no que estaria pensando? “Pensamentos aleatórios, meu noivo” – ria e ria e ria... O Jac também gostaria de saber o que tinha tanta graça, porque a situação dele e principalmente a dela não eram nem um pouco confortáveis, mas também achou bom que não estivesse stressada como ele estava. Ela agora provava o vestido, o costureiro aplicava alguns alfinetes pra ajuste, e ela começava a rir novamente. Ria irônica? Não dava pra saber... “Isso não é exatamente um vestido de noiva, né, João?” O vestido era perfeito, muito lindo, estava orgulhoso de si por ter desenhado uma coisa tão bonita e tão feminina e tão delicada e a cor de prata caia bem na pele bronzeada, o tecido era perfeito, o caimento... Mas a cabeça estalou de repente: que coisa chata, a moça estava vestida bem em frente e ele encantado com a própria obra em vez de elogiá-la, que coisa mais gay. Falava então, ela estava parecendo uma diva e o Jac nem acreditava que tudo-aquilo seria dele dali a pouquinho. Mas ela não parecia ter gostado de ouvir aquilo, talvez tivesse sido vulgar e sendo ou não sendo agora já tinha dito. A propósito, que aproveitasse a despedida de solteira, o casamento estava chegando! Já tinha preparado alguma coisa? Não? Certo, devia estar de cabeça quente, ele mesmo também não tinha pensado em nada e já se preparava pra passar os dois últimos dias de solteiro no celibato mesmo. Mas, se servisse de consolo, iriam pra Ibiza na lua-de-mel, pra namorar numa rave tomando pastilha... &lt;Br&gt; &lt;br /&gt;“João, a gente... A gente vai pra Ibiza... namorar?” – cara de espanto grande! Sim a princípio, ela teria alguma idéia melhor? “É que eu não pensei em lua-de-mel... E essa coisa de namorar na rave... A gente tem mesmo...?” O Jac percebeu que provavelmente não estava sintonizado nela pelo estranhamento que a idéia causava. Como assim teriam-mesmo? Estaria falando da rave ou de namorar? “De namorar, claro. Já vou me casar com esse vestido absurdo, tanto faz ir pra rave ou pro campo, agora isso de a gente namorar...” Não continuasse a falar, por-favor, que tinha gente olhando, o vestido estava bom, deixassem lá e fossem almoçar pra falar disso, tinha um restaurante italiano legal bem do lado da rua. Na verdade essa não era bem a resposta que ele queria ter dado, mas não sabia o que dizer, em nenhum momento imaginou que ela não soubesse o que estava fazendo ao aceitar se casar e, como ela havia aceitado de pronto, achou até que gostasse dele ou que se sentisse atraída, sabia lá, foi pego de surpresa mesmo... Ãh, uma salada-carpaccio por-favor, tava morrendo de calor e precisava comer alguma coisa fresca. “Surpresa sou eu que tou, cara... Eu... É que você é gay e... Não achei que você quisesse ficar comigo” Ah, era gay, evidentemente, gostava de homens sim, mas nada contra namorar mulheres, era que com homens era muito mais gostoso, mas mulheres eram até mais bonitas, já tinha tido namorada duas vezes, mas os namoros terminavam porque o Jac acabava se interessando por algum menino e rompia antes de trair, não achava certo e... “Mas... Mas João, a gente não namora... Você... A gente... A gente vai começar do começo e... dormir junto todo dia? É mesmo?” – o estranhamento dela começava a incomodar. Como era possível ela achar que não? Não dava nem pra acreditar que ela estava falando sério!... Bom, o Jac não ia viver nenhuma mentira com ela, estava se casando de verdade, queria uma mulher de direito e fato e se ela não gostava dele poderia arranjar um caso – com discrição se negocia qualquer coisa nesse mundo! – só não viesse pedir pra não dormirem juntos... Dormir separado aliás ele também aceitava, preferia não mas aceitava, agora abrir mão de sexo com a própria esposa estava fora de cogitação e se era o que ela temia, que desculpasse: sem acordo.&lt;Br&gt; &lt;br /&gt;Agora dava até pena dela, a carinha que fazia era a de quem recebeu um passivo imenso como espólio e não tinha como pagar. Mas fazer o que, não era verdade? Na vida não se podia sair aceitando contratos sem ler tudo o que estava escrito, ela tinha que ter pensado em tudo, em tudo mesmo. A chance de desistirem do casamento existia, mas não ajudaria ninguém então o Jac nem iria propor como solução, deixaria que partisse dela se fosse o caso. Estavam em silêncio agora, comendo, ela não ria mais de nada não, o que era uma pena porque o Jac não a queria chateada. Mas a história era estranha, ainda estava sem entender a razão pela qual ela achava que não precisavam ficar juntos, podia ser que tivesse um namorado e não quisesse falar, mas o Jac não queria nem saber, queria que se fodesse, ela que prestasse mais atenção antes de aceitar proposta de casamento. Esperava só que ela não mantivesse aquela cara por muito tempo, que não fizesse do casamento um inferno, mas sabia que cabia a ele saber seduzir e conquistar a mulher e ia dar-um-jeito nisso – o Jac sempre foi pró em dar-um-jeito nas coisas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-1991568086291593111?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/1991568086291593111/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=1991568086291593111' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1991568086291593111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1991568086291593111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-22.html' title='Ato 22'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-4774616056657847745</id><published>2007-12-12T11:21:00.020-08:00</published><updated>2007-12-13T07:57:24.774-08:00</updated><title type='text'>Ato 23</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffccff;"&gt;Tinha os olhos ardendo de tanto ficar com a cara no computador, mas não adiantava ir pra cama, panquecava pra lá e pra cá e nada de o sono vir, só aquele sono cretino que não serve pra dormir e só tira a concentração da gente. Dureza não conseguir dormir e pior ainda a razão da insônia: a falta da Livi, já não conseguia dormir sem ela. Ou seria que não conseguia dormir sabendo que ela estava trepando alucinadamente com o namoradinho dançarino? Ou pior-ainda, podia ser que ela dar pro outro ainda não fosse problema maior, podia ser que o problema maior fosse que ele, Jac, não estava junto. Mas não, imagina! Claro que não era isso, tinha ciúmes dela e pronto, era melhor não problematizar muito isso. Se bem que uma semana atrás tinha sonhado que ela estava no colo do freak mordendo os vários piercings das orelhas dele, ele com a mão por dentro da calça dela. Acordou tenso e excitado, sem saber direito o que pensar de si mesmo, teve até vergonha. Queria esquecer só por um minuto do quanto esses dois se queriam e se precisavam mas tava foda! Era o caso de rezar, só podia ser, não tinha mais o que fazer mesmo: “Vamo-lá, creio-em-deus-pai-todo-poderoso-senhor-do-ceu-e-da-terra porque ele vai ter o bom senso de me fazer desencanar dessa coisa toda e vai trazer a Livi de volta pra casa sem ela estar apaixonada de amor-de-pica nem nada... E que o-sangue-de-cristo-tenha-poder pra eu não ficar pensando bobagem sobre eles dois e gostar, deus-me-livre-e-guarde-meu-deus, e que ela volte logo pra casa pra eu ter um sono na-boa e que a gente seja feliz, em-nome-de-jesus-amém”. Mas a oração não estava servindo pra acalmar, talvez devesse acender um baseado pra abrir a alma pro contato com o divino... Ia bolando com calma, embora as mãos estivessem trêmulas e meio extenuadas de insônia... Opa! Barulho na porta, a Livi tava chegando, que-bom! Correu pra sala todo ansioso. &lt;br&gt;&lt;br /&gt;Oi, oioi! Tava bem ela? Cansada? Cansada da viagem? Desse a mala pra ele, desse um beijo, sentasse um pouco... Isso, desse um abraço pra matar saudade... Nossa, e quanta saudade dela, tava sem poder dormir desde que ela foi embora. Por que? Ah, não sabia... Mas achava que era falta dela dentro de casa mesmo (o Jac fica transtornado quando sua rotina é quebrada de repente). Ele tava afim de fumar um agora, a Livi acompanharia? Sim? Ótimo, já tinha um pronto até. Queria água, alguma coisa pra comer? Foi buscar água antes de ela responder, trouxe junto o baseado, o isqueiro, um incenso. Acendeu, tossiu um pouco, ofereceu, ela deu um pega e também tossiu. Deu água a ela, queria mais alguma coisa?&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Não amor, quero nada. Só fumar mesmo, tomar um banho e capotar”. Ah, mas não tinha o direito de dormir não-senhora! O Jac estava ardendo de saudade, precisava dela de qualquer jeito – punha um dos dedos dela na boca, pra ser mais eloqüente. Ela tirava devagar: “Deixa pra amanhã, amor, tou cansada...” Tava cansada da viagem, era isso? Ela já ia fazendo manha, olhava de baixo pra cima com os olhinhos muito grandes, fazia biquinho, jeitinho fácil de fazer a gente gostar – “É amor, tou cansada...” – mas não encarava quando disse isso, escondia a carinha no peito dele... Porque tava mentindo, claro, a dissimulada não sabia dissimular direito. O pior era que isso virava quase uma ofensa à inteligência do Jac, ela devia saber que ele a conhecia o bastante pra saber quando mentia. Sentia-se admirado agora, admirado e com alguma outra coisa estranha que nunca havia sentido antes, uma energia quente que percorria o corpo depressa, nascendo no vão das costelas pra se concentrar nas têmporas, dava até um certo peso na testa, coisa ruim mesmo. E ela ali, toda aninhadinha nos braços dele, parecendo bichinho recolhido da tempestade – o Jac sempre achou a fragilidade uma das piores armas de manipulação. Estava cansada mesmo? Cansadinha de viagem? Coitadinha! Queria banho? Fossem juntos pro banheiro então, daria um belo banho nela pra não ficar cansada – foi conduzindo devagar, até que ela ficasse presa entre seu corpo e a parede, ela já estando levemente tensa e meio que imobilizada, sem ter o que fazer se não deixar que as coisas fossem acontecendo.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E iam! O Jac pressionava o corpo dela, pegava devagar aqui e ali com metodologia digna de coronel nazista e ela gemia baixinho: “Amor, pára, vai... Amor... Não, amor, não faz assim...”, querendo dizer pra ele por-favor não tocar por baixo da saia, que era exatamente o que fazia, nem por prazer de carícia mas mais pra checar o corpo dela mesmo, curiosidade mórbida. E estava úmida, inchadinha, quentinha... A calcinha toda úmida, que vaca! Vaca sim, mil vezes vaca! Imaginou imediatamente o corpo dela engatado no do... Nossa, deu inveja dele, inveja e raiva, ela dava pra ele livremente, sempre quis, nunca seria de má vontade, nunca! Molhada do jeito que tava devia ter ficado com ele a noite toda, até cinco minutos antes de chegar em casa, sem camisinha, sem porra-nenhuma, puta, puta, puta! Tava cansada disso, na verdade, claro, né! Claro! O-caralho que tava cansada de viagem! Nossa, precisava fazer ela falar disso, falar tudo o que tinha acontecido, precisava! Só de raiva! Ah, ela ia ter vergonha, ia se acanhar, mas ia falar sim. Ia se terrificar, se mortificar e se culpar e até chorar talvez, mas ia falar, de-qualquer-jeito! E ele? Tinha que se controlar, se não adeus-vingança. Tinha que manter o sangue na temperatura certa e segurar o coração muito firme nas mãos – nem sabia como ia fazer, mas ia. Certo, se preparava, respirava fundo, pensava no que dizer... Nessas horas era o caso de se fazer de cretino, de ser cínico e muito cínico! Dava início ao show: “Você não quer carinho, coelhinha? Mas tá toda excitadinha, olha só isso... Fala pra mim que ce quer, fala...” Ela fechou os olhos e prendeu a respiração, como se suspendesse a vida. Corava, tremia, era obrigada a permitir qualquer coisa porque simplesmente não estava em posição moral de recusar nada. E o Jac se sentiu tão brutalmente cruel nessa hora que teve gana de ser muito pior, mas não podia perder o controle, não podia. A coelhinha viesse, ia ganhar um banho bem bom... Não vinha? Então iria no colinho. Isso, boa menina! Agora tirasse a roupa... Logo. Bom, assim tava bom! Mas olha que coisa estranha, uns fiozinhos verdes tão fininhos no peito dela, o que era aquilo, sabia? “Amor, me deixa dormir... Por-favor, por-favor...”. Melhor tomar um banho antes não era? Pra tirar aqueles fiapos verdes... Nossa, verdes? Até reluziam na pele castanha dela... Ligou as duas duchas e direcionou os jatos sobre ela, enchia a mão de sabonete líquido e passava nela toda, depois, o sabonete íntimo, pra lavar direitinho. Ela respirava sôfrega, parecia estar chorando, mas não tinha como saber por causa da água que caía pelo rosto e levava as supostas lágrimas. Mas não queria nem saber. Estava bem de banho? Bem limpinha? Viesse pra toalha... Isso, cama agora. Ela não conseguia tirar os olhos do chão e era bem como a queria, atemorizada e humilhada, cadelinha!, ficava até mais atraente daquele jeito – estava admirado outra vez já não com ela mas consigo, nunca imaginou que sentiria o que sentia e que faria o que fazia. Mas era questão de direitos, não era? Ela estava com um débito muito feio e ia pagar sim-senhora, só-isso!&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Deitasse logo! Mas olha-só-isso, estava chorando? Por que? “Eu tou com medo de você...”. Mas medo de que? – ria. Logo dele, que amava tanto... Tava escondendo alguma coisa? “Você tá muito estranho...”. Estranho ele? A coelhinha tava era viajando, magina! Estranho por que? “Olha, Jac, eu quero ficar sozinha, eu quero dormir, eu tou com sono, eu viajei a noite toda, eu não dormi...” E não tinha dormido por que? Podia explicar direitinho? “Porque não, droga” – soluçava, chorava que nem criancinha, não devia agüentar a pressão muito mais – “não tive sono, Jac, mas que saco!”. Mas o Jac não achava que era isso e achava inclusive quem estava estranha era ela. Tinha sido tão meiguinha no telefone, por que tava daquele jeito, deprimidinha? Não, nem precisava falar, o Jac tinha um ótimo remédio pra aquela magoazinha toda, ela só tinha que abrir as pernas e relaxar... “Jac, chega!” – gritava – “Pára com isso, eu já te disse que não quero, pára de falar assim comigo! Que é que você tem?” Ela estava dificultando a brincadeira, a essa altura já devia ter contado o que tinha aprontado. Mas pegava-nada não, o Jac podia fazer terror psicológico até a noite terminar e no dia seguinte inteirinho, seria sábado, teria mesmo o dia todo pra isso, teria a vida toda na-verdade. Mas queria que ela falasse na-hora, era melhor ser mais sugestivo: “Sabe, Livi, tou te achando estranha também, nem parece a minha coelhinha” – sorria e enquanto sentia a malícia inocular cada célula do seu corpo ia beijando o tornozelo da menina, que deixava... (deixava, ela sempre deixava, mesmo quando protestava, o corpo devia gostar e ela não, a vaca-louca) – “Conta pra mim enquanto eu te beijo, conta o que te aconteceu no Rio pra você estar assim, tão sensível... Conta, tudinho”. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Não, não contava nada e a resistência fazia o Jac perder a paciência. Não beijava mais, mordia, mordia forte as pernas, as cochas, pra machucar. Virava o corpo dela na cama, arranhava as costas, virava de novo, cravava as unhas na cintura, apertava os ombros e ela tremia. Deixou que as mãos seguissem involuntárias até o pescoço, fechou um colar de dedos de aço naquele pescocinho estreito, mas que coisa gostosa, matar seria tão fácil, só um empurrão no queixo e cabou-se a Livi! Mas não, mas não. Não mataria não, e se tivesse desejo de matá-la outra vez mais tarde? Não poderia porque ela já estaria morta, era melhor deixar viver e matar um pouco por dia...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Jac refletiu um único segundo no pensamento que acabava de ter e se sentiu um verdadeiro animal. Mas não era um selvagem, era um homem, meu-deus-do-ceu, o que estava fazendo com ela? Não podia machucá-la, era uma garota, precisava sair de perto, tinha que agir como adulto e recuperar a humanidade onde quer que ela estivesse. Soltou de vez o pescoço dela, sentou-se na cama, estalou a coluna – estava a ponto de ter um ataque cardíaco de tensão. Olhou novamente pra ela, agora sentada abraçada aos próprios joelhos, nua, parecia muito menor do que era de fato.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Escutasse, o jogo havia acabado, ela ganhava. Tava bom assim pra ela? Fim de jogo. Baixasse as cartas agora, ela sabe do que se falava. “O que você quer saber, hein? Quer saber o que? Quer ouvir o que?” Não brincasse que ele não estava pra isso, era capaz de abusar do corpo dela da pior maneira possível e tirar sangue até matar. “Então tá, João, pode começar, eu não tenho nada pra te... relatar. Pode vir. Só não me sangra até a morte não, não quero morrer antes do meu pai”. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Agora sim, agora não tinha mais nada o que fazer. Então era isso, nada a explicar com relação àqueles cabelos verdes colados entre os peitos dela? “Mas que porra é essa que você quer saber, meu-deus! Jac, pelo-amor-de-deus, o que você tá fazendo com a gente? Ce quer ouvir o que? Que eu tava com outro cara? Pra que? Foi você que me disse pra ser discreta, tá querendo o que agora?”. Ela tinha razão... Tinha tanta razão, que dava raiva. Pois-é, ele não estava sendo justo. Não estava. Definitivamente não estava e não gostava de ser injusto. Justo seria se a deixasse ir, era o que ela queria, devia deixá-la ir embora pra sempre então. Não queria, queria que ela chorasse e se desesperasse um pouco mais, mas ela não era brinquedo seu, era mulher e sua-mulher. Precisava pensar, pensasse, pensasse... porque agora-a-pouco não tinha pensado e esteve a ponto de violar o corpo dela, coisa de gente bárbara! Pensasse... pensasse, Jac... Não conseguia mais, simplesmente não conseguia mais. Arremessou o porta-retrato com a foto do pai, que ficava na cabeceira, contra a parede. Assustou com o toque da mão dela nas costas. “Jac, você tá com ciúme?” Não, não era isso, era que não sabia lidar com mulher, se fosse um cara já teria contado o que aprontou e tava tudo resolvido. “Tá mentindo, tá com ciúme sim” - falava mansinha, mas ele levantou o tom de voz novamente: “Tá, tá bom. Tou com ciúme... Tou fodido de ciúme! Tá satisfeita? Tá afim de que agora? De viver com ele? Vai lá! Vai ser feliz, vai! Vai lá, anda! Quer um help com as malas?” – e quem se encolhia agora era ele, completamente desmoralizado. Sentiu a cabeça doer e pânico, pânico de ela dizer que sim, que ia embora agora mesmo, e não sem razão, se o Jac estivesse no lugar dela faria isso mesmo. Mas ela abraçava em vez disso: “Jac, não precisa ter ciúme, eu não vou embora. Sério, amor. Esquece isso, olha pra mim. Não, amor, olha pra mim, eu sou tua... Tua tá? Larga disso. Você tá sem dormir, deve tar muito nervoso... Pára...” – e beijava, deixava a boca escorregar pelas costas dele, depois pelo pescoço – “Ce lembra da primeira vez em que disse que me amava? Tenta lembrar, eu sou a mesma. E eu te amo também. Deixa o resto pra lá e me abraça. Abraça e me olha, eu te amo, tá”. Nossa, amava depois de tudo aquilo, e era verdade, só podia ser porque ela não sabia mentir. Mas ele não tinha o que fazer com aquele amor agora, queria que ela tivesse ódio dele e não amor. Queria não ser ele mesmo.&lt;Br&gt; Queria massagem nos ombros. &lt;Br&gt; Queria que nada daquilo tivesse acontecido. &lt;Br&gt; Queria ter mantido o controle. &lt;Br&gt; Queria dormir. &lt;Br&gt;Queria esquecer. &lt;Br&gt; Meu-deus-de-céu, queria dormir até terminar a vida. Deitou-se, recebeu um beijo dela mas se esquivou do seguinte: “Livi, se a gente não dormir agora vamos ter um surto psicótico... Me ajuda a dormir”. Sim, ela ajudava fazendo cafuné que ele gostava, estavam exaustos, dormiram logo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-4774616056657847745?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/4774616056657847745/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=4774616056657847745' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4774616056657847745'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4774616056657847745'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-23.html' title='Ato 23'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-2712232388561176304</id><published>2007-12-12T11:21:00.019-08:00</published><updated>2007-12-12T11:51:55.264-08:00</updated><title type='text'>Ato 24</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;color:#33cc00;"&gt;Todos os dias Olívia Celeste Ares aprende uma palavra diferente, algum nome de coisa que ela já conhece mas que por alguma enunciação se torna nova: escuta alguém falando ou vê alguma atitude e abstrai uma palavra, mas não pode ser qualquer palavra, tem que ser a que sintetize o tópico principal do discurso. Na verdade, não é questão de escolha mas de intuir as adequações, prestando atenção no que se escuta, alguma palavra salta e fica e se mexe-que-remexe na cabeça, o que significa que a gente precisa pensar um pouquinho sobre ela. &lt;br&gt;&lt;br /&gt;Depois de atentar pra palavra, que é a parte fácil, resta pensar no que ela significa, que é a parte difícil. Tem que se lembrar se realmente conhece o significado e a etimologia, de preferência; um dicionário pode ajudar a resolver esse problema. Depois, procura se lembrar da palavra no contexto em que foi dita e em outros contextos diferentes, referências de casos análogos, qualquer coisa assim; a palavra então já fica com tantas camadas de significação diferentes, uma dança de sintagmas e paradigmas que fica impressa na mente. Então vem a parte final, que consiste em anotar a palavra no diário, já ressignificada. Quando ela se lembra do discurso inicial de onde abstraiu a palavra, já não sabe dizer se o que ouviu da pessoa foi ruim ou bom, pode ter sido qualquer coisa porque existem múltiplas possibilidades, escolher uma só seria realizar um julgamento precipitado a respeito de quem falou e nada é pior que julgar os outros, ou seja, reduzir as possibilidades de leitura de alguém.&lt;br&gt; &lt;br /&gt;Quer um exemplo do exercício? A palavra estereótipo. Uma tarde, há muito tempo atrás, era aniversário do pai, teve um samba em casa. A Livi namorava um cara muito simpático na época que, quando começou a tocar Morena de Angola, espalmou a mão na bunda dela e disse: “samba, mulata!!!” – e a Livi não sabia sambar... Mas como assim não sabia? Uma brasileira dengosa daquelas? Pois era verdade, ela não sabia sambar. E algumas primas fizeram absoluta questão de ensinar ao menos uns passos, um gingado, mas nada, a Livi gostava de dançar glam-rock, não tinha jeito pra samba não. Acabou deixando que tentassem ensinar alguma coisa assim mesmo, que remédio? Além do mais, tava todo-mundo se divertindo com aquilo, deixasse pra lá. Na noite seguinte, tinha a palavra: do grego, &lt;em&gt;sterós&lt;/em&gt; (= sólido) + &lt;em&gt;týpos&lt;/em&gt; (= tipo), uma opinião preconcebida que é compartilhada por todo-mundo, um lugar-comum, o estereótipo, era essa a palavra do namorado pra ela. No diário anotou assim: “Estereótipo: 1. a barra que as pessoas forçam pra homogeneizar quem não se enquadra; 2. eu tendo o samba no sangue, na cara e no pé”.&lt;Br&gt; &lt;br /&gt;Mas a Olívia Celeste Ares tem passado por uma crise com isso tudo. É que nessa noite ela descobriu uma palavra nova, peso. E foi triste, muito triste. Ela agora está sentada no parapeito do vão do MASP, com o palmtop na mão, escrevendo sobre peso e se lembrando do ensejo da palavra, a saber, a noite anterior, quando o Sea esteve arrasado por causa da notícia do casamento do Marcos. Recebeu com muita surpresa a nova e se magoou em demasia pra alguém que vivia com outra pessoa havia já quatro meses. Mas esse é o Sea, né, vai entender... Foi pra um bar perto de casa com a Livi, que ficou escutando aquelas lamúrias intermináveis e várias rememorações, aquele blábláblá de bêbado – porque tomava tanta tequila que não demorou meia-hora pra ficar loucasso. Ah, sim! Não bastando, acendeu um baseado e fumou no meio da rua como fosse a coisa mais tranqüila do mundo. Na hora de irem embora, a Livi teve de servir de escora e esse é que foi o problema, porque da Peixoto Gomide (onde estavam) para a Barata Ribeiro (destino final), tinha uma escadinha de ponte no caminho, e o Sea ficou tonto e desmaiou, bem ali. Já passava das três da madrugada, estava frio, começava a garoar. A Livi tentou acordar o Sea como pôde, mas nada. Tomou os sinais vitais e tudo parecia funcionar bem naquele corpo magro... Magro mas pesado. Ela tentou puxar pelos braço, pra que ele acordasse e se levantasse, puxou muito, com muita força mesmo, com toda a força de que dispunha mas ele nem se mexia. E magrinho como era, parecia tão leve! Estava certo, apesar de magro tinha o corpo bem definido, mas nenhum músculo era hipertrofiado, só bem contornado mesmo, não devia pesar assim. Era como tentar carregar água, sempre parece menos pesado do que é de fato. E a noite ia correndo e a chuva engrossando e nenhum viva-alma passando e o crescendo desespero de não ter um celular pra ligar no hospital ou na polícia. Tornava a tentar acordar o Sea, achando que ele tinha entrado em coma alcoólico ou qualquer coisa assim, segurava forte as mão e puxava e puxava e puxava e nada. Ela já não queria ficar ali havia tempo e não podia deixar o Sea, então tentava pensar em coisas aleatórias que não envolvessem o termo tragédia enquanto se encharcava e se resfriava e se doloria inteira sem ter mais o que fazer. Não era possível!&lt;br /&gt;Devia ser por volta das cinco quando ele finalmente acordou, mas bêbado ainda, andava se arrastando na parede por um lado e por outro abraçado à Livi, já se sentindo fraca demais pra dar-conta. Chegou simplesmente extenuada e ficou ainda pior no dia seguinte (o de hoje no-caso) porque pra o Sea, tudo aquilo não passava de um sonho estranho, parecia ter dormido na chuva, não sabia bem como tinha chegado em casa, essa coisa toda.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas a Liv não, a Livi sentia o corpo como se tivesse tomado uma surra daquelas e ficou num humor tão lamentável que não podia consigo mesma. Pra completar, chegou no trabalho com cara mal-dormida e teve que agüentar o olhar pretamente fixo do Jac perguntando telepaticamente o que ela tinha. A Livi nunca falava sobre o Sea pro Jac, mas tinha certeza absoluta que ele sabia que estavam vivendo crises conjugais, porque a abraçava muito gentilmente sempre, oferecendo a ajuda que fosse pra tudo quanto precisasse a qualquer hora do dia ou da noite. Tivesse ligado pra ele na noite passada, teria recebido ajuda pra se livrar do P-T que o outro tinha dado. Não teria coragem de pedir jamais mas sabia que receberia ajuda com o peso – o Jac sempre dava-conta mais que ela. Na hora da chuva, com o namorado desacordado no colo e no meio da rua, a Livi desejou ardentemente que o Jac estivesse ali, que fosse forte por eles dois, que a abraçasse e levasse pra casa, que a fizesse se lembrar de como era viver uma rotina normal, tomar café junto comentando o jornal, almoçar junto, ajudar a dar nó em gravata, sair com casais amigos pra ir ao cinema ou jantar... E escutar o sax soando I get along without you very well, o Jac tocava tão bonito! Mas não falou nada sobre isso também, não falou nada e nem falaria: ela nunca falaria sobre aquela noite em toda a vida, a não ser a si mesma, quando tivesse chegado em Pasárgada.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Pasárgada é onde ela está agora e tem vista pra Nove de Julio. Está escrevendo assim: “Peso: do latim &lt;em&gt;pensu&lt;/em&gt;. Ônus. Na física, resultante da ação da gravidade sobre os corpos ou gravidade inerente aos corpos. Tudo o que faz pressão. Figurado: tudo o que incomoda ou afadiga; depressão ou opressão; peso morto: aquilo que está inerte e atrapalha; Peso do mar projetado no céu: o Sea”.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Olívia Celeste Ares sentiu apertar a garganta depois e quis chorar mas não chorou (isso ela quase nunca deixava acontecer).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-2712232388561176304?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/2712232388561176304/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=2712232388561176304' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/2712232388561176304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/2712232388561176304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-24.html' title='Ato 24'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-6665341745751578490</id><published>2007-12-12T11:21:00.018-08:00</published><updated>2007-12-13T07:59:56.808-08:00</updated><title type='text'>Ato 25</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt; “_Alô, por-favor, o Marcos?... Ah, é você? O-que-que acontece com a tua voz, tá com a garganta fodida?... Tou, tou bem sim, missin’ you. Mas e você, como tá o casamento?... Yeah, but you’re still fine together I guess... You gotta go on… I wish nothing but the best for you and her... É mas agora eu juro que é verdade sim, hahahaha... Oh! We’re fine, we’re very fine, I think I’m falling in love… So-what?... O-cacete, maldade sua, só porque eu já me apaixonei por quase todas as pessoas que me comeram não significa que não fosse em todas as vezes amor de-verdade... Amor, paixão, whatever! É essa mania de dar nome que estraga as coisas todas, importa que a gente tá junto e vai ficar sério, ele tá me respeitando mais... Tá, tá sim... Yeah... Não, então, até mais, mas é bem gradual. Porque, tipo-assim, a gente nunca andava de mão-dada, nem de noite que é mais sussu, e agora já anda pelo menos em bar, balada... É, então, mas o engraçado é isso, porque beijo-na-boca ele dá, mas mão, nem-fodendo, isso é coisa de quem tem medo... Yeah... No, he’s trying hard!... Tá sim, até me apresentou pra uns amigos bichas que ele tem... Tem, tem amigo gay, mas são tudo uns boyzinho do-caralho, sabe, boy babaca, só que bicha... Pois-é, umas barbies, um povo nada-a-ver viciado em Maddonna, enfim, são amigos dele e ele me apresentou, não ficou disfarçando, me chamando de amiguinho nem-nada, me beijou, só não chamou de namorado ainda... É, meu, ele é resistente, todo difícil, mas deixa-quieto, inda vai virar namorado sim... He use to say that I’m vicious but he likes me... Pois é, isso é muito relativo, mas ele diz que é difícil viver com alguém que-nem eu, que eu deixo as pessoas inseguras, que eu tenho problema de identidade, que eu não levo nada a-sério... Mas é relativo isso! O que é levar-a-sério a vida? É trabalhar nove horas por-dia? É juntar grana e ter carro e ter escritório com o nome na porta? É andar de terno? É fazer filho?... Não, porque se for, eu nunca vou levar a vida a-sério e, cara, eu trabalho na academia de dança, eu faço performance, eu tou dando uma força pro pessoal do teatro com coreografia, eu ensino inglês de graça, será nada-disso é sério?... Yeah, it’s his life, I know... But I can’t, I’m not like him... No, I believe that we can stay together even if... Eu sei, eu sei, Preto! Mas não vai ser que nem foi com a gente, eu acho que ele vai batalhar mais, ele sabe que a gente é de mundos diferentes mas que... Ãh?... Ah, no fundo ele sabe, ele acha que não vai dar certo, ele sempre sabe de tudo na vida... Pois é, é um saco isso, ele até beija de olhos abertos, eu acho até que ele nunca fecha os olhos... Nem dorme, dorme pouco, ele é meio notívago, diz que ficou pior depois que a Liv foi embora... Não, ele evita falar dela comigo mas eu nem tenho problema em falar dela... Nunca mais, mas eu escrevo pra ela todo dia, nem sei se ela lê... Porque eu prometi que não ia deixar ela sozinha nunca... Não, ele não sabe, vou contar pra que?... No fucking-way! Ele nem é meu namorado ainda, quando for eu posso pensar... Quero, é o que eu te disse, eu tou apaixonado, penso nele o tempo todo... Nela também e em você, sempre... I’m not bitch, I just love to love and this is all that I have... Ce sabe que eu te amo, Preto, sempre amei, quer confete?... Pois é, é curioso isso, olha só: amor só é amor quando a gente expressa do jeitinho que todo-mundo expressa, né? Tem que dar presente, dizer que ama todo-dia, prometer que não vai trepar com mais ninguém, dar aliança, planejar filho, se não fizer é porque não ama... Não, é que eu não acho que sentimentos se subordinem a coisas assim, só isso, essa porra toda não prova nada!... Também não acho que amor por uma pessoa exclui amor por outra, até porque a gente nunca ama ninguém do mesmo jeito... Claro, com você foi de um jeito, com a Liv de outro e com o Jake é de outro ainda, vocês são diferentes, amores diferentes... Nossa, Preto, mas que coisa mais burguesinha, achar que uma única pessoa vai atender a tudo o que você precisa, que você vai ser feliz segundo os sacros moldes da família moderna... Ah, tá-bom, a Júlia te dá tudo-tudinho que você quer, né? É por isso que você vem pra São Paulo uma vez por mês pra me ver... Hahahahaha... É, eu não achei que você tivesse falando de você mesmo, hahahahaha... Oh-yeah, he thinks that he can... Claro, foi criado desse jeito, o pai dele era super conservador, o Jake cresceu ouvindo que você não é homem se não trabalha, se não tem mulher e filho e casa... Só não acredita mais porque é gay, porque ele é bem bitolado em trabalho e bem ciumento também, todo certinho, por isso que ele não quer me assumir... Abso-fucking-lutely! É meu preço e eu não faço por menos, se não quiser... I’ll give up, there’s nothing I can do... Vê se eu tenho cara de putinha de yuppie! Nã-nã-não, ele vai ter que ter consideração sim, eu até coloquei um prazo, junho, a parada gay, até lá ele vai ter que se amaciar, se não it’s over... É, eu vou tentar convencer o Jake a ir comigo, ele tem que sair do armário de-verdade e eu vou pedir em namoro nesse dia, se ele vier, ótimo, se não... Okay, enough about Jake, let’s talk about the Juli-experience... Monótono, né? Claro, ela não é o Siegfired, né? Hahahahaha... Por que-que ces casaram, hein, depois de oito anos namorando?... Certo, e não teve nada-nadinha a ver com eu ter colocado a Liv pra dentro de casa?... Ah, eu sou pretensioso? Tá certo, de ti quem sabe é você, quem sou eu, Preto... Ah, é o que eu te disse, nunca mais tive notícia, desde que ela saiu... Sei lá, cara, eu nunca entendi direito essa mulher, ela é diferente, é até por isso que eu gosto tanto dela, mas... Não, eu não sei dizer porque foi que a casa-caiu, ela começou a ficar cada vez mais silenciosa, mais aérea, sabe, so slinky... Não sei por que mesmo, mas foi culpa minha com-certeza, ela é um anjo e me amava... Nem vem, Marcos, essa é a única certeza que eu tenho, que ela me amou... Não, nunca disse mas não precisava falar, o corpo dela falava por ela, os olhos, o jeito dela fazer amor... Hahahahaha, deve ser ciúme seu... Tá, tá bom, vai lá que eu já devo estar enchendo... Quer vir? Pode vir sim, quando? Não, nem-fodendo, Preto, vai ser feriado e a serra de Santos vai tar entupida, ce acha que a nata da cretinisse paulistana não vai querer viajar pra praia? Se bem que ce vai tar no contra-fluxo, né? Tá... Ah, não, nem sei o que o Jake vai fazer no primeiro-de-maio, mas liberalista do jeito que é deve ficar trabalhando mesmo, hahahaha, my armani-boy... É, é que ele veste todo de Armani, cheira a Armani, vê o mundo por lentes Armani, vê o tempo correr num Armani... Hahahaha, não, deixa ele pra lá. Eu dou um jeito de a gente sair junto no feriado sim, okay?... Tá bom... Muitos, muito beijos, em você todinho, dá um beijo-de-língua na Julie por mim... Hahahaha!... Waht?... Tá, mas deixa eu ir porque os gatos já tão verdes de fome... Bye-bye!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-6665341745751578490?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/6665341745751578490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=6665341745751578490' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6665341745751578490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6665341745751578490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-25.html' title='Ato 25'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-6053233200088442843</id><published>2007-12-12T11:21:00.017-08:00</published><updated>2007-12-13T08:03:43.209-08:00</updated><title type='text'>Ato 26</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;de: Ziggyfree [ziggyfree@corpus.com.br] &lt;br&gt;&lt;br /&gt;para: Olívia Celeste [leavealone@gmail.com] &lt;br&gt;&lt;br /&gt;data: Hoje (6 horas atrás) &lt;br&gt;&lt;br /&gt;assunto: It hit me everyday &lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hi, my urchin one! &lt;br&gt;&lt;br /&gt;O dia foi sombrio, 7 graus em SP, chuva. Deve estar muito frio em Bs As, imagino vc sofrendo com a sua pele seca. Será que neva por aí? A última vez em que eu vi neve ainda era criança, o que é bom porque não gosto de neve. Na noite passada eu terminei de ler o livro de poemas do escritor africano que você me deu, o Karingana. Hoje eu pintei com spray um dos poemas no teto do meu quarto, chama-se &lt;a href="http://pos-utopia.blogspot.com/2007/11/civilizao.html"&gt;Civilização&lt;/a&gt;, você se lembra dele? Descupe pela pergunta retórica. A propósito, lamento pelo último poema que eu enviei, ele é realmente muito feio. Mas a respeito de coisas feias eu poderia escrever tanto que o poema seria no final a mais bela – é tudo tão relativo, não? Essa semana eu vi uma pessoa se ajoelhar no chão do banco e chorar, chorar desesperadamente. Fui ajudar o homem, mas não me senti autorizado a perguntar o que tinha acontecido (estou tentando ser menos invasivo ultimamente). A verdade é que eu não precisei perguntar porque ele começou a falar, falar e falar quando eu o abracei. Aconteceu de ele ter um tipo de invalidez por conta de problemas emocionais (no mesmo ano ele perdeu os dois filhos num acidente e a esposa pro câncer). Ele ficou com uns lapsos muito sérios de memória recente e não consegue mais trabalhar (mesmo tendo idade pra se aposentar ele trabalha). Mas a seguradora da previdência negou o pedido de aposentadoria. E como ele é autônomo, não tem mais de onde tirar grana. Tecnicamente a vida dele acabou. Como alguém pode fazer isso? São pessoas, não é? Now I'm hoping someone will care... Mas nada! Eu acho que é por isso que eu me sinto cada vez mais fino, mais gasto, como se fosse um pedaço de carne batido demais. É tudo tão bem feito, tão bem articulado, quem já está vencendo vai vencer pra sempre e os perdedores somos nós, desde antes de nascermos. É um esquema que fica 24 horas calculando a maneira mais barata e eficaz de reduzir gente a sifra, eles são brilhantes, onipotentes, onipresentes. Em qualquer lugar de alto nível – e mesmo de médio – que você vá em SP o atendimento é o pior possível sempre, porque se contrata mão de obra desqualificada e em vez de qualificarem, pagam o menor salário do mundo. O empregado (ou colaborador, em bom tucanês) fica insatisfeito (ou desmotivado, em bom tucanês) e não atende ninguém direito. Eu tenho até vergonha de ir ao cinema no domingo pra me divertir, enquanto essa gente, que muitas vezes é religiosa e devia guardar o domingo, precisa trabalhar e sem ganhar adicional, porque os desgraçados pagam a mesma coisa seja domingo ou 2ª. É por causa desse tipo de coisa que todos os serviços prestados depois do ano 2000 trabalham incessantemente pra pior atender-nos. O telemarketing é o caso mais clássico. E fica cada vez mais difícil de se poder reclamar. Eu nunca sei se me sinto pior ao ser mal atendido ou ao reclamar do coitado pra um superior que vai ameaçar demitir e colocar no lugar dele alguém tão ruim quanto. É claro que eu quero passar bem, mas mais claro ainda é que a pouca moralidade que eu tenho passa justamente na questão de não ser um escroto com quem está pior que eu. Mesmo porque, se você for ver bem, eu estou na mesma posição que eles em termos de luta de classe, estou sendo explorado também, seria até falta de empatia. A gente precisa dos bons burgueses pra proteger a gente, que grande palhaçada. Por falar nisso, aconteceu uma coisa muito singular e eu não sei o que pensar dela. Te falei que não posso mais dar minhas aulas de inglês na quadra da comunidade pra molecada porque dois casais da igreja me chamaram de tarado, achando que podia abusar dos filhos deles, você lembra? Tudo foi porque me viram andando de mão dada com o meu namorado. Pois é, o caso é que esse meu namorado é ótimo em captar dinheiro, ainda mais se for por boas causas que vão ficar escritas num cartaz na empresa dele (responsabilidade social é como ele chama). Sabendo dessa história que aconteceu, ele simplesmente comprou quem tinha que ser comprado e resolveu a questão: inflou de grana a associação, disse que queria que todo mundo organizasse todos os cursos e que todas as aulas fossem dadas em salas fechadas e não na quadra, porque uma parte da grana era pra alugar um lugar. E a condição pra ele liberar a verba era que eu voltasse a dar aula. O pessoal aceitou, embora eu já não tenha a mesma turminha de antes, posso ajudar outra vez, que é o trabalho que eu mais gosto. Foi uma das coisas mais gentis que alguém já fez por mim, mas eu não sei se gosto desse tipo de gentileza. O cara teve que comprar todo mundo e falou, sem o menor pudor, que se ele estava pagando, tudo tinha que sair do jeito dele e fim de papo. Eu não quis aceitar a princípio e não aceito bem até agora, me dá dor de cabeça cada vez que alguém me olha com cara esquisita. E me dá vontade de me matar quando algum ex-aluninho me pergunta porque eu não dou mais aula pra eles, não tenho coragem de dizer que os pais deles me acham um monstro e que eu calei a boca deles com dinheiro. Nessas horas eu respondo só que não sou bom o bastante pra eles e fico no maior apuro porque eles dizem que não tem nada a ver e me abraçam – eu criei pânico de ser abraçado por menininhos. É aqui que a gente vive, no mundo em que tudo se resolve com dinheiro. E não interessa mais quem a gente é, contanto que a gente pareça ser ok segundo o ethos neo-liberal (se bem que tendo grana até isso dá pra conseguir). Neném, eu odeio, odeio mais que tudo essa ditadura do politicamente correto, odeio. Lembrei do filme que eu te dei, o 1984, e queria que você fosse a minha Júlia agora, minha Júlia, tirando a roupa devagarinho pra mim, se tocando, com carinha de tesão. Você toda linda de langerie deitada no sofá, fazendo cena, como eu te queria agora, toda puta, sem a menor vergonha, você andando bem pelada pela rua e vindo me abraçar, você no meio de uma suruba, caindo de rir, você e um monte de sacanagem bem suja, e eu te vendo e me sentindo um ser humano outra vez. Você me faz viver. Quanto ao meu namorado, estamos apaixonados e eu me odeio por isso e odeio ele também, ele se orgulha de tudo o que eu mais odeio na existência, mas também é a coisa que eu mais quero ter na mão, é pior que vício em craque, eu preciso ficar com ele como quem precisa de mais uma dose, mas cada vez que a gente fica ele me mata um pouquinho. Não que ele seja um canalha, acho que não é isso, mas é misturar base com ácido, a gente se anula quando está junto. Mudando de assunto, precisei castrar a Rock, ela começou a entrar em cios consecutivos e eu não conseguia mais dormir, quando fui descobrir, ela tinha infecção de útero. Estou chateadíssimo, ela é estéril agora e eu sinto falta do miado dela. O Jazz está super estranho com ela, não sei o que acontece, mas ele está bem. A Blues é que não tem jeito, sente sua falta demais, fica melancólica, parada, olhando pro nada o dia todo. Quando eu chego, ela deita no meu colo e acha ruim se eu tento tirar, está muito injuriada. Eles estão te mandando beijinho de gato agora, rs. E eu, tudo o que eu vivo é o desejo de te ver mais uma vez, no mais, só poeira da terra, só água do céu, sinto até falta de ar de vez em quando. I’ll always be there for you.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;S.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-6053233200088442843?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/6053233200088442843/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=6053233200088442843' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6053233200088442843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6053233200088442843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-27_12.html' title='Ato 26'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7608246906730450407</id><published>2007-12-12T11:21:00.016-08:00</published><updated>2007-12-13T08:04:46.448-08:00</updated><title type='text'>Ato 27</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;“... Nã-não, nada disso, obrigado, só a salada mesmo... E uma taça desse chardonay. Obrigado.” Pousou as mãos sobre a perna cruzada e voltou a armar a cara-de-paisagem adequada pra situações socialmente desconfortáveis: um olhar plácido, um sorriso discreto e uma pequena inclinação de cabeça, que se movia de vez em quando pra declarar alguma atenção à entediante conversa da mesa. Fazia isso bem agora, quando uma menina antipática (namorada de amigo do Jake) perguntava: “Só essa saladinha? Tá de regime? Pára, você é tão magrinho...” Na verdade ouvia mesmo poucas das perguntas, abanava a cabeça pra tudo e alargava um pouco o sorriso vez em quando, mas nem queria saber o que se falava. Boring people, really-really boring! Mas já que não tinha mesmo o que fazer pra se livrar da situação, começava a viajar pra longe, pra Amsterdã, lugar aonde não ia desde muito criança e onde o Chet Baker morreu. Quando se tratava de jazz, o Sea tinha uma admiração especial pelo Chet por causa da que ele tinha capacidade de encontrar o tom em qualquer música, não importava se os músicos trocassem transposições sem avisar, o que já tinha acontecido uma vez, o Chet sempre achava o tom. Ele tinha cantado Funny Valentine uma semana antes de se suicidar...Esse não era definitivamente o melhor som dele, mas o Sea passou a gostar muito porque o Jake dizia que era a música que ouvia pra se lembrar das noites que passavam juntos e costumava tocar no sax por gosto de agradar - e agradava mesmo, agradava bastante. Foi também essa música que o Sea fez questão de tirar no piano quando o Jake acordou no apêzinho da Bela Vista pela primeira vez, coisa que demorou meses pra acontecer. Ele ficou emocionado, cantou uma parte: “But don’t change a hair for me... Not if you care for me... Stay, little valentine, stay”, cantou bonito, olhando pro Sea (que quase morreu de amor), ah!, como ele foi romântico e que difícil de acontecer isso era! Mas não durou muito o clima, claro que não, porque ele não se lembrava de o Sea ter piano em casa e quis saber onde tinha aprendido a tocar. Ah, tinha aprendido sozinho. “Nem-fodendo! Ce fez conservatório lá na Europa ou teve professor?” Tinha aprendido sozinho, tava falando! “Nossa, Sea, porque-que ce é tão mentiroso, hein? Ce mente muito, meu!, mente pra tudo. Ce é compulsivo?” E começava assim uma nova discussão, mais um bate-cabeça pra usar o termo certo, que teve tapas feios como “me admira um advogado ser amante da verdade, deveria ter feito filosofia” e “você mente desse jeito porque nem você mesmo se aceita como é” e “eu não sei por que a sua realidade é melhor que a minha/porque a sua não é real” e “eu minto sendo sincero, você fala a verdade e engana” e “não quero mais falar disso”, essas coisas de sempre. Mas não queria lembrar de briga com o Jake, preferia lembrar do jazz, my funny valentine... sweet comic valentine... you make me smile with my heart... your looks are laughable... Unphotographable… Yet you’re my favorite work of art…&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Nossa, desculpasse. O que tinha dito? Não tinha prestado atenção...“Ela perguntou há quanto tempo você ta morando no Brasil” – o Jake. Ah, muito tempo, nem sabia mais, nem lembrava... E nem queria pensar nisso, aquela conversinha era muito besta, ninguém ali tava preocupado em saber da biografia do Sea, tava-na-cara. Perguntavam pra fazer um social e afastar silêncios incômodos mas o Sea não-tava-nem-aí , o problema era que não podia dizer nada disso sob pena de criar-caso e dormir sozinho – e o que a gente não faz por uma bela trepada, não! Mas o Jake tinha uma coisa de bom, ele pegava fácil-fácil as coisas no ar. Agora, por exemplo, ia pegando que o Sea não tinha o melhor ânimo possível e começou a servir de porta-voz, respondendo o que podia cheio de jogo-de-cintura: que o Sea tava de dieta sim e sempre tava, que o Sea tinha uns projetos sociais legais, que o Sea era marxista, que o Sea era meio excêntrico, que o Sea isso-e-aquilo-e-aquilo-outro. “Ele te conhece bem, né? Queria uma amizade assim!” – comentariozinho hipócrita que a patricinha imbecil tinha feito! Sea got enough. Show time! Como era mesmo que ela se chamava? “É Tati. E você é Ziggy? De Ziggy Stardust? É aquela coisa de você ser excêntrico, que nem a sombra que ce passa no olho?” O Jake parecia ter pego perigo no ar, até arregalava os olhões pretos, but too late: “Então... ô Tati, não é de Ziggy Stardust, é de Siegfried. E eu não sou marxista, só não fico satisfeito com nada nessa vida. E eu não tou de dieta, sou anoréxico há mais de quinze anos, desde que eu desfilava, deixei de ser modelo de tanta droga que eu tomei. E eu também não sou excêntrico, tenho transtorno bipolar mesmo. O Jake é que é bonzinho pra me definir... It’s ‘cause I’m his favorite work of art... Tem outra ainda, a gente não é amigo, a gente tem um caso, eu sou bicha, é por isso que ando pintado”, mas disse tudo com a voz mais maviosa, cheio de sorrisos e doçuras, de forma que não dava pra dizer que foi grosseria. Um improviso digno do Chet, hein!, tava até orgulhoso de si. A trouxa ali, com cara de quem-comeu-e-não-gostou, tinha tomado invertida em público porque fez pergunta errada! Very nice! Mas era melhor parar com a masturbação mental e prestar atenção no Jake, que tava olhando duro com um sorriso hermético e isso dava medo.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Se olhavam... se olhavam... se olhavam, de frente um pro outro, a mesa no meio, quatro outras pessoas sentada perto, a patricinha insuportável inclusive. Alguém falava qualquer coisa sobre uma balada que tinha sido inaugurada fazia pouco tempo e sei-que-lá-mais e... Se olhavam... se olhavam ainda: o Jake era iniciado e bem-acabado na arte do terrorismo, puta-que-pariu!, como era! Pro Sea sobrava o dom de atuar como único escudo contra a metralhada visual. Se olhavam... “Com licença, gente. Seag, vem no toillet comigo... Agora.” – era simples assim, ele nunca pedia, mandava, ordenava, e quase todo-mundo obedecia, even rebel-Sea. Foram andando, andando de vagar, o Jake atrás sem dizer nada. O coração do Sea era um tambor de marcha militar que os pés levavam pro pelotão de fuzilamento. Chegaram. O Jake conseguiu fazer com que o Sea se virasse num único puxão de braço e o prendeu contra a parede: “Que ataque de verdades foi aquele lá fora, mocinho, vai explicando!” O Sea procurava o tom do Jake pra poder improvisar novamente mas não deu tempo, porque foi suspenso pelas ancas e teve a boca invadida por um beijo tão longo e intenso que mataria a sede do sertão por um ano. “Vamo sair daqui, eu quero ficar com você agora... na sua casa, como você quiser” – incrível, nenhuma oferta do Jake podia ser mais generosa nessa vida (ele detestava a casa do Sea), oferta realmente irrecusável. Foram. E o Sea ficou quietinho no caminho, pensando sobre os destemperos desse mundo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7608246906730450407?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7608246906730450407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7608246906730450407' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7608246906730450407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7608246906730450407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-27.html' title='Ato 27'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-3281577130238331107</id><published>2007-12-12T11:21:00.015-08:00</published><updated>2007-12-13T08:20:51.540-08:00</updated><title type='text'>Ato 28</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Outro aniversário de casamento, outro vestido desenhado pelo Jake, outra festa super chic, outra vez sorrisos gratuitos pra conhecidos – porque amigos mesmo a Livi tinha poucos e nenhum ia com a cara do Jac o bastante pra participar das festas dele, era uma gente meio cara-de-pau, que não ia resistir a dar umas tiradas em que estava ali pra fazer média... Como o Cláudio por exemplo, o ex do Jac que tinha ódio mortal da Livi mas estava todo simpático, cheio de sorrisos, até tirava pra dançar, mas que coisa! E a Livi? Ah, deixava... Fazer o que, causar só pra tirar o sossego do Jac? Nada, já tinha passado dessa fase! E depois, andava com a cabeça tão longe que tudo isso parecia bobagem. Tava pensando no Sea... Chateada, chateada mesmo... Triste de não ter jeito, o coração estralando num lugar-comum inesperado... Ai, caralho! Que coisa mais ruim! E o pior era que estava assim por responsabilidade própria, nunca devia ter ido pra cama com ele. Nunca! Mas foi... Viajou com ele pro Rio disposta a não deixar acontecer nada e deu certo, dormiram sono dormido e velado as três noites... pra se comerem alucinadamente assim que puseram os pés em São Paulo! Que cretina tinha sido em não escutar o próprio bom-senso, o Sea não era coisa que se tocasse, era um anjo e um amigo, amigo que adorava e que dava carinhos pra ela se sentir querida, um anjo mesmo... Mas ele fazia verão no corpo dela e alegria nas idéias, que azar! Nossa, meu-deus, que azar! Bem agora que não tinha tempo nem pra respirar direito, precisava tanto correr atrás do projeto do mestrado, o prazo tava apertado... Dois anos num amor de alma que foi se realizar justamente agora! A Livi era mesmo uma criança, era a Virgínia rodando tonta numa ciranda de pedra.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E que peso que dava no peito ao se lembrar da carinha dele depois de se despedirem na noite anterior, quando ele foi se afastando de cabecinha baixa, andar lento e afetadinho, o cabelo preso em rabo-de-cavalo e a franja verde caindo nos olhos, parecia uma menininha rejeitada. Tão diferente da solidez do Jac, que sempre insistia até tudo sair do jeito dele e quase nunca ficava sentido... Olhava pra ele agora e lá estava, estalando os dedos ao ritmo de Billie Holiday tão estiloso, comemorando o aniversário de casamento mais uma vez, usando todo o charme e a habilidade que tinha pra reconquistar a Livi – sabia que ela andava pensando no Sea, não era idiota, mas não dizia nada, fingia que não estava acontecendo, armava jantares, dava flores, fazia amor devagarinho pra agradar, que doce!, sempre tão sensato. Mas não dava pra corresponder agora, dava no máximo pra ser legal com ele, porque não conseguia tirar o Sea da cabeça, principalmente que ele tinha dito! Que horror, meu-deus! A cena não parava de se repassar e a voz dele quase gritava nos ouvidos da mente: “Sorry, I’m not your joke! E nem tempero do seu casamento sem-graça. A única vez que a gente ficou na minha casa foi a primeira e a gente nem conversa direito desd’esse dia, a aula termina, vai todo mundo embora, você me arrasta pro vestiário, me come, sai-fora e acha que é isso aí. But you’re completely wrong. I wanna hold you, I wanna sleep with you. I need to talk to you, I don’t need to fuck... Eu posso foder com qualquer um, não quero isso com você, se você não tem tempo pra gente, no-problem, we can be only friends and not to make sex again”. Na hora em que ele disse deu vontade de chorar e de gritar e de dar nele até, não parecia nada justo o que tava ouvindo porque em nenhum momento ela tinha considerado tudo como um jogo ou uma distração pro casamento, nada disso! Era que ela não estava com tempo, só isso, não tinha tempo pra conversar como antes... E se sentia uma centelha quando estavam próximos, o corpo ardia muito na falta dele, de forma que quando estavam sozinhos nem raciocinava direito, ia logo se livrando de tudo que era roupa. A bem da verdade até ali não havia parado pra pensar que isso podia ser instrumentalização, nunca imaginou usar o Sea e por isso nunca se preocupou com o que ele podia pensar, estava tão claro pra ela que era amigos-amantes... O pior era que examinando com cuidado, a reclamação tinha todo fundamento porque era o que a Livi dava a entender: que só estava afim de sexo mesmo, sem maiores conseqüências. E agora que pensava nisso não podia deixar de se questionar a respeito do que o Sea realmente significava. Não podia largar o Jac, não queria abrir mão do outro. Fazer o que, meu-deus, fazer o que? Não se tratava de jogar, era tudo o que sabia e se sentia afogada só de imaginar a cara-de-choro Sea. Nesse dia mesmo teve de encarar uma péssima, porque ele tinha convidado pra o happie-hour da academia e a Livi foi obrigada a recusar pra estar ali, com o maridão: o termo aniversário-de-casamento trocou o sorriso dele por uma lágrimazinha bem pequenininha no cantinho do olho que cuidou de secar antes que rolasse, mas que foi o bastante pra afogar a alma da Livi, porque ele agora devia estar pensando que tinha muita razão sobre as intenções ruins dela e não tinha! Podia jurar que não tinha! Ele tinha que ser mais amigo e tentar entender...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Coelhinha, que carinha de brava é essa, meu amor? Toma mais champagne e vem dançar, olha o que tá tocando, sua música...” E ainda tinha que dar assistência pro Jac, que estava radiante, falando pra quem quisesse ouvir a Livi era especial, não-era-vulgar-como-as-outras... Não era mesmo, estaria certo sobre isso? A Billie nessa hora cantava tanto amor e mágoa, nada mais apropriado. O Jac oferecia a mão e um sorriso de cortesia que aconselhava a ir dançar em vez de choramingar pelos cantos do salão: “Vem, minha Josephine Baker dos trópicos, vem pra mim... Deixa pra lá isso que ce tá pensando e vem pra mim”. Certo, deixava sim... Deixava, só não sabia por quanto tempo... Mas deixava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-3281577130238331107?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/3281577130238331107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=3281577130238331107' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3281577130238331107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3281577130238331107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-28.html' title='Ato 28'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-6944255915506234936</id><published>2007-12-12T11:21:00.014-08:00</published><updated>2007-12-13T08:21:20.142-08:00</updated><title type='text'>Ato 29</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Está a Livi escolhendo no armário uma roupa pra sair, coisa sempre demorada de se fazer. Era que ela sempre tinha sido uma mocinha vaidosa, gostando de ser bem cuidadinha e sempre se esmerando em tratar a pele, o corpo e principalmente o cabelo, pra que sempre ficasse rebelde e esvoaçante, os cachinhos pretos e platinados apontando pra muitos lados e desnudando o pescoço. Ela nunca achou que a beleza era exclusivamente instrumento da atração sexual, pelo contrário, gostava de ser bonita só por prazer estético. Achava incômodo sair com vestidos leves e justinhos porque sempre ouvia comentários bem nojentos sobre seu andar ou seus peitos ou sua bunda, mas mais incômodo que isso era se privar da beleza do próprio corpo dentro dos modelinhos de sua preferência por causa de homem estúpido que não contém os próprios instintos.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas a coisa da beleza se tornou muito mais especial durante o tempo em que viveu com o Sea. Era que ele não era uma pessoa como as outras, com uma vida particular, não. Ele era uma obra de arte em ato e movimento, tudo com ele tinha um Q de fantástico e maravilhoso, tudo com sentidos múltiplos... Era personagem de si mesmo o tempo-todo, era perfomático o tempo-todo, era uma vida diante de câmeras ou sobre um palco... Todo, todo o tempo. Acordava e se maquiava logo depois de escovar os dentes, nunca tinha postura relaxada, nem tinha nas gavetas uma camiseta mais velha, dessas que a gente chama de roupa-de-ficar-em-casa. Mas o melhor mesmo era o apartamento dele, apezinho sala-banheiro-cozinha tornado em um legítimo cenário. Quase todas as paredes eram forradas pelos milhares de LP’s, todos com as capas aparentes; a única livre era coberta de vários quadros meio art nouveau. No chão, tapetes pretos muito grossos, porque como ele não tinha cadeiras mas um monte de puffs, o chão precisava ser confortável. Num dos cantos ficava a cama turca, separada por um biombo de papel translúcido. Mas o melhor era o teto, todo preto, com alguns trechos de poemas e letras de música pixados em prateado, poemas que muitas vezes a própria Livi tinha apresentado – exporadicamente ele mudava o teto todo. A iluminação era baixa e focada, feita toda por três lâmpadas, uma azul, uma vermelha, uma verdade; tinha também uma luz negra, mas era ligada em situações bem específicas. Os únicos móveis eram uma estante de livros, um piano pequeno revestido por retratos de antigas estrelas do cinema, araras pras roupas e dois raques, um pra vitrola e outro pro computador super moderninho e cheio-de-coisa.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Esse micro era assim: se a vida do Sea era o filme, o micro era o estúdio e isso-assim, literalmente falando: acontecia que ele participava de um tipo diferente de reality-show que estava disponível em um site; o Sea deixava uma webcam ligada, se filmava e mandava por email pro Marcos, que editava as imagens e as músicas pra depois jogar no ar. As pessoas pagavam um preço pequeno pelo por uma senha de acesso ao site e entravam quando quizessem, mas o que a deixava a Livi pasma era o número absurdamente alto de acessos: tinha gente pra-cacete que pirava em ver o Sea.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas aí era que morava a questão, porque não se tratava de ver o Sea, mas de acompanhar e interagir com um ser que se chamava Spaceboy, uma criatura muito sexy, muito fora do comum, muito intrigante, cujo rosto não se podia distinguir por causa dos jogos de luz e sombra e brilho da maquiagem, alguém de olhos fluorescentes e pele azul-brilhante que vivia num tipo de base espacial de observação de pessoas da terra, com as quais se relacionava (a Livi tinha sido uma). Ele escrevia reflexões sobre elas, – tinha um blog vinculado aos filminhos – reflexões de todo tipo, sociais, psicológicas, políticas ou só estéticas, uns ensaiozinhos despretensiosos.&lt;Br&gt; Tinha sempre um momento do dia em que ele teclava, de câmera ligada, com os internautas porque sendo o site uma coisa bem interativa, ele ouvia opiniões, aceitava sugestões e satisfazia a curiosidade ou o voyeurismo de quem estivesse online. Pois-é, as pessoas pediam pra ele fazer algumas coisas às vezes, coisas referentes a sexo, mas o Sea era um cara de bom-gosto e tratava de ser mais sugestivo que pornográfico, ele só insinuava.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Era aí que a questão da beleza da Livi entrava: tendo ido morar com o Sea ela acabou se tornando mais um personagem. E ao cabo de um tempo, nunca mais ela saiu do banho sem passar um creme que dava tom perolado pra pele, passou a se maquiar como ele, mesmo pra estar em casa e chegou até a se desfazer das roupas mais confortáveis... Era disso que lembrava agora que procurava e não achava uma blusa largada, perfeita pra malhar.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Então ele era assim, personagem e diretor e escritor e obra de si mesmo e ia fazendo da Livi uma coisa assim também, exposta ao público, como toda arte deve ser. E estava sendo divertido... Pelo menos por enquanto. Faziam cenas que ficavam muito bonitas depois de editadas, várias delas releituras de filmes ou videoclipes. Uma das preferidas da Livi era a releitura de uma cena erótica do filme 1984, que além de ter ficado com uma estética muito bem cuidada, deixou a Livi louquinha de desejo – ela nunca tinha se sentido tão à vontade em ser observada. Nesse site ela era outra pessoa também, era a Panther Princess e já tinha até alguns fãs.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Mas Panther Princess só fazia algumas poucas aparições na estação do Spaceboy e nunca falava ao vivo com ninguém. Acontecia que não era sempre que o olhar do outro servia como motor pra ela, não era sempre... Não mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-6944255915506234936?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/6944255915506234936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=6944255915506234936' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6944255915506234936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6944255915506234936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-29.html' title='Ato 29'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-1945188740721327214</id><published>2007-12-12T11:21:00.013-08:00</published><updated>2007-12-13T08:30:17.025-08:00</updated><title type='text'>Ato 30</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffccff;"&gt;Tava reclinado nos puffs da casa do Sea... Não, pera-í, reclinado não, jogado... E também casa não, cafofo!, um apartamentinho térreo num predinho horroroso, tudo pequeno, mal iluminado e muito úmido, todas as paredes cheias de coisas, um mau-gosto! Não se lembrava daquele lugar assim, a única vez que esteve ali já tinha anoitecido, tava tudo escuro e as lâmpadas não ajudavam em quase nada, não dava pra ver nada e nem quis, a presença o Sea foi um imperativo muito agradável.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas agora estava ali de novo (exercitando ironias contra si mesmo), desmanchado na sala dele, destrinchando maconha pra relaxar depois do trabalho e vendo o Sea fazer alguma arte esquisita. Era um quadro de textura, parecia a figura de uma pessoa mas não dava pra saber quem era. Tocava um CD de música viciosa e sombria, que fazia o peito se incomodar um pouco, uma letra bem mais baixa que os outros instrumentos que recitava desgraças e medos e outras coisas terríveis. O que era aquilo? “São as sujas lições do coração... Jake”. Certo, lições... E dava pra parar a aula agora? Ah, sim? Então por-favor... “Ce tá incomodado, Jake?”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Não responderia mas estava sim. Teve no meio da tarde uns gritos eletrizantes cortando as veias e o coração bombou fervente quando se lembrou do Sea e chegou à conclusão de que devia ligar, principalmente depois que o Cláudio perguntou a razão de estar tão tenso, até vermelho: “Tá nervosinho, João! Será que ce tá na seca?” Pois-é, tava sim, já tinha quinze dias que não beijava ninguém... “E você não tá afim de dar uma esticadinha depois daqui?” Ah!, queria, mas não com o Cláudio, que o Jac não tinha vocação pra amante de ninguém, ou era titular em linha de frente ou não era nada. Sacou o celular na hora e metralhou o Cláudio com uma ligação bem melada pro Sea e foi bom assim, ele era muito facinho, nem pensou pra dizer sim.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas agora já estava quase se arrependendo porque preferia ter marcado encontro em algum território neutro. Ali, no país-das-maravilhas, tava correndo um risco imenso: o de se irritar com o tanto ignorante de estímulos que a casinha proporcionava, nossa!, não dava pra descansar ali dentro, como foi que a Livi agüentou passar seis meses naquele lugar? E se ficasse com os nervos estourando, acabaria sendo grosseiro com o Sea e teria o alvará one-night-stand cassado. Uhn... Un-hun! Era melhor caprichar o tamanho do baseado! É assim... E um bom trago!... Ah, mas agora que a música não tocava mais e que milagrosamente o Sea tava silencioso, o fazia falta sons de vozes pra preencher alguma coisa por dentro. Tinha que puxar algum assunto, mas o que? O que, cacete!? Nem tinha muito o que falar com o Sea na verdade. Bom, podia falar do que mais chamava a atenção nele, o sotaque. Vinha de onde aquele sotaque?&lt;Br&gt; “De muitos lugares... Eu assimilo o jeito de falar de todo mundo que vive comigo” – não tirava os olhos do quadro, que pintava usando as mãos apenas; de pé, com postura reta, descalço, sem camisa; o quadro apoiado em duas araras sem roupas no meio da sala; o tapete enrolado de lado. Mas então, qual era língua nativa dele? “Não, nenhuma. Eu não sei falar a língua do lugar onde eu nasci”. E onde tinha nascido? “Na lua”. Não devia falar séria mas também não parecia que brincava. Na lua? Na lua mesmo? “Yeah, I was born in the dark side of the moon”. Certo, e tinha vindo parar na terra como? “Você não tá querendo saber disso, Jake, não precisa ser simpático, eu vou entender se você só estiver me agüentando pra poder me...” Não, nem continuasse. Se tinha ligado era porque queria vê-lo, então parasse com aquilo. Não gostava de falar da infância? “Gosto, claro que gosto. Eu nasci na lua, uma pinup espacial me trouxe no vão dos peitos, morei com ela num bordel da Tailândia e fui abusado sexualmente dos três até os cinco anos, mas até que foi bom, gostei. Depois eu cansei e larguei dela, fui até a Rússia mas parece que o comunismo tava causando muito por lá, daí eu fui pra Alemanha...” Tá-tá-tá-tá-tá! Já tinha dado! Já imaginava o final da historinha fantástica. O que não dava pra imaginar era essa postura que ele tava assumindo, mas que coisa mais foda!, por que não concedia a gentileza de uma conversa civilizada? Mas não, não dava pra perguntar isso ainda, não era o caso de por a perder mais que a paciência. Então respirava fundo, mas o ar faltava, sufocava o cheiro de tintas e tiner. Sofocava e fazia os olhos arderem. A sensibilidade aguçada pelo fumo fazia com que tudo parecesse mais agressivo e o Sea não colaborava, não parava de alisar a porra-do-quadro, não demonstrava o menor interesse, não parecia querer que o Jac estivesse ali a despeito do aparente ânimo no telefone. Estaria querendo o que? Respondesse por favor! “Queria te ver, tá duvidando por que? Tá carente?”. Esse era o tipo de frasezinha que fazia com que a saliva do Jac ficasse sólida e descesse pela traquéia enfiando agulhas por todos os lados. Carente? Carente? Não, tava só ficando enjoado do cheiro das tintas, devia ser isso, claro, só podia ser. “Ah, então tá bom. Dá mais um tempinho aí que a gente sai. Pode ser? É que eu tou precisando terminar isso aqui. Não quer brincar com os gatos? A Bues gostou de você...” Ah, mas era claro que havia gostado! Era só o que faltava, uma gata filha-da-puta pra se esfregar e encher de pelos o terno! Era só o que faltava! O Sea tinha mesmo um jeito bem particular de representar animosidades. O curioso era que havia nem vinte dias que ele tinha vindo com um papinho, chamando o Jac de artificioso, com banca de quem não gosta de joguinho... Não, não valia a pena se gastar falando disso. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Bom, mas e a porra-do-quadro? Tinha prazo de entrega? “Não, não tem. Eu é que quero terminar mesmo, já trabalhei demais nisso... I’m gettin’ tired...” Ah, sim... E de que se tratava, se pudesse saber? “Pode sim, é a Liv”. Livi, Li-vi... O nome dela ainda dava um repuxo na alma mas era no corpo que cobrava o preço da ausência, era na insônia, era na azia (e ainda deixava o Sea como espólio de guerra). O nome da Livi... Ele fez despertar o interesse do Jac pelo trabalho do Sea. Ia ver: uma forma de corpo feminino, toda azul e dourada, os braços e pernas nascendo da pedra, várias veias e nervos evidentes de esforço, parecia que tentava se arrancar da pedra... O corpo arqueado pra cima dava muita idéia de movimento, um movimento tenso de se ver, coisa sofrida, coisa de cabeça doente, coisa do Sea, né, queria-o-que! O que na Livi se parecia com aquilo? “Ué?, como assim? A Liv! Forte, saindo da terra... Dourada, bem dourada...” Era assim que ele via a Olívia? Forte e reluzindo a ouro? Pro Jac ela era só evasiva mesmo... E preta! Nada de dourada não! “É que você nunca olhou pra ela com cuidado. Ela tem brilho...” Olhasse, com o azul o Jac concordava porque a Livi era assim mesmo, black and blue, meio Loui Armstrong, meio triste... Mas dourado nem fodendo! E nunca que toda aquela força representava ela, o talento dela era fugir e não se libertar. “Nossa, mas que visão que você tem dela! Que coisa mais magoada... Fugir e se libertar é a mesma coisa, é o mesmo desejo...” Não era a mesma coisa poruqe não implicavam na mesma atitude, a questão era a atitude e não o sentimento. “Ih... Se você faz mais questão de atitude que de sentimento então não tem nem como a gente continuar essa conversa... Porque eu nunca vi nada na Liv que não fosse puro sentimento” Essa era outra coisa, o Jac nem achava que a Livi era apática mesmo, não tinha muito sentimento pelas pessoas, achava que ela lia demais e ouvia música demais e via filmes e peças demais era pra conseguir sentir alguma coisa, porque ela não tinha sentimento espontâneo, não tinha, tudo era tédio e mágoa e tédio de novo. Era até um charme nela, a gente acabava seduzido pelo olhar cinzento dela... “Ela tem olhos azuis...” Hahahaha! Agora o Jac tinha entendido a relação do Sea com a Livi: ele nunca tinha estado com ela de-verdade! Era claro que a Livi tinha olhos cinza, cinza mesmo, cor de nuvem quando chove, olhos muito grandes e cinzas, era o que mais chamava atenção na cara dela. “É o teu mundo que é cinza... Jake... Deve ser de tanto que ce trabalha...” Ah, bom! Alguém precisava trabalhar naquele mundo, né!? Mas não, não ia falar, ia deixá-lo curtir o prazer fake de ter fechado bestamente uma argumentação. Não queria se lembrar da Livi... Mas agora já se tinha lembrado e uma imagem dela evocava outra até parar nos comentários que ela fazia sobre o Sea, que não era simples lidar com ele, que tinha o humor flutuante, que era uma figura meio picaresca, mas que era fácil a gente gostar dele. Picaresco ele era, flutuante também, mas fácil gostar dele, por que? Pessoinha pedante, arrogante... E nem era tão bonito assim, precisava se limpar bem da maquiagem pra ter um rosto palatável, mas ele sempre andava maquiado, uma pintura preta em redor dos olhos e alguma outra coisa que tirava a cor da boca, parecia morto-vivo, ainda mais com umas nojentas lentes brancas que insistia em usar. Olhava pra ele agora, enquanto prendia a respiração pra não tossir a fumaça do baseado. Uma gata preta de olhos muito claros se raspava pelas pernas do terno risca-de-giz do Jac e quando parecia que se afastava, olhava pra trás, tornava a se enroscar, as patinhas delicadas pisavam o sapato. Olhava fixamente o Jac agora. Pelo menos os pelos que soltava eram escuros e não apareceriam muito. Hey, gatinho! Gatinho bonitinho. Gostava do Jac, era? “Então, é a Blues... Você deve ter sorte, ela não gosta de ninguém. Até de mim ela vive fugindo”. A simpatia do Jac pela gata aumentou por isso, aumentou bastante. Era bonitinha sim, pequena, meneava a cabecinha tão delicada, ronronava baixinho, olhava esperando carinho mas não pulava no colo pra se impor, ficava sempre esperando o Jac tomar a iniciativa. O Jac nunca gostou muito de gatos, achava uns bichos traiçoeiros que não-tão-nem-aí pros donos e só aceitam carinho quando querem, voluntariosos demais pra bichos de estimação. Mas aquela não, aquela, quando Jac deu sinal de querer acarinhar, ela deixou... Deixou sim, que bonitinha, parecia uma coelhinha mexendo o focinho... Fofa! O Sea tinha quantos gatos naquele apezinho? “Os gatos não são meus, eu é que sou o humano deles... E são três, duas fêmeas e um macho, pra eles poderem fazer ménage quando quiserem... Mas eles são livres, não ficam aqui o dia todo, saem e vêm quando tão-afim”. Mas não pegavam doença saindo? E a despesa com veterinário? “É o preço que a gente paga por amar a liberdade”. O Sea estava se afastando pra contemplar o quadro agora, parecia ter aprontado tudo. Tinha o rosto menos tenso agora, até com um sorrisinho bem pequeno de satisfação. Lambia os lábios, apoiava as mãos nos joelhos pra mudar o ponto de vista, apertava os olhos pra ver melhor qualquer detalhe, voltava a se aprumar. Isso era bonito: o modo com que se movia, sempre devagar e malemolente, sempre calculado, sempre sensual. Era isso o que fazia daquela criatura incômoda uma pessoa tão atraente, o jeito de se mover: o Sea não tinha graça se estava inerte, mas ele quase nunca estava. O Jac poderia perder horas olhando pro Sea e o curioso era que só pensava nisso quando o via, porque se estavam separados só sabia se perguntar porque diabos ainda tinha o celular dele salvo na memória do Palm, pensava em apagar e deixava pra depois. Mas agora estavam juntos e agora o Sea andava pra lá e pra cá e quebrava as munhecas discretamente enquanto andava e deitava a cabeça pra cá ou pra lá e olhava de viés e rodava o pé esquerdo enquanto estava parado... Era branquinho... Usava jeans apertadinhos... Os cabelos muito pretos caíam na frente dos olhos... Bom de ver! E devia gostar de ser visto porque se alinhou mais quando percebeu que o Jac não parava de se admirar com ele. Se alinhou e abriu os lábios devagarinho... “O que é a liberdade pra você, Jake?” Ahhhh!!! Maldita pergunta inoportuna, porque não perguntou qualquer coisa de sexo?! Não, mas tudo bem! Tudo bem, responder o que? Alguma cantada pra quebrar-o-gelo: “Liberdade agora é poder te beijar porque eu tou com vontade” – e chegava perto, mas sem encostar porque o Sea tinha tinta nos braços e nas mãos e no peito e tudo mais, o que era um empecilho chato ao beijo não realizado que guardava nos lábios. E o Sea se ria: “É... Pode ser... Mas nesse contexto eu acho que você seria mais livre sem o peso de um Armani nas costas, né?” Ria. Ria... Certo, era uma observação espirituosa. Mas que se-fodesse com o papinho de liberdade: “O terno não tá me agrilhoando... É só tirar... Quer que eu tire? Posso tirar, a gente fica sem roupa. O problema é que eu tou pirando com esse cheiro de tinta, queria te levar daqui... Ce não quer tomar um banho?”.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas nada, o Sea ria... ria... ria... Por que tinha sempre que ser tão cáustico, tão pouco agradável? Mas que-saco!, por que não simplificar as coisas? Uma pena, porque coisas assim faziam com que a previsão de segurança da alma indicasse que as areias do tempo deles teriam pra cair um período de motel, nunca uma noite toda, nunca um sono de paz.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-1945188740721327214?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/1945188740721327214/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=1945188740721327214' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1945188740721327214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1945188740721327214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-30.html' title='Ato 30'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-1467300477067215121</id><published>2007-12-12T11:21:00.012-08:00</published><updated>2007-12-13T08:31:15.030-08:00</updated><title type='text'>Ato 31</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Tava lá o Jac, aproveitando o sol da manhã, pigarreando pelo baseado que acabou de apagar, contemplativo que-só-ele, divagando: gente se engana. Mesmo mantendo os olhos abertos todo o tempo a gente se engana. Mesmo atentando pra cada detalhe a gente se engana. Era por isso que as estatísticas têm margens de erros, né? Parecia que sim. E o Jac precisava aumentar as margens de erros de alguns de seus cálculos; quando se tratava de relações inter-pessoais, precisava trabalhar com margens de erros um tanto quanto largas, por causa de um fator determinante em qualquer equação que envolva gente que o Jac gosta de chamar de índice de indeterminação. Esse índice é dado pelo nível de previsibilidade de uma pessoa: todo mundo é imprevisível em certa medida, mas sempre dá pra gente saber o que esperar de alguém em contrapartida; subtraindo as previsões erradas das certas e tirando porcentagem a gente extrai o número do índice.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O índice de indeterminação do Siegfried era grande, muito grande, o que prejudicava um pouco as possibilidades de desenhar prognósticos, de maneira que o Jac precisava refazer os cálculos referentes a ele esporadicamente. Segundo os mais recentes, as chances de o Sieg e o Jac serem felizes juntos eram de aproximadamente 13 %, com margem de erro de 10 pontos percentuais pra mais ou pra menos; os dados da equação levaram em consideração o número de meses que passaram se relacionando desde que a Livi mudou pra Argentina, as crises de ciúmes que o Sieg insistia em provocar, a necessidade de afirmação do relacionamento que o Sieg insistia em cobrar, as noites em que o Sieg insistia em voltar da balada direto pra casa do Jac (e chagar completamente bêbado e drogado e sem falar coisa-com-coisa), os anti-depressivos de que o Sieg precisava mas insistia em não tomar, as indiscrições que o Sieg insistia em cometer, as mentiras e historinhas absurdas que o Sieg insistia em contar, os amiguinhos simpáticos com quem o Sieg insistia em trepar, entre outras coisas – pois-é, o Sieg tinha umas insistências bem irritantes! Mas além disso ainda tinha o número de vezes que riam juntos de qualquer coisa, que se divertiam dançando, que conversavam sobre coisas interessantes, que enlouqueciam um ao outro na cama, que falavam em crianças (planos que envolviam crianças eram na cabeça-dura do Jac o milagre da água que brota da terra!). Pra cada um desses dados o Jac atribuía um peso distinto; a margem de erro era dada pelo índice de indeterminação do sujeito do momento. Então, as equações do Sieg resultarem num número tão baixo significava que ele era uma pessoa com um potencial pra magoar muito superior ao pra fazer o Jac feliz. Mas a grande verdade era que não precisava de cálculo nenhum pra saber disso, era só ser um pouquinho pragmático.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Nesse minuto o Jac estava sentado na cadeira de balanço da varanda do quarto, a porta descortinada atrás dava vista pro sono de morte do Sieg. Queria ver o sorriso que ele sempre exibia enquanto dormia mas não dava, os óculos pareciam ter as lentes embaçadas, ele tirou e esfregou na blusa pra limpar, experimentou de novo mas nada! Devia estar fraco, já era meio velho mesmo. O Sieg de-longe, dormindo de-ladinho, o cabelo espalhado, o lençol cobrindo o peito, era quase uma mocinha linda e frágil à má vista do Jac. Mas a gente se engana, como se engana! Porque era na fragilidade que conseguia as coisas que queria quase todas, e o Jac não sabia mais se era mesmo fragilidade ou se era dissimulação ou ainda se a fragilidade dele era sua fortaleza – quanto a isso o Jac tinha uma teoria: a de que o Sieg não tomava os remédios pra se manter assim, frágil, mas deixa-quieto isso por ora. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A conquista mais recente do sagaz garoto-donzela tinha sido simplesmente o estatuto de namorado oficial, coisa que o Jac tinha jurado a si mesmo que jamais aconteceria (vê-lá se João Carlos era homem de namorar um desajustado-galinha-drogado!). Os cálculos de probabilidades já tinham se mostrado totalmente contra! Mas o Sieg conseguiu. E mereceu! Foi assim: ele tinha insistido, insistido muito, exagerado na insistência inclusive, pra que fossem juntos à Parada do Orgulho Gay. Mas o Jac não gostava dessas coisas, não se identificava, não tinha orgulho de ser gay e nem vergonha: era gay e pronto. Além do mais, nunca achou que a Parada fosse uma coisa séria, uma verdadeira reivindicação por direitos, achava que era uma balada pra galera sair do armário, tipo uma micareta. Mas o Sieg dizia que não era questão de ser sério ou não, era de se posicionar, de a gente não se deixar marginalizar, que mesmo sendo festa era bom porque não seria festa em zona de tolerância, mas na parte nobre da cidade e coisa e tal, discursinhos!... E o Jac tentou deixar-pra-lá esse papo, mas não deu. Não deu não, a insistência do Sieg transcendeu toda e qualquer chance que o Jac teve pra se preservar, ultrapassou pro lado que não devia, peticionou direto ao supremo tribunal do coração pulando todas as hierarquias racionais possíveis – malandrinho! Depois de todos os pedidos e todos os não-nem-fodendo que o Sieg recebeu do Jac a respeito da parada, chegou uma hora que respondeu: “Mas nem-fodendo mesmo, amor”. Depois passou a semana sem ligar, quando o Jac ligava ele falava educadinho mas não marcava encontro nem aparecia de-repente nem nada, ai-meu-deus, que saudade! Uma falta ardida desse filho-da-puta ia deixando o Jac com gastrite e não teve jeito, pra bem da própria saúde ligava e chamava pra um cinema na sexta, podiam jantar depois e dormir juntos, como vinham fazendo já havia alguns meses. Daí aceitou, mas todo meio distante, bancando amiguinho, não quis saber de nenhum beijo durante o filme, não pôs a mão na perna do Jac enquanto ele dirigia como sempre fazia, não se insinuou... Nossa, e não quis ir pra casa do Jac depois. Por que aquilo tudo? “Ah, Jake, olha... Eu tava pensando que era melhor a gente ser só amigo... se der...” Não, não dava! Tudo isso era por que? “Você é muito intransigente, sabe... Difícil conviver com você... Porra, você nunca cede em nada... Mas eu nem quero continuar isso que seria discutir-a-relação... E a gente não tem uma relação, né? A gente se encontra depois do anoitecer pra se comer... Mas eu não quero mais, eu tou me sentindo muito desmoralizado, tou com a auto-estima baixa, tá foda, cara!...” E o papo foi se dirigindo pra um caminho que conduzia a a gente ter de dormir sozinho, mas o Jac sentiu que se fosse pra casa sem o Sieg passaria mais uma noite em claro com o estômago fritando, um milhão de demônios gritando no ouvido um monte de injúrias e todos teriam a voz do Sieg. Bad-trip do-caralho! Não, o que era que ele tava querendo afinal, fosse mais pragmático. Tava criando caso por causa da Parada? Ah!, era mesmo??? Não, devia ter outra coisa... Era por isso??? Mas por que essa porra era tão importante pra ele? “Não interessa! O que importa é o seguinte: como você trata uma coisa que é importante pra mim. Mas se não rolar, tudo-bem, a gente dá-um-tempo. Vai fazer ou não? É que... É que eu tenho uma coisa pra você mas só vou te dar se você quiser e só pode ser lá... E só pode ser sua também, se não for, não é de mais ninguém”. O que era? Só saberia se fosse, na droga da Parada, claro. Tudo bem então, iria. E foi.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Naquele domingo, foi logo tomando uma dose de uísque pra criar coragem de caminhar com outro homem no meio de três milhões de gays, correndo o risco de algum cliente ou o que o valesse ver e ter historinhas pra contar. Duas, duas doses, duas e meia, porque o Sieg chegou na casa do Jac soltando “We can be heroes” no som e a música causou uma expectativa maior ainda. Já na avenida a tensão foi passando e o Jac, que ia andando de cabeça meio baixa, via o Sieg confiante em seu andar de modelo em passarela e tirando foto de todo mundo que fazia caras-e-bocas. Ele vinha e ia e vinha de novo, dançava, era forte, tinha cara de certeza, imagem de liberdade. Quando o povo se apertou, ele começou a rir muito, estava alegre e vivo como nunca, estava lindo como nunca, uma beleza que contagiava e acabava com o mau-humor de qualquer um. Toda irreverência que o Jac nunca pôde ter, toda graça com que o Jac nunca pôde conviver, todo homoerotismo que o Jac nunca pôde transparecer. Era impossível não se apaixonar. E o que mais a fazer? Se-apaixonar era tudo! (O Fall-in-love seria até uma expressão mais adequada, porque foi como o Jac sentiu: uma queda longa nas profundezas abissais da paixão).&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Já era noite quando o Jac se lembrou de que o Sieg queria dar qualquer coisa e mencionou o assunto já um pouco embriagado. Então o Sieg parou no meio do canteiro central da Rua da Consolação, se ajoelhou na frente do Jac e segurou uma das mãos, todo solene, quase um cavaleiro: “Eu tou pedindo a sua mão, Jake. Eu quero você pra meu namorado, de outro jeito não... De verdade”. Ih-fodeu! Essas coisas colocavam a gente comovido como o diabo, nem tinha como recusar. Queria, queria o Sieg sim, pra namorar, pra ficar junto, pra tudo, pra sempre. E o Sieg colocou uma concha de madrepérola na mão do Jac, disse que era o arco-iris do céu dentro de um pedaço do mar, pra que se lembrassem de que o mundo que iam construindo não podia acabar numa tempestade. E o Jac deixou derramar água dos olhos, totalmente secos desde a morte do velho pai.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O índice de indeterminação do Siegfried (que nunca mais foi Sea depois desse dia) cresceu consideravelmente, de forma a aumentar a margem de erro da equação relacional deles de dez pra quarenta pontos percentuais, pra mais ou pra menos... Mas agora o Jac preferia pensar no pra-mais e ver a margem de erro como uma coisa quase mágica, que podia inverter subitamente o sentido de qualquer equação. Como a gente se engana nessa vida, né?! Uma semana atrás o Jac ficaria puto-da-vida se o Sieg aparecesse no escritório pra uma visitinha fora de hora. Agora, molhando as mãos no suor gelado do copo de suco, pensava que a luz do sol incidindo sobre a pele dele o deixa transparente e avermelhado. E que nada é mais arrebatador do que o sol se pondo no mar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-1467300477067215121?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/1467300477067215121/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=1467300477067215121' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1467300477067215121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1467300477067215121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-31.html' title='Ato 31'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-935668600646962764</id><published>2007-12-12T11:21:00.011-08:00</published><updated>2007-12-13T08:31:42.569-08:00</updated><title type='text'>Ato 32</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffccff;"&gt;Todos os dias, deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas bonitas palavras. Era arte, o que o a Livi sempre viveu intimamente e que o Sea saía bradando a qualquer platéia que o quisesse ouvir (mesmo sem gostar muito do Goeth). E o mundo do Sea era o palco... E a arte do Sea era a perfórmance, uma coisa que junta de tudo, poesia e música e pintura e também interpretação e dança, principalmente dança –  a Livi amava dançar e quem dançava. Quando ele veio perguntar se queria começar a ensaiar um número com ele porque ela já tinha progredido muito nas aulas, nem pensou pra responder, nem esperou que ele terminasse de falar, nada a deixaria mais contente naquele momento da vida, nem a recuperação do pai, coisa em que a Livi não acreditava mais apesar dos verdes sonhos a respeito. Mas agora não queria nem pensar no pai porque fatalmente se lembraria do Jac em seguida e pensar em Jac era pensar em trabalho e...ah! À puta-que-o-pariu com o trabalho. Ultimamente a Livi tinha se determinado a inverter completamente a idéia da mais-valia, dar um jeito de receber muito mais do que seu trabalho valia, em poucas palavras, bancar a malandrinha no trabalho. Ia chegando atrasada, digitava sem atenção enquanto se comunicava com deus-e-o-mundo pela net, não se preocupava em revisar o que entregava... E nem por desaforo, mas francamente... Ah!, francamente! O Jac sabia que ela detestava aquele trabalho, sabia que ela tava perdendo um tempo bom pra estudar ou pra ensaiar, mas mesmo assim tinha que fazer pose de certinho pros sócios em vez de demitir a Livi de uma vez! Ele sempre tinha tanto bom-senso, não se ligava nisso por que? Que merda, a Livi não queria ter pensado nisso e já estava pensando! Ah-meu!, que se fodesse, que se fodesse mil vezes!&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas deixava-pra-lá que hoje era noite de quebradeira, ia se acabar de beber, não queria nem saber de nada responsável ou sério ou oficial. E tava agora no camarim teatro com o Sea e a Naomi e o outro carinha... Ela nunca se lembrava do nome dele, então chamava só de Moço. Se enfeitavam, se maquiavam de jeitos divertidos, cheiravam de pó, se vestiam, se despiam e vestiam de novo, bebiam litros de cerveja weiss. E riam, riam muito, riam freneticamente, era muito engraçado o Moço usando um dos vestidos do Sea e mais ainda a Naomi de Chaplin. O Sea já caía bem em qualquer coisa que usasse, podia ser homem ou mulher ou velho ou novo, mas gesticulando daquele jeito, fazia rir também. Nossa!, desde o primeiro ano de faculdade que a Livi não dava tanta risada inconseqüente – pelo menos não com gente trocando de roupa e dando-uns-tiros... Tava se sentindo uma moleca de novo, que nem quando...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Liiiiiiiiiíviaaaa! Se você não falar em que tá viajando a gente vai te jogar peladinha na 13 de maio, Liviááá! Tell us!!! Don’t leave us, Liv... Hahahahaha!” Era o Sea querendo holofotes, ele sempre queria, sempre tinha ciúmes da atenção dela, não gostava de dividir a Livi com as divagações. Mas nessas horas ela sempre fazia a mesma coisa, dizia que tinha pensamentos aleatórios. “Aleatório de-cu-é-rola! Fala logo, olha só, o Júlio e eu vamos segurar você e a Noemi arranca a sua roupa, depois, vai correr pelada pra gente ver” – abria muito os olhos pra falar e ria e tinha tom de voz diferente do usual. E as brincadeiras continuavam, era agora o Sea que usava vestido, a Naomi encaixava uma peruca de Cleópatra da cabeça acelerada da Livi, que nessas horas considerava que o Jac ainda nem devia ter dado por falta dela em casa de tão metido com o micro que devia estar. Ao mesmo tempo, achava que o Sea parecia às vezes muito novo e outras vezes muito velho e se lembrou de que nunca soube a idade dele nem bem as coisas que ele tinha vivido, ele nunca dizia nada e isso pareceu estranho. No batente da porta de entrada da casa estava escrito Kindergarten, talvez ele tivesse doze anos até hoje! A Noemi é que tava estranha, massageando os ombros da Livi, falando no pé-d’ouvido, será que ela tava dando-em-cima? Não, magina!, isso era raciocínio de homem, só porque ela tava se desmanchando não queria dizer que... Ah, e-daí se tivesse? Até que seria engraçado dar uma puladinha-de-cerca com quem menos o Jac imaginaria, nossa!, ele nem teria o que falar, haha, seria engraçado. O chato era que não sentia muito tesão em meninas e por causa disso a brincadeira seria menos divertida, seria uma coisa mais pro se mostrar... É, não era afim de meninas não...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Olívia Celeste, eu não acredito que você prefere falar sozinha do que com a gente” – era a Naomi, ruivíssimamente indignada – “De quem que se não é afim, hein?, tá falando aí...” Caramba, nem tinha reparado que tava falando mesmo, achava que tava só pensando. Desculpasse, tava bem? Mas tarde demais, o Sea tinha ouvido a conversa e já vinha encher-o-saco, claro! Ele nunca deixava a Livi quieta (mas ela até que gostava, fazia com que se sentisse especial). Sentou no chão, ao lado dela, passou o braço pela nuca, chegou bem juntinho com o rosto: “Fala, você tava autista, baby? Não? Não tava?” – os lábios tremiam um pouco enquanto ele falava e o sorriso era cada vez mais rasgado – “Fala pra gente, ce não é afim de quem, hein? De mim?”. Não era isso, nada disso! Tava só pensando que não gostava de mulher mas nem sabia... “Certo, e isso quer dizer que você é afim de mim?” Hahahahaha! Muito presunçoso o mocinho! O Sea esticou o braço na direção do Moço: “Ju, vem cá e estica mais quatro carreiras aí que a Livi tá precisando do soro da verdade... Ou melhor, do pó de pirlimpimpim pra gente ter um pensamento feliz e ir voando pra Terra do Nunca... Isso... Tá bom aí, cara, quer matar a gente? Hahahahaha!” Certo, última carreira, porque a Livi não agüentava mais aquela porra, tava dando a maior rinite! E devia ter anfetamina na mistura porque a Livi tava com umas sensações de calor estranhas... Opa, mas carreirinha assim bem-feitinha a gente até admira, hein! Enrolou o canudinho, aspirou, sentiu a narina ardendo e amortecendo... Úi!, uma tremidinha no queixo, uma taquicardia boa, cacete!, quanto anos fazia que não cheirava! Dali a pouco vinha a sinceridade de que o Sea tinha falado e uma afetividade muito espontânea e urgente... Ah, coisa de moleque descobrindo a vida, né?!&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Vai Livi...” Na-não, o Sea que limpasse a lousa antes de continuarem e desse mais cerveja porque tava sequinha de sede. Ah!, agora sim! Falasse. “Então, fala aí, vai” – num super-tom confidencial, meio baixinho, pra assuntos ultra-secretos, enquanto o Moço (que era o Júlio, agora lembrava) tocava Flores Astrais no violão pra ruiva cantar – “Fala pra mim, vai, mas fala mesmo, sem conversinha. Ce daria uns cato comigo, né? Ainda mais que eu tou todo lindo de vestido, uma dama! Ah!, daria, daria sim, olha a cara que se fez... Fala!” Vix... Perguntinha capciosa! Cato assim... como-quem-não-quer-nada, só uma pegadinha pra saber como é que é, assim, bem de leve mesmo, assim... – o Sea se rasgava mostrando os dentes, abria os imensos olhos que quase engoliam a Livi, acompanhava o que ela dizia com meneio de cabeça – ...desse jeito, uma vezinha, umazinha só... É, até que não seria mal não... Um medo de dizer alguma coisa que restasse pra além daquele teatro, nossa-não! Tinha que ser tudo só por hoje, com validade expirando dali a pouco de preferência. Mas era medo bobo, porque o Sea a olhava nos olhos e segurava as mãos tão aberto, fazendo um carinho insinuativo mas lúdico. “Olha, Livi, vou te falar que você é muito linda e muito gostosa e um tesãozinho de gatinha e é mó-desperdício ser tão mal-comida pelo teu marido-viado e... Olha, eu juro que a gente dava umazinha bem-gostoso lá no palco agora mesmo if I could... you know... get it up... Quer dizer, eu tou meio brochado, sabe, esse é que é o problema, depois de todo padê que eu cheirei o meu não sobe nem com macumba, não adianta... Mas se ce quiser a gente pode dar uma brincadinha, numa-boa, assim, só pra você relaxar...” Não-obrigada! Não precisava não, que não tava tão necessitada assim ainda. Se olhavam e sorriam e sorriam mais ainda e começavam a gargalhar e tombavam de lado e não conseguiam parar de rir, boca babando, olhos lacrimejando, falta de ar e a barriga estourando. Ah!, meu-deus! Não pararam de rir por um tempo e quando finalmente conseguiram, o Sea foi pegar a garrafa de cerveja e quando foi virar na boca, se desequilibrou e entornou no próprio vestido e na Livi. Quase se acabaram de rir novamente.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A noite acabou no quase-dia. E o riso? Sabe quando um cavalo tá correndo muito e o cavaleiro puxa o freio com força demais, de modo que o cavalo empina de-repente e começa a babar sem saber o que ouve? Foi como a Livi sentiu quando chegou no quarto e encontrou o Jac acordado, com um livro aberto no colo e os olhos, dois buracos imensos no centro de globos vermelhos. “Tá cedo, moça! Não quis esperar amanhecer pra vir? Olha o perigo de se andar por aí a essas horas... Porque é claro que os seus amiguinhos não te trouxeram de carro, né? É lógico que não, não ouvi barulho nenhum! Aliás, eles tiveram o bom-senso de te trazer? Bom, esquece porque o problema não é meu. O que é problema meu é a droga do trabalho que você anda fazendo. Você acredita que eu fiquei até as três da manhã rescrevendo aquelas merdas que você me entregou? Olívia, o que-que ce tá pensando da vida, hein? Ce não presta atenção em mais nada! Deixa te falar umas coisas sobre a vida, mocinha...”&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Pra imenso azar a Livi tinha consumido muita cocaína pra conseguir dormir, então não teve jeito, teve que ouvir o cara falando-falando-falando por mais de duas horas, nem com ela no banho o mala parou de falar.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Nota de algum alterego da sociedade:&lt;/strong&gt; A citação do começo foi inspiração vinda do blog Caos (link na barra ao lado) e ensejou os escritos do dia.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-935668600646962764?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/935668600646962764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=935668600646962764' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/935668600646962764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/935668600646962764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-32.html' title='Ato 32'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7260767778356154433</id><published>2007-12-12T11:21:00.010-08:00</published><updated>2007-12-13T08:32:11.680-08:00</updated><title type='text'>Ato 33: sábado de manhã - parte 1</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt; “Hello!”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;_Alô! Passa pra Livi!&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Take it easy, Jake! She’s sleepy…”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;_Sea, ce vai passar pra ela agora!&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Escuta, se você não escutar vai ser pior pra você! Escuta, tá?... Tá mais calmo?”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;_O que é, caralho? Onde é que ces tão? Cadê a Livi?&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“O celular vai acabar a bateria. Você tem Skype?”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;_Tenho. Mas não vai precisar, você vai me dizer onde ces tão e eu vou até aí agora.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Jake, me adiciona no Skype se não, não vai dar. Anota aí...”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;E vai o Jac pra o escritório, baseado na boca e enchente na alma, abrir o Skype, sabendo de antemão que se aborreceria com o que quer que ouvisse. Adicionou o endereço e viu a cara do Sea muito séria aparecendo, a imagem com pouca definição o tornava mais pálido e magro e com olhos mais placos. A voz era baixa, suave, nem de homem nem de mulher, uma calma-afetação: “Hi! Me desculpa por isso, eu não queria que nada assim acontecesse...” Desculpava o-caralho. Cadê a Livi? “Ela tá dormindo. É, tá dormindo. E eu não vou acordar agora”. Onde era que tavam? “Em Guarapiranga, é zona sul aqui, pertinho da represa, minha casa de verdade é aqui...” Que se fodesse onde era a casa dele, queria só a mulher de volta. Ia dar o endereço ou não? “Não Jake, so-sorry, não vai dar não, deixa ela em paz”. Mas deixar em paz o que, caralho? Era a mulher dele! “Coincidência, Jake, ela minha mulher também. E ce tá sabendo, não vem me dizer que não tá!”.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Jac teve um acesso de tosse violento, saiu da frente do computador, quase caiu no chão, demorou pra recuperar o fôlego, sentiu uma cãibra forte no peito e o estômago revirando, respirou fundo e devagar pra se restabelecer e retomar a conversa. Quando olhou pra tela de novo, o Sea tinha a cabeça baixa apoiada na mão, não parecia muito satisfeito com o resultado da notícia e o Jac teria acreditado nisso se não se lembrasse de que o Sea era um verdadeiro ator. Dissesse uma coisa, ele trepava com a Livi uma dúzia de vezes e já achava que ela era sua mulher por que? “Olha, cara, não-é-por-nada, mas eu acho que nunca tive que pagar pra ter ela comigo, se ela me deu foi porque quis e isso faz a minha relação com ela ser mais legítima que o papel que vocês assinaram... Mas sei lá, é questão de ponto de vista...”. As cãibras no peito aumentavam e a ira que aferventava todas as células dizia que a dor era da verdade. E a insegurança, coisa que o Jac sempre recalcou e rebocou na parede de pedra mais recôndita da alma, ela residia justamente nesse campo: o de Livi ter se casado sem o menor tesão, não importando sentimento que construíram depois. Mas apesar de todo esse peso, falava só isso: que o Sea por-favor tivesse o bom-senso de dar o endereço pra ele pegar a Olívia naquela hora, por-favor! “Jake, ela tá aqui porque quis. Você vai vir aqui, vai acordar ela? Vai puxar ela pelos cabelos e levar pra sua caverna? Vai dar nela? Vai ter uma conversa séria e definitiva aqui mesmo, na minha casa? Me fala, o que-que ce vai fazer? She’s not in chains... Think about it”.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;De fato, sendo razoável qualquer um admitiria... Pois-é, tinha horas na vida em que ser razoável só atrapalhava e essa era uma. Mas fosse como fosse, por mais que o peito ardesse, não podia desconsiderar, se ela tava em plenas nove horas da manhã dormindo na casa dele, era porque queria sim. E daí não tinha mesmo nada racional a fazer – nossa!, como era forte o fumo! E olha que nem tava de jejum! –, se ela tava exercitando a livre vontade, tinha que agüentar quietinho. Quando ela voltasse, podia ver o que fazer. Podia pedir o divórcio mas não ia, não ia porque sairia perdendo muito mais do que ela pondo fim no casamento em menos de três anos, fracasso declarado na tentativa de ser hetero, pra deixar todo mundo passado... Não, tinha que ser outra coisa... Podia judiar dela de algum jeito, descontar no trabalho... Não, muito leve! Ter conversinha-séria também não ia adiantar... Apelar pra compaixão era desprezível... Vix! Que sinuca-de-bico!&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Jake! Fala comigo!” – mas que voz irritante!!!&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Sim, o maldito ainda tava lá, tava até esquecendo! Tinha que responder... mas não tinha o que responder porque era verdade, tudo o que o Sea tinha dito era verdade mesmo, poderia preparar um discurso pra inverter o jogo mas seria blábláblá puro, retórica de advogado pra ganhar discussão, na prática seria gastar latim à toa. Restava só saber quando ela voltava.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Segunda, segunda ela volta, vai direto trabalhar, tá?!” Segunda porra-nenhuma que ainda era sábado! Ela voltava hoje mesmo! “Jake, pára, cacete!, deixa de monopolizar a menina, ela gosta de mim, ela quer ficar comigo, deixa só agora. E outra, você sabe tão bem quanto eu que ela não vai te largar, ela vai voltar pra casa. Tenta ser menos possessivo porque hoje ela não vai voltar”. Daí o João Carlos já não sabia se ria ou chorava com o inusitado da situação, que de tão absurda já se tornava cômica. Deixar a esposa passar o fim-de com o outro era muita modernidade pra cabeça careta dele, ah!, era com-certeza. Ficou vendo a cara do Sea, que olhava pra câmera pra dar a impressão de que estava bem ali na frente – que habilidoso! Falava a coisa certa o tempo todo, né?! Conhecia bem a Livi... e o Jac por tabela, claro! Fazia tudo muito bem feito, muito premeditado, com uma precisão tamanha!, escolhia todos os gestos, todas as palavras e silêncios, chegava a ser viciante ver aquela dança de intenções, até merecia levar a mulher por causa disso, ao vencedor as batatas, né?! Ah-meu-deus!, o ciúmes tava até se relativizando, se tornando só um desejo morno por uma vingancinha, uma revanche no jogo (porque era claro que se tratava de um jogo, só podia ser!)... Uhn... Já que a Livi estaria longe, era o caso de arranjar alguém pra ir pra cama, só pra lustrar o ego que nessa altura já andava bem arranhado. Mais tarde podia pensar em alguma retaliação contra os dois... Ou só contra ela por ter deixado isso acontecer (ele tinha todo o direito de batalhar o que queria)... Melhor ainda, podia usar o Sea pra retaliar, ele podia ajudar sem nem perceber e o efeito seria bem mais devastador... Há-há-há! Tava bem então, o Sea podia ficar com ela hoje e amanhã, mas tinha condições. “Okay, it’s faire. So what do you want?” Pra começo, ela voltava no domingo ao cair da noite inapelavelmente. O Sea sorriu só com um dos lados do rosto, artificioso pra-caralho: “Yes, sir... What more can I say?”. Certo... Bom menino, era assim que ele gostava! Tinha mais coisa, queria conversar na segunda. “O que ces fizerem na segunda não me interessa, Jake, com-todo-respeito...” Não, não era com a Livi, era com ele-Sea mesmo, queria encontrar com ele. E prometia que não lhe enfiaria a mão na cara, muito embora o tesão fosse esse. Queria falar e iria e nem adiantava recusar, isso também não era negociável, se o Sea desaparecesse o Jac o achava rapidinho. “Don’t be afraid. I’ll be there, I’ll meet you” – muito impassível, impressionante mesmo. Estavam acertados então, cuidasse bem da Livi, não deixasse ela se esquecer da pílula que ela sempre esquecia. E segunda se encontravam num boteco da Augusta com a Fernando de Albuquerque por volta das sete. “Nossa, eu sempre tou lá, como é que ce acertou?” Ahah! O Jac acertava muito mais do que ele podia imaginar. Mas deixasse pra lá. Respondesse uma última curiosidade: como tinha convencido a Livi a ir até lá? Ela era sempre tão ciosa, se sentia culpada com qualquer besteira, como ela tinha tomado coragem pra ser tão audaciosa? “Ah, Jake, são as sujas lições do coração. Só sei que ela me pediu pra trazer... Fala com ela depois. Agora eu tenho outra pergunta pra você. Nesse nosso encontro de segunda, você acha que eu devia levar camisinha?” Ótima pergunta, mas que moço sagaz! Mas não ia responder nada, ia fazer bem o que estava fazendo agora, desligar a webcam e o micro em seguida, ele que se fodesse com a pergunta na garganta.&lt;br /&gt;... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7260767778356154433?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7260767778356154433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7260767778356154433' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7260767778356154433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7260767778356154433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-33-sbado-de-manh-parte-1.html' title='Ato 33: sábado de manhã - parte 1'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-116831689829267882</id><published>2007-12-12T11:21:00.009-08:00</published><updated>2007-12-13T08:36:01.083-08:00</updated><title type='text'>Ato 33: Segunda à noite - parte 2</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;O que era que o Jake queria era mistério, não dava pra saber nem com mil anos de especulação. He was movin in myterious ways... but not in time e não tinha cara de quem se atrasava, metódico do jeito que era. Se passava do horário mais de meia hora era de-propósito but Sea wasn’t that patient and wanted go away, o interesse nem era dele mesmo... Lá-lá-lá... Tarde melancólica, nem muito clara nem muito nebulosa, se olhava pro horizonte via uma coisa estranha se levantando lá no fundo, podia ser a poluição excessiva, podia ser uma voltinha da vida e um começo de dor: rosa e cinza. O Sea já se cansava da cadeira baixinha e do movimento da esquina-paranóia-delirante, gente querendo de tudo, sexo, viagem e outras coisas... e comprando de tudo, sexo, viagem e outras coisas. Era divertido ver, o Sea sempre gostava, menos hoje que tinha que esperar a boa-vontade do Jake, mas não ia mais não que não tava afim. Fez sinal pro garçom trazer a conta, levantou-se pra ir pagar, deu uma bela espreguiçada e passou o rosto pelo ombro pra limpar o soninho – he was bored! Mas quando pôs o primeiro pé na rua novamente, escutou um assoviozinho e quando foi se virar pra ver de onde vinha deu com o Jake bem no calcanhar e foi um susto! Mas que entrada triunfal, não!, pegar os outros por trás desse jeito! &lt;Br&gt; &lt;br /&gt;“Pegar por trás? Não, não te peguei por trás não... Pegar por trás foi o que você fez quando seqüestrou a Olívia, hahaha!, Mas se você quiser eu te pego-de-jeito por trás outra hora. Mas já vou avisando que vai doer” – e ria! Essa era a recepção do primeiro encontro dos dois, uma provocaçãozinha de-nada, e foi uma coisa que passeou pela cabeça do Sea por muitos anos, o olharzinho preto e insolente do Jac, todo envolvido em ironia. Podiam se sentar? O Sea queria pagar uma cerveja já que da última vez (ou primeira?) o Jac pagou a margarita. “A gente vai sentar sim, mas você não vai pagar nada...” – chamou o garçom e pediu duas tequilas e uma água, o que fez o Sea se intimidar em pensar no teor da conversa (ele sabia que o Jac muito raramente se excedia com bebida) – “A nossa dinâmica é essa, amiguinho: eu sou o cara do dinheiro então eu pago, não é assim que você e a Livi dizem? Que eu gosto de pagar pelas coisas? Então...” e foi curioso, porque a primeira mensagem que o Sea decodificou disso involuntariamente foi dog-eat-dog; bateu do-nada a sensação que dá quando a gente ta andando pela rua e passa um carro que levanta muita terra e a terra vai entrando nos olhos e na boca e ressecando a pele e dando coceira e secura e pigarro. E o Sea começou a achar que nunca devia ter aceitado aquele encontro estúpido. O Jake tava quieto olhando os passantes, mas agora olhava o Sea, que teve de olhar de volta. O barulho da rua foi diminuindo, diminuindo, até que tudo ficou calmo demais. E o Jake não falava mas olhava e olhava e olhava, nem piscava, movia um pouquinho os globos dentro das órbitas mas sem parar de olhar... E não falava nada. Quando quase completos cinco minutos de silêncio gritante chegou o garçom com a bebida, o que fez com que o Sea se sentisse salvo, mas por pouco tempo, porque o Jake virou tudo num shot e retomou o olhar. Nossa, que machesa, hein!, o cara era todo bofe! A chance do Sea não se alterar era não beber e manter a consciência, mas se continuasse sóbrio era capaz de não segurar-a-onda. Fechou os olhos e viu uns pontos alaranjados no meio do preto e os pontos foram aumentando e se cor-furtando e se caleidoscopicamente multiplicando até que um rodamoinho todo psicodélico ficou bem em frente, no lugar onde devia haver um Jake e a mixórdia colorida fazia o coração bater mais devagar... Era bom, o Sea sempre fazia isso quando alguma coisa tensa acontecia...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Sea, olha pra mim!” Ah!, olhava, já tava olhando, e o Jake ainda não tinha mudado de cara, tinha só adicionado uma certa curvatura no canto da boca pra fingir um sorrisinho. E não falava nada ainda, tava com gosto de ver o Sea meio nervoso o filho-da-puta. Lhe-dissesse uma coisa, porque tinha se atrasado? O Sea já tava quase indo embora... “Não me atrasei, te vi chegar inclusive, tava ali do outro lado da rua. Tava vendo você”. O Sea ficou bege! Esteve efervescendo ansiedade durante quarenta minutos pra o outro dizer que tava olhando de longe! Why? Mas o Jac não respondia, continuava olhando com a irritante carinha bonitinha dele. Era melhor beber logo-duma-vez! Virou a tequila duma vez e sentiu queimar o rosto e o estômago e o ardor desceu até as bolas: he had a situation... and didn’t know what to do, fucking-god! Queria sair dali mas se sentia obrigado a ficar. Fazer o que? Ah!, sim! Perguntar o que era que o Jac queria afinal... &lt;br /&gt;“Te ver, né? Não é isso que eu tou fazendo? Tou vendo você...” Vendo? Vendo??? Ta, o Sea se apresentava numa casa noturna em Sampa toda terceira sexta-feira do mês, o Jake podia vê-lo no palco, o Sea até preferia... “Mas assim não tem graça, você ia mexer essa bundinha que-deus-deu pra todo mundo ver além de mim...” E isso devia ser péssimo pra o exclusivista do Jake, né?! Tudo aquilo era por causa da perda de exclusividade da Liv? Ah, ele agora ria de-verdade, com cara de malícia. Voltou a arregalar os olhos esfomeados... lambeu os lábios, depois mordeu o inferior e foi soltando devagarinho. “Fala pra mim, Sea, fala direitinho como foi que você levou a Livi naquela noite”. He didn’t want to talk about that… Já não tinha perguntado pra ela? “É que eu queria ouvir você, meu amor! Pra que tanta animosidade? Eu, que devia te matar, tou te pagando um drink, e em vez de ser bonzinho pra mim você fala desse jeito?“ Mas o Sea não queria falar nada sobre aquilo. Na realidade tinha sido bem besta ao ter aceitado se encontrar com o Jake, nem se lembrava porque tinha aceitado já que não ia ter jeito dele levar a Livi... “Anda! Fala!” – de vozinha macia, todo cínico... Passou a mão pelo cabelo – ele tinha um cabelo maravilhoso! –, depois mordeu a falange do indicador fazendo cara-de-fácil, depois alisou o próprio peito e mantinha o sorrisinho, todo se insinuando. E o pior era ele ser gostosinho mesmo, mas não ia rolar nada, evidente que não. Agora ele sabia o que o Jake queria, queria descaminhar o pensamento do Sea pra descontar o mal-estar do fim-de-semana, o que era natural, porque ninguém gosta de se machucar, inda mais nos brios. Chamou o garçom, pediu mais tequila, mais duas logo de uma vez, que o Jake tinha de acompanhar. “Mas que apetite, hein, bicha!” – afetando pra falar, foi engraçado. Riram espontaneamente pela primeira vez. A bebida chegou bem mais rápido e o Sea sugeriu um brinde, pra quebrar um pouco o gelo. “Tudo bem, a seu fim-de, que deve ter sido paradisíaco...” – mais um olhar de insinuação – “Sea, vamos fazer um joguinho: eu vou te dizer o que a Livi me falou do encontro de vocês e vou te dizer o que eu acho que aconteceu. Daí, você só me confirma, item a item, pode ser? Se você disser tudo direitinho eu posso te conceder alguma coisa que você queira ou precise... Sei lá...” – muito sexyzinho, quase uma Play-mate.&lt;Br&gt; &lt;br /&gt;Na vida tem coisas que são feitas pra dar merda e essa era uma. Mas depois de duas tequilas a gente perde o medo, né?! O Sea perdeu não só a noção de perigo como também o respeito próprio e foi logo aceitando porque ficou meio ligado no Jake. Falasse. “Ta...” – virou o pescoço de lado pra estralar, endireitou os ombros e exibiu eximiamente as pérolas simétricas que eram seus dentes. Depois deu um jeito na postura só pra se mostrar, puto pra-caralho! – “Ela disse que foi com você pro aniversário do Marcos, bebeu demais, dormiu e acordou na tua casa de campo. E não deixa de ser verdade, só não é toda a verdade, né? Olha, o jogo já começou, não pode mentir!” E mais tequila! (o Sea já tava com dificuldade pra sentir os lábios, não devia estar bebendo tanto sem comer)... Yeah, he was right. “Então, deixa eu adivinhar... Você deve ter insistido pra ela ir, deve ter dito que tava morrendo de saudade dela...” Very right. “E ela quis recusar mas cedeu porque ela sempre cede quando insistem...” Completely right. “E você não deve ter deixado ela comer, deve ter dado bebida forte pra ela…” Almost right... “Tá, então... Seduz ela quando ela já ta meio alta e dá mais bebida ou maconha, ela tem pressão baixa, desmaia...” Wrong! “Não mente, docinho... Sabe o que mais...” – olhava demais, de sorriso maneirinho, pousava a mão de-leve na do Sea, que nem se mexeu pra não mudar nadinha da sensação que teve. Mas tornou a fechar os olhos – nem sempre gostava da primazia da visão, enxergar às vezes era mau, especialmente quando tudo o que se vê é uma pessoa que não parece ser nada de bom além de bonita... E bem bonita por sinal – o Sea sempre teve ressalvas com gente muito bonita. O problema nesse caso era que se uma luzinha muito funda dizia pra manter os olhos fechados e tentar chegar em casa assim, ser ver ninguém, alguma coisa no corpo gritava orientações bem diversas, gritava pras roupas irem embora com urgência. “...Sabe o que mais? Senta aqui perto de mim...” Tequila (o Sea já zonzo e o Jake rígido feito parede). Mesmo sabendo que não devia obedeceu na hora e foi apertando a perna do cara, meio discreto meio não. “Isso, tá melhor assim. Agora fala pra mim... Nossa, olha onde ce põe a mão, vai com calma, gato!... Isso, muito bom...” – que puto! –  “Vamos continuar, me fala como foi que você convenceu a Livi a ir com você, descreve pra eu imaginar, tá parecendo muito excitante...” Que Liv o que!, não tava nem lembrando dela mais, deixasse ela pra lá! Mas em vez de responder o Jake ficava olhando e sustentando o sorrisinho, todo impositivo, devia ser coisa de gente que gosta de negociar. Okay então... Queria saber? Contaria, mas o Jake precisaria deixá-lo em casa depois porque já tava ficando bem louco. “Ah, pedindo assim com jeitinho, qualquer coisa, gato” – era falso demais! Mas era gostoso também, não ia fazer mal se fossem pra casa por uma ou duas horas, ia-não, delícia. Explicava então que tinha sido meio assim: os dois beberam e tomaram meia bala cada um – o Marcos tinha dado bala pra vários convidados, chic, né?! –, daí ficaram se amassando no carro do Marcos, daí transaram animalmente por umas duas horas e ela não parava de querer mais, daí o Sea tava quase morto e sugeriu que fossem embora dali e ela disse que sim, daí ela capotou no carro e só acordou depois. Pronto. Como-assim “o que mais”? Não tinha mais nada, era só isso. Tava rindo de que agora? Parasse... “Não esquenta, mocinho... Já dá pra ver o que aconteceu. Você joga sujo, hein!, mas tudo bem, tá no seu direito... Quer que eu te leve pra casa agora? Vamos de saideira?”&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E depois da saideira o Sea só queria e desejava e ardia de vontade de ser levado pra casa e jogado no sofá e arranhado e mordido e beijado, tendo as roupas arrancadas na marra e os cabelos puxados e acordar cheio de marcas e dores pelo corpo no dia seguinte e ficou tão perdido na idealização delirante que ria sozinho e nem se deu conta de o Jake ter pedido e pago conta, de terem ido até o carro, do caminho até a casa do Sea; acordou com a voz dele, calada até o momento, pedindo que descesse, perguntando se estava viajando além da conta. “No-no-no-no-no, come with me. You gotta get in... No! What are you saying? You must stay... Hey... Why are you doing this to me? Let’s get in, get me naked, I want you...” Riu e riu e riu baixinho! Cabou-se o clima: o Sea já não estava mais querendo nada além de distância do Jake, tentou abrir a porta do carro mas estava travada e isso fez o Sea se converter no corpinho de uma enorme aranha recém pisada. “Nossa, como você consegue se encolher desse jeito? O que ce tem? Não fica assim...” Fazia um cafuné delicado, gostoso, mas o Sea não queria saber de nada que não fosse entrar e dormir e esquecer, sentia a raiva mais triste do mundo e a mais solitária também, era a pior das rejeições. Que o Jake abrisse a porra da porta de uma vez. “Sea, me desculpa por isso, eu não queria que nada assim acontecesse, mas procura me entender: em primeiro lugar eu sou casado, casado com a sua amante inclusive. E outra, gatinho!, olha pra você, você tá dando pena, tá nojento! E eu não sou que nem a Livi, que sempre fica excitada quando sente medo e pena. Quer que eu ligue pra ela vir te ver? Vou ligar, péra-i...” Isso era muito sadismo, muito mesmo! And Sea couldn’t take it anymore, se Jake não abrisse a porta agora o Sea daria um escândalo. Ah, abriu! Great! Muito boa-noite! Esperava que tivesse se divertido muito e batesse altas punhetas pensando nesse revanchismo. Mas o desgraçado ainda teve moral pra falar macio e meiguinho: “Ao vencedor, as batatas, amor! Não zanga não! Outro dia eu te ligo pra arrumar as coisas” – e tentou dar selinho, mas o Sea foi mais rápido, se esquivou, fez cara-de-nojo, desceu. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-116831689829267882?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/116831689829267882/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=116831689829267882' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/116831689829267882'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/116831689829267882'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-33-segunda-noite-parte-2.html' title='Ato 33: Segunda à noite - parte 2'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-1048818295001250046</id><published>2007-12-12T11:21:00.008-08:00</published><updated>2007-12-13T08:36:26.842-08:00</updated><title type='text'>Ato 34</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Tava o Jac numa praia linda, toda rodeada de grandes pedras onde as aves marinhas pousavam. O céu guardava uma nebulosidade alta, atrás da qual se podia ver o sol. O gris celeste saía os grandes olhos da Livi, que tava bem ali pertinho, muito bela e muito puta, dançando nuínha. Estavam sozinhos e o Jac estendeu a mão a ela, pedindo carinho, mas ela não pegou faceirinha, correu um pouquinho na direção do mar e se virou pra ele de novo, queria brincar de pegar, a danadinha. Era claro que o Jac seguia... E ela corria meio devagar, parou bem na beirinha do mar, onde o vento se encontra com a água e faz espuminha branca. Algum deus devia ter inseminado a superfície clara da água... Era ali que ela estava, parada, rindo, muito-muito nua e delicada, os cabelos revoltos voando: a própria Vênus nascendo, se Botticelli a tivesse feito mulatinha. O Jac sentiu um desejo alegre e muito forte, carecia de posse dela e queria no ato. Andou até ela, que foi mais pra o fundo do mar, mas não afundava: ela corria sobre as águas, flutuava, toda ninfa. O Jac tentava seguir mas não conseguia flutuar no mar como ela, então pediu que voltasse. Mas nada, ela ria e o chamava para o fundo. O Jac foi nadar na direção dela, mas veio uma onda e o levou de volta pras pedras. E a Livi deixava, só acenava... O Jac se jogou na água outra vez e outra onda o fez voltar. Mais várias tentativas, todas frustradas. E ela dançava... E o deixava ali, nas pedras... E dançava... E sorria... E chamava: “Vem, amor, a água tá uma delícia...”, e acenava e dançava... Feliz como ninguém... E o Jac soube que certamente ficaria preso na praia pra sempre...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Jac acordou suado e trêmulo e morrendo de calor e susto e a primeira medida que tomou foi verificar se Livi ainda estava ao seu lado na cama... &lt;Br&gt;&lt;Br&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Livi estava com o Jac numa praia toda circundada de pedras e era um dia de sol radiante feito lua-de-mel. Estava feliz, muito calma e feliz. O mar era cristalino e tinha a superfície tão serena que era até falta de sensibilidade não se deixar tocar pela água. Mas antes de ir, sem saber bem por que, a Olívia se virou pro Jac e pediu, pediu que ele a deixasse entrar, e ele concedeu e riu. Depois, ela pediu pra que ele não saísse de perto e ele garantiu que estaria bem ali. Então ela entrou na água, mergulhou, foi pra o fundo... E a água não era nem tão salgada assim, era agradável, morna, verdinha... Deslizava suave envolvendo todo o corpo da Livi, acarinhava... A sensação não podia ser melhor, parecia envolvida por um amor que se estendia pelo mundo todo e não queria mais sair...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Ela não sabia já há quanto tempo estava emersa quando começou a se sentir cansada, bastante cansada. Mas olhando ao redor não conseguia ver a praia e não sabia em que direção devia nadar. Ficou muito chateada por uns momentos, mas o cansaço de nadar naquela imensidão era tamanha!... E o calor das águas faziam o corpo relaxar... E a Livi adormecia, mas logo os pulmões se esvaziavam de ar, seu corpo afundava e ela se afogava, água nos olhos e ouvidos e nariz e garganta, precisava acordar e nadar pra se manter viva... Mas estava muito cansada e a água a ia acalmando, era difícil de resistir... Olhando ao redor, nada... nada... nadinha... Só uma rocha, muito longe... Acenando... Ah, era o Jac, tava na rocha ou era a rocha mesma, não dava pra distinguir uma coisa da outra... Mas a Livi não conseguia nadar até lá... Ia morrer no caminho... Mas a rocha era só o que restava... E ia morrer no caminho... Chorou, sentiu as lágrimas salgando a boca, mas não sabia se eram mesmo lágrimas ou se era o mar.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A Livi acordou chorando e tensa e se deparou com o Jac, também acordado com cara-de-susto, que a abraçou forte, beijou e falou baixinho: “Livi, meu amor, você só fica se quiser... Agora que meu pai tá morto, você fica comigo se quiser... Eu vou continuar tratando o seu pai, mesmo se você me largar... Não fica se não quiser...”, mas ela se incomodou em ouvir aquilo, ficou mais triste, não queria escutar nada, cobriu a boca do marido com a mão e fez “schssssssssssssss”. Se abraçaram e estiveram quietos por uns instantes.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Sabe, Livi, eu... eu tive um pesadelo... e tinha uma praia...”&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-1048818295001250046?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/1048818295001250046/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=1048818295001250046' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1048818295001250046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/1048818295001250046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-34.html' title='Ato 34'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-3464395129956718399</id><published>2007-12-12T11:21:00.007-08:00</published><updated>2007-12-13T08:37:10.808-08:00</updated><title type='text'>Ato 35</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Ela estava dando um golinho no copo d’água quando o viu chegar e, mesmo sem fazer nada além de entrar e acenar e sentar, transtornar o ambiente completamente: francamente, a Livi não tinha o menor preparo psicológico pra rever o Sea assim, tão de-surpresa. Sentiu um tremor interno, engasgou, ficou até zonza, mas se recompôs, tinha de se recompor, porque além do Sea, tinha uma banca examinadora na frente – no lado, sendo preciso. Fechou os olhos um instante e seguiu com o que tinha de falar e falou e falou e falou, quase todo o tempo de olhos semi-cerrados, tentando a todo custo evitar se ensimesmar em pensamento sobre o ex-namorado. Mas era difícil, lembrava-se das citações que devia fazer e a voz interior que as soprava era chiada como voz do Sea. E ele estava ali, estático, de terno e óculos-escuros bem escuros, todo blindado contra o mundo. Devia a estar odiando por ter voltado ao Brasil sem avisar ninguém, por não ter respondido nenhum do diários-regulares emails que ele enviou durante o tempo em que ela esteve fora. Devia estar triste e a Livi, como grande responsável por aquilo que cativa, se sentia fragilizada e culpada. Tentava parar de pensar nele e não conseguia, o Sea não era presença que se ignorasse, nunca era! Com a sua entrada, todo o ar se tornava úmido e fresco feito maresia matinal, era até bom. O jeito que a Livi conseguiu dar na situação foi torná-lo pano de fundo de seus pensamentos e a voz do Sea se tornou pra sempre backing-vocal da tese de mestrado dela, que se lembraria disso sempre que pensasse no trabalho, todas as vezes, todinhas, até o fim da vida.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Nunca o tempo custou a passar tanto como naquela manhã. Mas acabava, finalmente! E agora podia ir de encontro ao Sea pra tirar esse peso-d’água de cima da testa – as têmporas doíam por dentro. Mas não, não meu-deus!!! Tinha que receber trocentos cumprimentos ainda e muitas recomendações e expressões de estima e parabéns e o caralho... Ah! Malditas convenções sociais! Mas tinha que segui-las, fazer-o-que?! E o Sea continuava ali, sentadinho, pernas cruzadas, mão no queixo, cara-de-conteúdo – ela sempre se agradou com as personas que ele usava nas diversas situações. Tinha se tornado um pouquinho mais corpulento e com o rosto mais envelhecido também, mas tava bonito sim, tava menos andrógeno sem as pinturas, mas não menos sedutor (até ali a Livi sempre acreditou que o charme do Sea era devido à androgenia). Era bom vê-lo de novo, puxa!, quanto tempo... Nossa, como a saudade brotava agora, minava, aguava... A Olívia passou mais de um ano sem nem sinal do rosto dele (nunca mandava fotos nos emails), acreditando que não gostava mais e foi verdade, por um tempo foi. Ela o havia jogado num pano-de-guardar-confetes, bem escondidinho no fundinho da alma, não careceu recuperar nada que viesse dele. Voltou certa de que não tornaria a ver o Sea e nem esquentou-a-cabeça com isso. Mas agora que o via, que o via com os olhos do corpo, agora sentia o pano-dos-confetes se sacudindo e mandando cores e brilhos e lança-perfume em todas as direções: carnaval do Rio de Janeiro... Mas a impassibilidade dele tava até dando medo, era claro que seria um encontro tenso, era claro que não seria festa, o que ficou bem indicado no fato de ter esperado que todos se despedissem pra só então se levantar e ir até ela: &lt;br /&gt;“Congratulations! Great job! Be happy! Bye-bye!” – oferecendo a mão, bem polido, bem forçado. Mas esperasse! Tinha vindo pra fazer só isso, ponto-finalizar a apresentação dela? “E o que mais eu devo dizer dona-Olívia? Devo lamentar as saudades? Já lamentei muito!”. Podia dar um abraço pra começar, e acompanhá-la em seguida, ela iria almoçar com o orientador e os colegas, ele podia ir junto... “Olívia, eu sou anoréxico, lembra? Não posso comer... E não tem nada-a-ver eu te acompanhar. Só vim porque sabia o quanto importava pra você esse mestrado... Ele quase pos um fim na gente uma vez, né? Mas já acabou. Vai viver que eu tou vivendo também...” Quando ele disse isso, tinha na voz um supremíssimo cansaço – íssimo, Íssimo, ÍSSIMO Cansaço. Trazia o rosto mais envelhecido, mais marcado, como se tivesse vivido dez anos em um. Ir vivendo, né? Ir vivendo... Era o que a Livi estava fazendo até o Sea aparecer e, se conhecendo como se supunha conhecer, sabia que não ia mais ter paz enquanto não deixasse bem resolvida a questão com ele, não conseguiria trabalhar, nem pensar, nem dormir direito, ficaria obsessiva e talvez até doente. Pensando bem, ele não tinha nada que ter aparecido ali. Mas por outro lado, se a amava de fato como costumava afirmar nas cartas, não devia ter segurado-a-onda de saber que ela estava no Brasil. Então, a culpa de ele estar ali era exclusivamente da Livi, porque ele não teria ido se ela lhe tivesse comunicado a chegada... Ah!, meu-deus! Francamente!, só-ela mesmo! Mas também, como ela poderia adivinhar que ele descobriria o dia e a hora e o local da argüição? Não poderia... A propósito, como ele tinha conseguido chegar até ali? “Já inventaram o Google, sabia? Eu lanço seu nome pelo menos uma vez por semana pra saber o que você anda fazendo da sua vida, já que você não fala... Mas te juro que não faço isso nunca mais. I’ll leave you alone, Liv... finally...” Nossa, que coisa!, que coisa ruim que deu no peito. De-repente a Livi ficou com um medo danado de perder o Sea, de perder definitivamente. Não, não fizesse assim! Ainda tinha o mesmo endereço, os mesmos telefones? Por-favor, dissesse que ela precisava revê-lo, dizer qualquer-coisa urgentemente. “No, nevermind!, Liv, já deu. Eu tou muito desmoralizado, tou com a alto-estima baixa com tudo isso, não tem nada pra esclarecer, eu já sei o que aconteceu: você deixou de me amar. Pronto”. Não tinha, o pior era que ela não tinha deixado de amar não, tinha só guardado o amor no freezer ou alterado sua natureza, não era o amor de antes mas era algum amor. Mas não diria isso, melhor-não, apenas insistiria num outro encontro, diria que sentia saudade... “Saudade... Tá... Quer me encontrar... Nem-fodendo, minha filha”. Mas por que a teimosia? Se tava ali era que queria vê-la, não era? “Não sei... Não tenho essa volúpia auto-analítica toda pra saber se é isso mesmo, nem sei bem porque eu vim...” Ah!, bobagem!, parasse com o nem-fodendo e dissesse quando tinha um tempo livre e onde podiam se ver, ela poderia ir até a casa dele... “Quer que eu pare com nem-fodendo? Então tá, só-fodendo! E como eu não tou mais alugando o ape do Bixiga, se ce quiser falar comigo, vai ser sem roupa, em cima duma cama de motel. E aí, vai me dar?”&lt;br /&gt;Foi tão à-queima-roupa que a Livi nem sabia o que dizer, riu um pouco sem-graça, esquivou os olhos coçou a cabeça... Ele nunca tinha falado com ela naqueles termos, pelo menos nunca a sério. Dar pra ele? Tipo, ele tava brincando, né? “Não”. Não, ele não tava brincando. Olhou pra o rosto dele e não dava pra saber direito o que se passava por causa dos óculos que voltaram a lhe esconder os olhos. Nossa, o Sea devia mesmo estar muito magoado, devia ter dito aquilo pra desestabilizar o estado emocional dela. Respondesse, queria mesmo que ela desse por que? “Ah, Olívia! Why does a guy wanna fuck a girl? Tell me...” Schsssssssss! Falasse baixo! Podiam ouvir e todo mundo ali manjava inglês perfeitamente! E não viesse com essa conversa porque não colava... E tirasse os óculos pra falar com ela. “Olha!, quanta exigência... Viver com los hermanos argentinos te endureceu? É bom, né!” – tirou os óculos, tinha os olhos fechados e os foi verdíssimamente abrindo, suspirou fundo, parecia extenuado – “Olha, eu nem sei porque te disse isso, foi espontâneo, foi sem pensar... Mas no final, embora seja gay eu não sou menina, eu sou homem, então acho que não tem essa de conversa, acho que eu só consigo te ver de-boa se recuperar a auto-estima e acho que sexo com você me ajudaria muito nisso. É, eu acho isso. Então... então nem me procura se não for pra me dar, depois a gente pode até conversar”. Eta! Mas e o maridão dele? Não ficaria puto? “Não tenho marido, eu namoro. E não vou mais conversar, Liv. Eu tou indo! Não tenho mais telefone fixo, se quiser me liga no celular, mas só se for pra gente marcar de transar, tá? Take care of you. Bye!”. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E foi. E deixou a imaginação erótica da Livi muito efervecente, lembrando com certa pontinha de delícia das noites e noites que gastavam acordados, se acarinhando... acarinhando... acarinhando... Carinhos de fazer o corpo da gente desmanchar! Vix, ia ter que ligar... Queria ligar... Ainda dava pra ver o vulto dele pela janela quando ela ligou: “Oi, Siegfried. Então, tá livre quando? Pode ser hoje?... Legal. Mas pode ser... só por hoje?”.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-3464395129956718399?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/3464395129956718399/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=3464395129956718399' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3464395129956718399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3464395129956718399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-35.html' title='Ato 35'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-4203943357608132787</id><published>2007-12-12T11:21:00.006-08:00</published><updated>2007-12-13T08:37:47.614-08:00</updated><title type='text'>Ato 36</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;O João Carlos está em silêncio que precede terremoto, empedrecendo, gravemente empedrecendo, os olhos vermelhos e secos atrás dos óculos, deve até doer pra piscar, o corpo rijo, a alma em riste. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Siegfried, derretendo, se liquefazendo, perdendo toda-toda consistência corpórea e até querendo virar água pra poder correr-fora pela fresta da porta ou pra evaporar mesmo, sumir pra-sempre, pra o sempre mais comprido que imaginar (porque pra-sempre com o Sea nunca dura muito). Todo derrubado no sofá, melindrado, abobado, com cara-de-idiota, sem energia nem pra roer unha – coisa que tava dando uma vontade danada!&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A Olívia tá de pé, próxima à janela pra tomar uma brisa, olhando pra fora muito longamente, divisando o horizonte, inspirando as pressões da vida e expirando a essência do tédio. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Todos na mesma sala branca-e-prata de decoração clean pra-caralho da casa do João, que antigamente era da Olívia também. A última vez em que se encontraram assim, os três juntos, foi confuso, muito confuso e muito apaixonado, uma viagem bem onírica, uma putaria bem sagrada. Foi quando o João se certificou do retorno da Olívia. Ele foi pra casa do Siegfried próxima à represa e encontrou a Olívia dormindo no sofá, o corpo mal coberto só por uma cabeleira imitada das belas cubanas, muito mais linda que os cachos rebeldes com que a conheceu. Estava mais magra também, demorou a reconhecê-la. Pensou em se zangar por ciúmes, mas seria bem artificial porque não tava sentindo ciúme nenhum, nem do namorado e nem dela. Então pensou só que o Sieg devia chegar à meia-noite, o que lhe dava pelo menos uma hora sozinho com ela e não teve dúvida, foi acordá-la com carícias íntimas caçadoras das umidades, porque ficou taradíssimo a vendo ali. E ela estranhou mas cedeu, cedeu facinha-facinha toda cheia de saudades. Eles não viram o Sieg chegar, quando se deram conta ele já estava dado e puto abraçado à Olívia e beijando o João. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Um amor feito pra dar errado: o resultado disso foi devastador pra todo mundo. O João dispensou o Siegfried, não por estar mantendo caso com a Olívia, mas por não ter dito que ela havia voltado – guardar a mulher só pra ele foi a gota de merda que faltava pra fazer explodir a fossa cheia daquele namoro doentio. A Olívia não quis mais ver o Sieg porque achou muito trapaceiro da parte dele nunca ter dito que o namorado que tinha era o João, ela nunca teria traído o João dessa maneira. O João também se afastou da Olívia, achou que era o cúmulo da fraqueza de espírito ela não ter tido coragem de reencontrá-lo, depois de tudo o que fez por ela mesmo ela estando em Buenos Aires; a Olívia, ela deixou assim, não quis devassar a vida dele mais do que achava que já tinha feito. Pro Siegfried não restava nada além de se justificar, mas ele não se dignou a isso, não achou que houvesse justificativa possível porque não se considerava tendo feito canalhice nenhuma: teriam se encontrado se realmente quisessem e se a Liv não se-ligou que o namorado era o Jake, foi por ser excessivamente distraída. Ligou pro Marcos com o peito arrasado, soube que ele estava se divorciando, desceu a serra de Santos na mesma hora, se enfiou no apartamento dele e só teve permissão pra por-a-cara-na-rua passados três dias.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E hoje, hoje se encontraram, os três, a pedido dela. Foi na casa do João porque todo mundo ainda tinha as chaves. Ninguém tinha bom-ânimo, mas a coisa piorou quando ela disse a necessidade do encontro: sem aviso-prévio (como diria o João), sem vaselina (como diria o Siegfried), à-queima-roupa (como digo eu), ela foi falando bem assim, “tou grávida mas não vou ter esse filho”.&lt;br /&gt;Agora eles estão justamente sob o efeito dessa declaração, estão em silêncio, mas o Jac o quebra com uma perguntinha técnica sobre o tempo da gravidez. “Cinco semanas... É, é bem isso que ce tá pensando sim, foi naquela noite... E é por isso que eu chamei vocês dois, achei sacanagem vocês... sei lá... não saberem”.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Os dois homens suspiraram em uníssono de alma, mas com resoluções muito distintas. O Siegfried se anoitecia nos olhos porque queria muito um filhinho, já tava ficando meio velho pra ser tão sozinho quanto era e filho é sempre o tipo de gente que não larga da gente nunca mais, né? Poderia tomar os remédios bem direitinho, fazer menos balada, criar a criança em Guarapiranga ou no Rio, sabe lá, ser bom-pai mesmo, casar... Ia ser bom, maravilhoso talvez, mas se ela quer tirar, ele tem obrigação de entender, aceitar, apoiar. Então se levantou e foi até ela e segurou firme na mão.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O João sempre quis ter filhos, desde moleque quis uma família sua, não teve até então por achar que não tinha tempo o bastante pra dar atenções, sempre trabalhando tanto, queria que a vida se acalmasse um pouco pra ter, mas enfim... Acreditava que as coisas acontecem quando têm que acontecer e se ela tá grávida, tem obrigação de parir e vai! Fez então um grande esforço, um imenso esforço, um esforço filho-da-puta na verdade, só pra conseguir destravar o queixo duro de tensão. Mas conseguindo, deu vazão à verborréia: a Livi então quer abortar, não é? E precisa de um bom médico pra não perder a vida com a brincadeira... Certo? E médicos bons cobram muito-muito caro pra realizar procedimentos ilegais, né? E dos três, o único que poderia bancar um aborto é ele-Jac mesmo, ou tá enganado? Não, não tá, pois-é! Então ele tem o gosto de informar, pela primeira vez em todos aqueles anos, que no que dependesse dele-Jac, ela-Livi tava na-merda! Porque nem-fodendo que bancaria a morte do próprio filho...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A intransigência da declaração pegou a Livi de-surpresa e a Livi não consegue passar-bem quando pêga de-surpresa. Mas que absurdo era aquele? Era a vida dela, era o corpo dela, não era justo mudar a vida inteira por causa de uma maldita-pílula que falhou. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Siegfried ainda a segurava pela mão e disse, bem pelo vão dos dentes, bem tremendo de angústia, que não precisava ser assim, que ainda podia contar com ele. Podiam ir até o Rio e falar com a Aimée, a mãe-postiça dele. Ela certamente emprestaria uma grana, ainda mais se fosse pra isso. &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;_Siegfried, você é um filho-da-puta-imoral! – o Sieg tremeu novamente com o efeito do grito do Jac – Você tá proibido de ajudar a Olívia com isso. E quanto a você, mocinha, é o seguinte: nem se atreva a tentar porque senão, ce vai se recuperar da operação na cadeia. Eu juro que te meto na cadeia, nem que eu leve a vida toda pra isso. Você não vai, não vai matar o meu filho! – e eis que volta ao peito do Jac uma cãibra forte; faz tempo que ele não a sente, mas agora ela volta e muito mais forte que das outras vezes, precisava ir ao médico ver isso uma-hora-dessas...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A Livi não acredita que o Jac realmente tenha capacidade de prendê-la, estava certa de que se tratava de um blefe. Ia prendê-la pelo crime de proteger a própria vida e de privar uma criança do peso de ter nascido sem ser desejada, sem saber direito quem é o pai. Era isso: o Jac pode ficar quietinho na-dele porque não tem a menor prova de que o filho seja dele, tem cinqüenta por cento de chance de ser do...“Olha, Olívia, raciocina! Esse filho é meu, seja como for. Porque se algum dia você conheceu o Sieg foi porque eu dei o ensejo. E se vocês tiveram um caso durante o nosso casamento foi porque eu permiti. Então se não fosse por mim, essa criança não teria sido concebida, o que me garante plenos direitos à paternidade, independentemente da porra que te fecundou ser minha ou não. Simples assim! Esse bebê não vai ser filho desse irresponsável e nem vai ser morto por você, tá legal?!” – gritava, se impunha, estava muito vermelho.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;O Siegfried ficou assustado no início, mas agora estava achando interessante ver como o João lida com coisas que não pode comprar ou vender. Ele quer resolver na base da argumentação mas nem se liga de que a vida não é um jogo de argumentos. Mas o Sea está tão desgastado fisicamente que não consegue dizer nada a não ser um tímido “você é o cara mais egoísta que eu já vi, ela tem o direito de...”. &lt;br&gt;&lt;br /&gt;_Egoísta? Escuta, quem tá querendo acabar com uma vida por egoísmo são vocês! E se ela tivesse direito, ele estaria garantido por lei, se não tá na lei, acabou! Vocês tão me dando nojo! Vocês se merecem mas são tão incompetentes que não conseguem nem ficar bem juntos... – tinha mais pra dizer, mas a cãibra cardíaca já estava se tornando forte demais pra autorizar fala. Sentiu tudo muito seco ao redor, sentiu faltar ar, sentiu os olhos minarem mas não quer chorar, não quer! Mas não deu pra segurar, caiu de joelho agarrado ao próprio peito o rosto baixo pra não entregar as lágrima e dizendo baixinho “Covardes... odeio... odeio... odeio...”&lt;br /&gt;A Olívia abraçou o Siegfried, precisava de qualquer sinal de apoio, qualquer sinal. De alguma forma estranha ela amava o Jac e não queria que ele a odiasse, esperava mais compreensão – que idiota ela é! Treme, treme todinha e só não chora porque não consegue chorar acordada. É claro que ela não quer matar ninguém! Mas muito mais claro é que faria no mínimo duas pessoas sumamente infelizes sendo mãe, ela-mesma e o próprio filho.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;O Sieg dá uma força porque não imagina nada mais solitário que estar grávida sem homem e sem saber o que fazer. Está abraçadinho por trás e canta no ouvido, bem baixinho pra o outro não ouvir “all the knives seem to lacerate your brain, I've had my share, I'll help you with the pain, you're not alone…”&lt;br&gt;&lt;br /&gt;E o João permanece no chão, se encolhendo cada vez mais, diminuindo, diminuindo... Até se reduzir a quase-pó, tomba de lado encolhidinho e a respiração ofegante se apaga... Ele tenta-forte puxar ar pra dentro dos pulmões, mas não tem força o bastante e o coração não ajuda, não pára de doer... Não tem ar mais nem pra pedir socorro... Nunca se sentiu mais impotente, não consegue dar conta nem do próprio corpo... O João está morrendo... Está morrendo sim, deve ser isso... A Livi deve ter falado alguma coisa, é a voz dela, mas não dá pra entender, os sons tão muito abafados... É estranho, quase agradável, tá flutuando agora... Tá... Nossa, e o bebê? Vai morrer também... Ah... Melhor fechar os olhos e morrer com calma agora... Ah...&lt;br&gt;&lt;br /&gt;Mas nada! Abriu os olhos de novo! Não está morto, não parece estar pelo menos. Não... Só não está em casa, onde está, o que é isso? “Acordou, amor?” Ah, é a Livi! “Sou eu... E o Sea tá lá fora, foi descansar um pouco, a gente tá cuidando de você... Você quase morreu, amor, e quase matou a gente também”. Mas o que-que aconteceu? “Você teve uma parada cardio-respiratória”. Silenciou um tempo... Nossa!... Nossa! Há quanto tempo está no hospital? “Uns dias, amor, mas não fala, descansa”. Tem sede, muita sede! E precisa de vento também que tá cozinhando... Mas e o bebê? Precisa saber do bebê, ela já abortou? “Não, amor. Não vou mais tirar... Eu tou pensando em voltar pra sua casa... se você ainda me quiser por lá...” A casa é dela, sempre foi.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-4203943357608132787?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/4203943357608132787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=4203943357608132787' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4203943357608132787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/4203943357608132787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-36.html' title='Ato 36'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-3200486358944390655</id><published>2007-12-12T11:21:00.005-08:00</published><updated>2007-12-13T08:38:07.599-08:00</updated><title type='text'>Ato 37</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;A Lívia tinha uma opinião muito bacana sobre possessividade: que é uma coisa meio inútil porque quando a gente quer dar uma puladinha-de-cerca, faz graças e/ou apesar do ciúme da pessoa. Ela achava que fidelidade não é coisa que se imponha, mas que se conquiste, porque de fato a gente só é fiel quando quer, independente das promessas olho-no-olho que faz na cama ou no altar.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;É um raciocínio que agrada o Sea , agrada demais, foi sobre isso que falaram numa das primeiras conversas assozinhada que tiveram. E ele, que já a tinha achado uma menina bem gostosinha (porque era chegadinho em gente escura de beleza diferente), depois disso encanou em desenvolver com ela uma amizade-erótica. O começo de tudo isso foi bom demais, ela não entendia o que ele queria, vivia numa tensão doce entre se entregar e se cuidar cheia de medo e desejo, era só chegar-perto que ela se arrepiava, era só respirar perto que ela se envergonhava. Tesão recolhido em começo de namoro é a melhor coisa que existe e se somar com insegurança, vira uma paixão daquelas! E o Sea prolongou esse sentimento pela a Liv até onde pôde, até se cansar da superficialidade daquilo tudo, porque chegou uma hora que se não entrasse nela, se consumiria no próprio fogo. E pra ele entrar em alguém significa sexo + sono-agarradinho, sendo o sexo a parte dispensável.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Sea quando se decepcionava com alguém, procurava lembrar do que tinha vivido de bom com a pessoa pra que o relacionamento não se guiasse pela tal decepção. Era o que estava fazendo agora, sentado na janela, olhando a chuva cair do céu marrom-azul-alaranjado da noite de Sampa, com a Rock e o Jazz no colo (a folgada da Blues nunca ficava junto do Sea quando ele queria!). Tava lembrando do começo com a Liv... and missing that times... Esperando por ela, sabia lá que horas ia chegar. Era claro que calava, como podia fazer o contrário?, mas odiava quando ela saía sozinha assim, de quinta-feira-à-noite. Porque era o dia do happie-hour da firma, the fuckin’-drinkin’-day, the fuckin’-Jake-day! Na semana anterior ela voltou passando das duas da manhã... de carro... com ele (o Sea aprendeu a reconhecer o motor do carro do Jake no silêncio do Bixiga). Ela tentou entrar pé-ante-pé pra não acordar o Sea, que nem havia dormido, estava na Internet na hora, de luz acesa e-tudo, mas ela nem deu oi nem-nada, se trancou no banheiro e só saiu de lá de banho tomado, veio abraçar toda bêbada e lânguida e cálida e se largou na cama e se disse cansadinha e nanou feito um anjinho. Não comentou sobre como foi o happie-hour, coisa que ela sempre-sempre fazia, provavelmente porque o que aconteceu lá não podia ser contado e como ela sabia que podia ficar com outras pessoas, se tinha vergonha era porque ficou com quem não devia. Sea becames some kind of superman de tanto esforço que fez pra não pensar nesse assunto, mas não dava. Não dava! Não dava pra entender porque ela entrou na pira-errada de sair com o Jake toda semana se antes ela não ligava pra esses encontros corpo-ativos de firma...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O Jazz estava dormindo e levantou a cabecinha de repente, de olhos muito arregalados, virando a orelha-parabólica que antecipa chegadas. A Rock já ficou tensa na hora, cravou as garras na coxa do Sea pra um impulso quase agressivo, retesou o corpinho e deu um salto olímpico pro chão. Mas que garrinhas doídas, fuckin’-god! Eles perceberam direitinho: Liv and Jake are coming... stoping the car... e a Liv não desce... Fica lá... Tá lá ainda, naquele carrão absurdo... E continua lá... Não dá pra ver o que acontece por causa do reflexo das luzes na chuva e do insulfilm de mau-gosto que a bicha-brega usa nos vidros, mas eles também não podiam ver o Sea porque a janela era lateral... Ah, mas que gentil!, ele abre a porta do carro pra ela, o educadinho-machão, imbecil, manipulador, mother-fucker! E abraça e beija no pescoço, toda dele a Liv, né? Todinha-todinha porque deixa! She must like it! Why? Ah...&lt;br /&gt;É, essa era uma boa pergunta pra fazer e melhor ainda pra calar. O Sea se levantava e ficava na sala, bem no corredor de entrada, pra receber a Liv junto com a Blues que só gostava dela. Quando a porta se abriu e a Liv o viu, deu até um gritinho: “Que susto, quase me mata! Tá parecendo um fantasma brilhando nessa luz negra!” – beijinho de-leve no rosto – “Tudo bem, paixão? Tou cansada, vou tomar banho...”. Não, parasse um minuto, desse um beijo na boca direito, sentasse no colo dele um pouco, tomasse uma taça de vinho... “É que eu já bebi tanto, amor...” – carinha de desânimo dando beijo alcoólico na boca que o Sea teve de intensificar pra que não fosse só um selo. Ela se soltava levezinha e ele a volteava em meneios pra abraçar e ela tornava a se soltar num passo de dança, tão linda... O louro pontual dos cabelos reluzia no escuro enquanto ela girava e ria, feito quando um rodamoinho pequeno faz dançar pluminhas de aves pelo ar, tão linda, tão linda que carecia dela muito, demais, tava até se sentindo mal de tão intensa essa carência. Pousava as mãos nela que se livrava redemoinhada em torno dele, twistin’ and spinin’ and turnin’ and confusin’ him inside, feito uma Iansã... Parasse um pouquinho, sentasse no colo, vá! “Pronto...” – atendeu. Contasse sobre o dia, foi bem? Ah!, sim? E a botecada de hoje? Divertida? Sim? E como tinha sido? “Ah!, botecada, gente falando bobeira, essas coisas...” – e beijava, beijava gostoso. Tá, mas e o Jake? Tava lá também? Ah, sim... A propósito, ela tinha dito uma vez que o Jake só fumava quando bebia, ele ainda fazia isso, né?! “Ai-ai... É, ele sempre fuma quando bebe, coisa de ex-fumante que não se conforma, né?” – riu dengosa, toda lisa e delicada, dava pra entender porque o Jake ficava louco por ela mesmo sendo bicha, sempre tão suavezinha e distraída, nem via o que veneno ruim que tragava o Sea pra dentro que-nem areia movediça tinha vindo com ela, com o cheiro de cigarro no cabelo, no pescoço dela: “Oh! Liv, you’re smelling like a cigarette pack… Please take a shower now…”. Se afastou um pouco do peito dele, olhou com séria cara de quem montou quebra-cabeça mas ainda faltam três pecinhas: “Paixão, me diz uma coisa, é o meu cheiro que tá te incomodando? Ce tá parecendo tão tenso”. Ah!, o cheiro dava enjôo, o Sea nunca gostou de nicotina. “É a nicotina o problema então? Nenhuma ligação com a pergunta que você fez sobre o João?”. O Sea não quis mais disfarçar, não tinha por que, sabia que se arrependeria mas abriu o peito ao furacão: eles andavam transando? A Liv pulou do colo na hora, virou de costas, passou a mão pelos cabelos. “Olha, Sea, francamente... Eu não entendo a razão de ser dessa pergunta, francamente...” Nem precisava perguntar mais nada, já sabia a resposta, sabia que a Liv nem mentiria e nem afirmaria, era o jeito dela de se preservar, de preservar o Sea, de preservar o Jake. All right!&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Mas não, não tava tudo bem e nem estaria, alguma coisa doida dentro mexia. Não queria falar nada, não queria, mas a boca tinha vontade própria e, se não isso, pelo menos não respondia bem ao comando da mente. Precisava saber porque ela ainda ficava com o Jake ou porque terminou o casamento se queria ficar com ele. Didn’t make sense, se terminou por causa do Sea, não precisava porque não deixaria de vê-la, continuaria com ela contanto que pudessem ter uma noite toda por semana. Mas não, ela escolheu o Sea, que por isso até saiu de circulação e teve de dispensar o Marcos, caso de mais de dez anos... pra ela continuar servindo de cadelinha pro playboy-filho-da-puta que colonizava ela, alterizava ela, passava todas as primeiras horas do dia com ela e ainda comia de-vez-em-quando. Mas não podia falar nada, não podia, a vida era dela... O Sea se sentia como se tivesse saído numa bela noite de lua e calor pra dormir no relento e uma tempestade de vento e raios o acordasse de assalto, nem acordasse de fato mas quebrasse a tranqüilidade do sonho: sonâmbulo num vendaval. Ele esteve tão certo da paixão da Liv, tão certo!, por tanto tempo!, parecia que nada podia mudar a direção do que ela sentia, que largaria qualquer coisa por prazer de estar com o Sea... E de-repente ela o larga em casa por prazer de qualquer-coisa... Não, não tava tudo bem e queria falar, mas não podia! Precisava se controlar e no fundo não queria – no fundo e no raso também...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Sea, que carinha é essa, paixão?, fala comigo. Ce tá chorando? Tá sim, uma lagriminha...” – Oh! Sorry, he did’t know... (e realmente não havia notado choro). But... no, nevermind... Fosse só tomar um banho pra dormirem. “Não, paixão, fala o que ce tem... Ce não tá com ciúmes de mim, né?” No, no-way! “E o que tem contigo?”. Era melhor esquecer, já tinha dito!, se falasse, era pior... O que? No, nothing left to say... Não mesmo, não tinha nada pra resolver... Ah, queria mesmo saber... Ah!... Tava bem então, porque tinha saído da casa do Jake? “Ah, Sea, se tem ciúmes dele sim!” Fizesse o favor de não fugir da pergunta já obrigou o Sea a perguntar. “Nossa, que bravo! Desculpa! Ah, porque eu larguei do Jac... Porque eu quis dar um tempo com você, você queria também...” E ela passou a gostar do Jake depois? “Sea, eu sei que você nunca acreditou, mas eu amava o Jac e amo ainda...” – sonâmbulo num vendaval tendo sonhos ruins – “...Ele é uma pessoa muito boa... É que em grande parte das vezes a gente tem que ser injusto pra ser bom, mas ele é bom sim”. E era por isso que ela amava o cara? Mesmo ele tendo comprado ela, mesmo tendo forçada-a-barra na cama tantas vezes, mesmo tendo humilhado, atormentado, sido sádico. Por que ficou amando? Por que? “Porque ele me amou de graça!” - sonâmbulo num vendaval tendo pesadelos tétricos, que se convertiam em mar e rolavam pela cara muito discretamente.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Paixão, chega disso, não fica assim, vem...” Beijou o rosto, o pescoço. Acariciou as costas por baixo da blusa e acomodou melhor a bundinha nas coxas dele. Beijou na boca, beijinho muito-muito gostoso. “Vem, paixão... Deixa de bobagem, vamo namorar que eu tou com saudade”. O Sea tinha uma “regra-moral”: nunca rejeitar mulher que quer dar mesmo que não estando muito a fim de comer, porque nada é mais humilhante pra uma garota do que ser rejeitada assim e principalmente se ela for bonita. Deixou-se levar pra cama mas não sentia a Liv agora, nem por imaginar que ela podia estar melada de amor do outro – Sea não se enojava com essas coisas, em certas situações achava até excitante –, mas porque sabia bem que o desejo dela não era espontâneo, se estivesse no lugar dela não sentiria desejo espontâneo, seduziria pra fazer parar tristezas de momento e transaria pra remediar a situação e não tocar mais no assunto da tensão outra vez. O Sea conhecia bem o significado daqueles carinhos porque foram ensinados por ele, porque era mestre nessa arte, ele-Sea que sempre odiou discutir-a-relação. E ela já estava peladinha, dando um banho de beijos, arranhando de-levinho, se tocando entre as pernas... O Sea agora devia arrancar a calça e pular em cima dela mas não dava, não funcionava nada. “Vem cá, paixão, vem me pegar...” Ah! Não ia dar... Até que seria bom, mas... não dava mesmo. Um desânimo maior que o boa-noite-do-Fantástico deixou o Sea estirado na cama... E a Liv insistindo, beijando mais, abrindo a calça dele e pondo dentro a mãozinha... Nada. Ela puxava a calça e, pra ajudar, ele terminou de tirar. E ela, gata fresquinha, deu beijo na boca e o cheiro de cigarro bateu novamente... Puta-que-pariu!, assim-não-dava mesmo! Mas ela foi beijando no pescoço e no peito e na barriga e onde interessa... Beijo demorado... habilidoso... bem chupado e bem molhado, como ele gostava... Mas nada de o corpo atender... Pensou em dormir mas achou melhor deixá-la fazer o que quisesse pra que não achasse que restou algo por tentar, mas não adiantava: com o Sea esse jogo não dava-certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-3200486358944390655?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/3200486358944390655/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=3200486358944390655' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3200486358944390655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/3200486358944390655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-37.html' title='Ato 37'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-6771281487659649871</id><published>2007-12-12T11:21:00.004-08:00</published><updated>2007-12-13T08:38:31.076-08:00</updated><title type='text'>Ato 38</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Na vida, a gente tem que ser razoável sempre, pragmático sempre. Essa é uma das mais irrevogáveis Leis Eternas da Natureza, a que se baseia no Princípio da Não-Neurose e que rege a vida do Jac. Por causa disso, ele contribui financeiramente com todas as causas sociais de que toma conhecimento, ele entra em todos os programas de incentivo fiscal, ele recicla todo o lixo (de casa e do escritório) e só trabalha com material reciclado, ele aprendeu a cultivar a maconha que consome, ele incentiva todos os funcionários do escritório a estudarem, ele faz consultoria gratuita uma vez por semana pra quem não pode pagar e muitas outras coisinhas que toda gente moderna e consciente gosta de dizer que faz... Ele teve moral inclusive pra bancar o aluguel de umas salas que serviriam como sala-de-aula pra cursos diversos a serem dados a umas criancinhas carentes de uma associação de bairro que ele nem sabe direito como chama. O caso foi que o Sea tinha sido ameaçado por certos pais de alunos que se incomodaram com os modos pouco informais dele com a molecada: não teria problema nenhum no fato de ele abraçar as crianças e dar balinhas aos que faziam a lição se ninguém soubesse que ele era homossexual (segundo a Livi, um terminho deitado no campo semântico da doença). Homossexual!, credo!, o Jac sempre achou gay muito mais simpático, mas que-se-danasse. Quando o Jac percebeu que o Sea quase se matou de-verdade por causa disso, não teve dúvida e resolveu a situação, não só por amor de presentear o namorado, mas porque a gente tem que ser razoável: arranjou as salas sob condição do Sea permanecer trabalhando, mas continuou financiando as tais salas mesmo depois de ter rompido definitivamente o namoro.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Só-que o Jac é um cara tão ponderado, mas tão ponderado que chega a ter raiva de si mesmo vez-por-outra. Hoje era assim que ele tava, com raiva de si mesmo pelo que se determinou a fazer pra resolver uma situação muito delicada, a saber, a Situação-Olívia. Ela depois de grávida voltou a morar na casa do Jac por vontade própria, e o Jac aceitou sim, mesmo não querendo mais nada com ela. Aceitou porque junto dele ela teria toda a assistência e conforto que uma grávida deve ter, ainda mais uma grávida de filho dele. A condição pra isso foi que ela se esforçasse o menos possível – o Jac não queria o mínimo incidentezinho incomodando essa gravidez. O caso foi que, por causa de problemas de saúde, ele estava enfraquecido e foi cuidado por ela, coisa que o irritou profundamente, porque ela vinha cheia de gatisses e doçurinhas e ele não a afastava pra não ser mal-agradecido: ela tava achando que tinham retomado o casamento de onde pararam, a cretina! Mas não! Não tinham, ela era só a mãe do filho dele e mais nada, ninguém mandou voltar pro Brasil e não procurar por ele, caralho! Ela só viajou porque ele deu grana!, tava pensando o que?! Que vaca ingrata! O Jac fez questão de deixar isso muito claro tão logo convalesceu completamente. Agora era assim: a Livi viveria com ele até quando quisesse, mas não viesse bancar a esposinha não porque ela teve chance pra isso e desperdiçou... É, ele não queria mais. (Se bem que teve umas duas vezes... Ah! Era um saco isso, um puta saco!, o Jac era muito dependente de sexo e, como andava muito solto e solteiro, também andava sem trepar e isso fazia uma tensão imensa se acumular na alma e nas costas, uma coisa horrorosa, rapaz!, fazia um mal! Daí, né... Teve duas vezes, só duasinhas – duas naqueles dois meses não era nada, vai! – que ela veio boazinha, de camisolinha e gentileza, não deu pra segurar e até dormiram juntos depois, mas foi só!). Mas enfim...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Acontecia que o Jac tinha capacidade pra chegar em qualquer repartição pública e botar a maior moral em todo mundo, tinha capacidade pra “negociar” um fórum inteiro se precisasse, tinha capacidade pra destruir verbalmente qualquer pessoa desse mundo, tinha capacidade pra driblar três negos duma vez quando atacava no futebol, só não tinha capacidade pra lidar com uma grávida em depressão: não sabia o que fazer e não sabia como falar e não sabia nem onde pôr as mãos (parecia que suas mãos cresciam dez metros quando via a Livizinha lamentando pela casa). Achava que ela andava deprimida entre outras coisas pelo longo tempo que passava sozinha, já que o Jac tinha essa dinâmica de trabalhar em torno de dez a onze horas por dia e ela se sentia muito fraquinha pra sair. Mas não sabia se era por isso, ela não falava, que agonia! Mas de-um-jeito-ou-de-outro ela tinha que melhorar porque isso não era nada-nada saudável pro bebê, tem mulher que até aborta de mágoa que sente nos quatro primeiros meses. &lt;br /&gt;Por causa disso tudo, precisava urgentemente de alguém com muito tato, alguém que gostasse da Livi, alguém muito maleável e divertido, alguém com horários flexíveis... Precisava do Siegfried, resumindo. E era por isso que agora ele tinha raiva de si mesmo, era obrigado a pedir favor (pedir favor, que ódio!!!) à última pessoa desse mundo que gostaria de encontrar, quanto mais pedir favor! Mas fazer o que, né? O que não tem remédio é o que já tá remerdiado! Tinha que encarar e seria agora. O telefone: chama...chama... chama...&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Hello! Quanto tempo, Jake! Ce tá bom, honey!”. _Tou. Mas tou com pressa, tenho mil coisas pra cuidar e... “Okay! E a que devo a honra da sua ligação, agora que você é o cara mais ex que eu já tive na vida?”_Tou... (sentia arranhar a garganta)... Tou... (pigarro)... precisando de você (voz entre dentes, quase um rosno). “Como? Não ouvi...” _Tou te precisando, é que a... “Como, Jake??? Fala mais alto, fala bem alto que eu não te entendi, você tá o que?” (era claro que o filho-da-puta tava entendendo, mas queria causar, obrigar a falar que precisava dele, bem crianção e vaidoso, esse era o Siegfried!)_Caralho! Já disse que eu tenho que falar rápido, eu preciso que você vá ver a Olívia... “Ela tá bem? O que-que ela tem?” _Tá deprimidíssima, tá emagrecendo muito pra quem tá grávida, vomita o tempo todo, não dorme, tá me deixando assustado e eu não sei o que fazer... “Mas ce não disse pra eu ficar longe do SEU filho? O filho tá na barriga dela e chegar nela significa me aproximar do SEEEEU filho, né?!” _Siegfried, por favor, vamos ser pragmáticos, você não sabe o quanto te ligar tá me custando... “Pelo contrário, honey, eu imagino sim! Hahahahaha... Ai-ai...” _Tá, tá bom, aproveita o gostinho, mas me diz que vai lá amanhã! “Na sua casa... Unh... Não vai dar, tou no Rio, tou com a Aimée, tou bem, não tou afim de me stressar... Esquece, liga pra outro” – e a vozinha sarcástica fez um terremoto se levantar na alma do Jac, ele tava quase gritando, teve de respirar fundo várias vezes pra se acalmar – “Jake, ce tá bem? Tá aí ainda? Se controla, Jake, olha o coração!” – (Pois-é, o coração...) _Sea, meu querido! Eu pago a porra da ponte-aérea pra você se for o caso... “E me pega no aeroporto também, honey?” _Eu te pago um táxi, não tou podendo te ver ainda! E nem me vem com papo de tá-com-medo-de-mim-ou-de-você porque não vai rolar. “Tá, e o que-que eu ganho pra servir de dama-de-companhia pra sua mulher?” _Ela não é minha mulher. E fala o que você quer logo, vai, qualquer coisa que eu possa pagar eu... “Que pagar o-que, meu! Tá pensando que tá falando com quem? Pra começar pára de falar grosso comigo que eu não gosto. Da última vez que a gente se falou você ainda tava mal no hospital e mandou um sai-da-minha-vida que acabou comigo e agora vem pedindo coisa. Só que nada do que você pode pagar me interessa. Eu quero o ver o DNA do bebê quando nascer e vou registrar se for meu, vou criar e tudo mais. É isso que eu quero”. O Jake, que já tinha perdido a calma, quase perdeu a cabeça. O Siegfried queria acabar com toda a vida do Jac mesmo, de qualquer jeito!, quis a mulher, quis a paz de espírito e o corpo do Jac, agora queria o bebê, ele simplesmente não tinha limite, devia ter nascido pra ser o descaminho do Jac. A gastura no estômago começava cedo: _Escuta aqui, Siegfried, isso tá fora de questão. Se tiver como negociar a gente continua conversando, do contrário, eu te chamo de novo pra cuidar da Olívia quando ela perder o bebê. Larga de ser egoísta – começou a achar que o Siegfried tava mais retaliando que querendo ser pai, mas se fosse assim, tanto melhor. Como ele não respondia, o Jac continuou, depois de uma boa pausa pra pensar: _Olha, você pode encontrar o bebê durante a semana sempre que quiser, a Olívia não morar comigo pra sempre, quando ela sair da minha casa você... “Ah!, você não vai querer criar? Achei que sim. Repensa isso aí porque se a Lívia nem queria ter, é provável que ela queira que ele fique com você se for teu mesmo...” _É meu! Mas isso cabe a ela, ela é mãe. Se ela não quiser é claro o bebê vai morar comigo, daí você vê de final-de-semana. Mais que isso não vai dar, eu vou registrar de qualquer jeito e vai ser melhor pra todo mundo, principalmente pra criança que vai ter de tudo...&lt;br /&gt;“Principalmente pra você, né? E ainda me chama de egoísta... Olha, eu não sei, viu... Não sei... Isso não é muito justo, talvez seja melhor mas... Sei lá... Ce sabe se a Lívia quer me ver por um acaso?” _Ela precisa... Ela precisa de atenção, Siegfried. E ela gosta de você, não tem porque não querer. “Tá, e ela não tá com você, deve tar facinha-facinha, e isso significa que eu posso comer, né?” Sem dúvida, tudo o que falava era pra desconsertar! – Na minha casa eu preferia que não, mas como eu não vou ter como saber, então, faz o que ce quiser. Única coisa, não quero te encontrar lá então vê se se-manda antes de eu chegar do trabalho. Eu vou mandar grana na tua conta hoje, você pega um avião, um táxi e chega aqui amanhã pela manhã. Se for dormir em Guarapiranga, vai de táxi também, tá?! Agora eu tenho que trabalhar, qualquer coisa, ce me liga. “Olha, eu não devia, mas eu vou aceitar que você arruíne minhas férias...” _Ah, deixa de cu-doce! Eu sei que ce quer vir... Até mais! – o nervoso passou de repente! “Saudade, Jake! Tchau...” – o tchau nasalado soava como te-amo e o Jac respondeu “também”, por pura força do mau-hábito (será?) e bateu o telefone, meio arrependido, meio com saudade mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-6771281487659649871?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/6771281487659649871/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=6771281487659649871' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6771281487659649871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/6771281487659649871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-38.html' title='Ato 38'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7561771345209215713</id><published>2007-12-12T11:21:00.003-08:00</published><updated>2007-12-13T08:39:12.984-08:00</updated><title type='text'>Ato 39</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Estavam nuas, completamente nuas, deitadas sob o sol que incidia na cama de casal, uma sobre o corpo da outra, enlaçadas. Era um prazer tão delicado estar ali, apenas estar, sentir quente na pele a respiração dela e constatar a cada segundo que estava viva e emanava vida pelas narinas... E também pelo pulsar das veias mornas e pelo brilho dos longos cabelos. Tão linda, tão linda... Como era linda, linda de vida. Ela agora mudava de posição, apoiava os dois bracinhos nas costelas da Livi e checava seu rosto com uma curiosidade divertida, abria os imensos olhos de mel que devoravam a cara toda da gente, a gente se sentia dentro dela sob o efeito daquele olhar, era como se o mundo dela se fosse enchendo da gente e de tudo mais que ela engolia com as ajustáveis pupilas de gata. Examinava a Livi com cuidado de cirurgiã... Agora descerrava os finos labiozinhos, diria alguma coisa certamente (a Lavínia não conseguia estar sem falar por muito tempo). “Você não tem cara negra de verdade... Nem boca, nem nariz... Nem a cor do olho, só o formato mesmo, e a pele...” – e os comentários dela eram sempre imprevisíveis! Ah, não tinha mesmo porque não era negra, era mulata. A mãe era branca, os avós eram franceses, só o pai que era negão. Mas ela-Livi não se identificava muito com coisas da França porque não teve contato nenhum com a família da mãe. “E... que-que é se-identificar? É tipo coisa de identidade?” Olha, mas que espertinha!!! As palavras vinham do mesmo lugar mesmo! Identidade de documento era o papel que dizia que a gente era igualzinho à foto e o nome que tava ali o governo reconhecia. Agora, isso que ela tinha dito era o seguinte: se a gente via num lugar ou numa pessoa ou num povo umas coisas que a gente acha que faria bem igual ou de que gosta por se parecer, era que a gente se identificava com a pessoa ou o povo ou o lugar, tava entendendo? Os olhinhos amarelos giravam para todos os lado e sorriam, sem que a boca acompanhasse. Sim, havia entendido... Tão inteligente! “Unh... Eu acho o papai mais bonito, mas eu acho que identifico mais com o Tio-Zigue”. A Livi deu um sorrisinho, era ME-identifico, tinha que falar assim. Mas tinha entendido, era isso sim, se ela se achava mais parecida com o Sieg era porque se identificava com ela. “Mas o papai é mais bonito”. Ah!, ele era lindo sim, sempre foi. Ela-mamãe, a primeira vez que o viu achou a coisa mais bonitinha desse mundo, ele parecia ator de Hollywood. Os olhos de mel continuavam caminhando, agitados. “O Tio-Zigue falou que Hollywood só faz filme ruim com ator canastrão, hahaha!” Ai!, não era só assim, o tio Sieg era muito chato! Mas, lá-entre-elas, o papai tinha mesmo um puta jeito de canastrão, hahaha! Mas as mulheres gostam de canastrões, todas elas. Ela-Lavínia um dia ia ficar gostando de algum também... Riam. Livi deu um tapinha na perna da Lavínia, pra que ela se sentasse, porque estava ficando pesada demais. Melhor agora, estavam uma em frente a outra, podiam se olhar. E a mamãe, era bonita também? A opinião da menina era tão importante pra Livi! Foi se tornando à medida em que ela crescia. Livi sempre gostou de ser bonita, mas com a Lavínia era diferente, com a Lavínia podia estar nua, muito nua, como sempre havia gostado de estar. As duas, nuas, se vendo e brincando de descobrir mudanças nos corpos, a nudez dessexualizada e bela e fresca, o amor porque a Livi procurou por toda sua vida, beleza de ser e estar. E a Lavínia, meu-deus, tava se tornando uma moça linda! Os seiozinhos despontando acima de uma cinturinha tão fina, os quadris já acentuados, a bundinha bem redondinha, os braços longos e os cabelos, nossa-senhora, que cabelos ela tinha!, pretos-muito-pretos, ondulados, rebeldes, emoldurando a cara clara. Seria uma verdadeira deusa em menos de três anos e a Livi se enchia de jovialidade e alegria, resgatava toda a beleza de sua vida, esparsa sem presença feminina.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;A Livi se sentiu culpada por muitos anos da vida, por não saber onde se encaixar na vida da Lavínia: o Jac, o Jac era prático, cuidava das tarefas dela, das broncas, das questões de escola e de socializar com outros pais, ajudava a estudar, impunha limites. O Siegfried foi morar com ela no reino das fantasias, sabia toda a sorte de brincadeiras e musiquinhas, conhecia os desenhos de que ela gostava, levava ao cinema e ao teatro e ao parquinho, contava histórias que inventava na hora, todas diferentes umas das outras, se pintava todo e criava personagens, mas sempre tendo o cuidado de conversar com a Livi e o Jac o que podia ou não ser dito e ser feito, mesmo depois de se terem separado. E ela-Livi? Ela não tinha o que o oferecer. Não era muito ciosa pra tomar conta ou chamar atenção, não era muito lúdica pra divertir... Achou por muito tempo que a menina era de fato filha do Sea com o Jac e ela apenas emprestou o útero, foi como sentiu, mesmo porque, quando bebê a menina não se parecia nada-nada com ela e só gostava de estar com o Jac ou o Sea. Dava medo, dava mágoa... Mas a garota foi crescendo e a partir dos nove anos, não quis mais ser o moleque que vinha sendo, sentiu necessidade de ser bonita, de ser uma mulherzinha mesmo. Sim, isso sim, era isso, eram mulheres, as duas... Lindas! Olívia então a ensinava a dançar, ensinava a se arrumar e tempos depois, sobre os homens e verdades, sobre as mulheres e segredos, sobre sexo. Revelavam uma pra outra coisas que papai e tio não podiam ouvir, ficavam nuas quando eles não podiam ver e dançavam, dançavam envolvidas por ventos como umas virgens de Ártemis,  momentos particulares, só delas – Não pode contar! – só meninas podem ter porque mais ninguém entende o que é ficar pelado de-verdade.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;“Você? Você é bonita sim, é a menina mais bonita...”, mas nada, a Lavínia é mais bonita sim! – “Nada, é que você tem esses peitos! Hahaha! O papai fala que eles são épicos. Que-isso?” Ah, era assim: tinha o lírico, o épico e o dramático. O dramático era, tipo, teatro, drama. Daí tinha tragédia e comédia, que sabia o que era. Tipo o seu tio Sieg... “É, ele é mó-drama mesmo” – ria. Então, tinha o lírico, que era uma coisa mais individualista, mais de sentimentos, que trabalha a forma, sabe, mais poesia... “Tipo o papai...” Uáu! Isso... E daí, tinha o épico, que era uma coisa bem bonita, contava a história de um povo! Muitas vezes tinha guerra no meio. O pai falava que ela tinha os seios épicos porque eram grandes, ele dizia que valiam toda uma saga heróica, xaveco! “Uhn...” – ria e se lenatava, começava a se girar em torno próprio – “E você acha que um dia eu vou ter uns peitos... épicos que nem os seus?” Livi também começava a dançar. Ah, teria sim, certamente teria peitos belíssimos. &lt;br&gt;&lt;br /&gt;Parava. “Mãe, me fala uma coisa, história de que povo é o seu?” Nossa, pergunta inesperada. A Lavínia tinha isso de ser surpreendente! Qual história? Tinha que pensar pra dar resposta boa agora. Ãh... Moçambique! Ela conhecia? Era a terra do vovô, ficava na África. Teve ocupação de europeus lá, e um dia se lutou por liberdade mas quando conseguiu, o país era muito dividido e teve uma guerra civil... Te dou um livro que conte melhor do que eu, amor! “Ah, África eu sei um pouco... o Tio-Zigue que me contou, ele também é de lá...” Como assim? Ele contava a vida dele pra ela? Como tinha sido isso? Ele nunca falava pra Livi e nem pro Jac... A Lavínia ria, carinha de orgulhosa por ter um segredo com ele. “Ele contou só pra mim porque eu obriguei...” – ria – “...e eu não posso contar, só se ele deixar. Mas ele é dum lugar da África, é Senegal, mas ele foi depois pra África do Sul e Moçambique também, daí ele veio pro Brasil. É isso”. Olívia não achava que era verdade, o Sea tinha milhares e milhares de mitos fundadores da própria personalidade, mas achou esse especialmente bonito e esteve feliz por saber que havia uma ótima razão pra estar junto pra sempre.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7561771345209215713?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7561771345209215713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7561771345209215713' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7561771345209215713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7561771345209215713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-39.html' title='Ato 39'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-9047198389740360928</id><published>2007-12-12T11:21:00.002-08:00</published><updated>2007-12-13T08:40:15.899-08:00</updated><title type='text'>Ato 40</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;“Não, Lavínia, nem pensar...” – dava a sensação de um vácuo bem no vão das costelas que sugava o resto do corpo pra dentro ouvir uma coisa daquelas – “Eu não gosto de falar assim com você, ce sabe disso, mas você folgou demais... Não... Lina, não complica, não retruca que é pior... Nem-mas-nem-meio-mais, vai deitar... vai deitar sim e vai agora. Tá vendo que coisa mais burra é você não fazer cumprir nossos acordos? Agora tem que passar por isso! Olha só, a gente veio pra casa do Sieg, veio pra vocês verem filme até mais tarde numa-boa e agora não vai poder. E por que? Porque eu te falei que queria aquela apostila completa e, além de não fazer nada você ainda tentou me enganar, mocinha. Agora, vai pro quarto! Vai aprender a ter mais respeito pela sua mãe e por mim”. Olhava pra cara do Sieg que tava em pé bem ao lado, devia estar buscando intimamente uma aprovação, mas ele esquivava os olhos, sabendo que a menina também pedia defesa contra o carrasquíssimo pai. Mas o Sieg não tinha jeito pra dar bronca, quando a Lina chorava ele chorava junto, era patético! Agora, por exemplo, tá sentindo o peso do castigo que do Joáo contra si mesmo, como se ele tivesse deixado de cumprir a tarefa. Mas a verdade era que não dava pra desautorizar o João, se ele castigava não era à-toa. Agora a Lina olhava pra o Sieg e o transformava em gelatina, mole e sem-graça e transparente. Mas não podia falar nadinha! Ai-ai-ai, que angústia! Bom, já que ela tinha de ir dormir, podia acompanhá-la até o quarto. “Tio-Zigue, eu não sou criança, não preciso de gente pra me por na cama” – toda ofendida! Nossa, que horror! A senhorita desculpasse, só queria se despedir dela... Não fizesse bico!&lt;br /&gt;“Sieg, eu vou pra varanda, enfia essa menina no quarto e vem pra cá depois rapidinho. E você, não faz cara de zanga, Lina. Te amo, tá?! Me dá um beijo... Ah, não vai dar, malcriada? Então não dá! Vai logo dormir.” Foram, o Sieg a seguindo até o quarto. Ela não devia ficar tão emburrada assim se sabia que o Joáo não ia perdoar pela falta da lição – ele nunca permitia que ela deixasse lição por fazer. “Mas eu não ia dormir fora nem nada, Zigue! Ia só ver filme com você, podia fazer tudo amanhã de manhã... mas ele é mala! Ele gosta de encher, dá mó raiva dele” Não era caso de raiva, mas o Joáo não gostava que tentassem tapear, ainda mais ela-Lavínia. Agora, por-favor, pra não causar mais, ligasse o som baixinho, fizesse aquele exercício de respiração que ele tinha ensinado e dormiria rapidinho. Daí acordava cedo, o Sieg podia ajudar com a lição de inglês e de história (o Siegfried fez questão de aprender história só pra ensinar a ela) e pronto, teriam todo o domingo pra ver filmes – e ele tinha baixado uns ótimos. Tava bem?... Ah!, então tava bom! Repetisse: See you tomorrow! “Tá, Zigue... See you tomorrow”. Selinhos nos lábio e boa-noite.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Ia encontrar o Joáo agora. Mas que mal estar!, precisava falar disso. Tava ali o Joáo, fumando no terraço da casa, de cara pro reflexo das luzes caseiras nas águas da represa. O Joáo tinha voltado a fumar fazia uns tempos, devia estar muito tenso. Tava tenso? “Ah!, tou, cara!... A Lavínia...” – sempre a Lavínia monopolizando a atenção dele – “A Lavínia, ela deve me odiar! A única coisa que eu sei dizer pra ela é não e não e não! Nunca eu deixo nada, eu só treto, ela deve me odiar...” – tava com uma voz de acabado, parecendo um velho no momento mais charmoso da vida que é a meia idade e o Sieg, que tinha um amor quase transcendental pelo Joáo, se sentia corroído por isso – a idade ia chegando e deixando o Siegfried cada vez mais emotivo, quase um babão! Apoiava a mão no ombro do Joáo pra dar uma tranqüilidade: era claro que a Lina não o odiava, ela não odiava ninguém. Era só um pouco impulsiva, meio flutuante, mas ela amava o pai, não precisava ter medo... Mas o Joáo se virava de súbito e o encarava com olhar noturno: “É que eu quero fazer tudo certo, eu quero que ela faça as coisas direito, mas eu não quero ser pra ela o que o meu pai foi pra mim. É lógico que eu nunca odiei o meu velho, mas cara, eu não tenho a conta de quantas vezes eu desejei de Deus abreviasse a vida dele... Sabe... Não sei nem se eu quis de verdade ou não, só sei que quando ele morreu foi um alívio...” – uma voz de mágoa! O Sieg achava que era nóia de ser sempre o super-homem-perfeito em tudo, mas agora dava pra entender a insegurança dele. “Pois-é, Sieg, se não tivesse você pra ser legal com ela, ela ia ser a menina mais sozinha do mundo. E a Livi é legal, mas não sabe brincar nem nada, ela tão séria, eu nem sei do que as duas falam quando tão sozinhas... Eu sou um pai horrível!” Nossa, parasse com a auto-piedade... “Sério, cara! Se alguém como você tivesse perto de mim quando eu era moleque, teria sido muito mais feliz...” A sinceridade do Joáo foi comovente e o olhar do Sieg se encheu de mar – (fosse uns anos atrás, ele não admitiria nada daquela ordem nem que a vida dependesse disso). Desculpasse, esses papos sobre criança emocionavam. Ai!... Mas não se preocupasse, a Lina era louca pelo Joáo, tinha o maior orgulho dele, falava pra todas as amigas que tinha o pai mais bonito e inteligente, amava sim. E ela não era boba, sabia distinguir uma bronquinha de uma sacanagem, sabia até que tava errada nesse caso de hoje. Era esperta a danada! Teve um dia que ela tinha vindo com umas perguntas super... Mas o Joáo já tava fora do ar, dava pra ver pela cara que já não prestava atenção. Longe... Hey, queria o Sieg ali ainda? Preferia ficar sozinho? Não? Queria andar um pouquinho?, podiam descer a estradinha de terra e margear a represa, que tal? Então fossem.&lt;br&gt;&lt;br /&gt;A lua era crescente, fazia um tempo fresco, sem vento e um cheiro gostoso de mato subia, parecia eucalipto ou pinus, sabia lá. Mas o Joáo só queria saber de ver o chão, nem falava... Tava tudo bem? “Parece que sim, mas eu acho que não tou não... Mas não aconteceu nada, nem sei porque-que tou assim, faz tempo...” Certo... Tava tudo bem com a Lívia? “Tá... tudo bem... Ela é... incrível” – voz de desgosto trancando um grito estrondoso no porão do peito. Ah!, ela era incrível? Por que? “Ah, é legal, inteligente... Tá ficando cada dia mais bonita e gostosona... Tá publicando o livro dela... Ela é boa pra Lavínia... Eu é que sou um filho-da-puta... Cara, eu... eu traí ela” – silêncio, silêncio denso de como-assins e por-ques. O certinho do Joáo tinha traído? Era mesmo? “É... Que foda, né? Nesse tempo todo... A gente voltou quando a Lavínia nasceu, vai fazer aí uns treze anos... Nesses treze anos eu tive... quatro casos... E eu acho que a Livi desconfia...” Desconfiava? Como-assim “desconfiava”? A Livi sabia, sabia perfeitamente. Os quatro casos tinham sido com homem, não era? Não era isso? “Ela sabia? E te contou?” – espanto, olhos imensos atrás das lentes de cristal. Sim, ela soube de todos no tempo em que aconteciam e contou pro Sieg porque sempre foram os melhores amigos. Mas ela não tinha ficado triste, só lamentava as tensões que o João passava com os caras, mas entendeu, ela sabia que ele era gay... “Nossa!, eu nunca quis humilhar ela...” e não tinha, ela nunca tinha encarado a coisa assim, pelo-amor-de-deus, né?! “Mas é que pra mim essas coisas não se resolvem fácil assim, Sieg, eu não sou que nem vocês... Você, ela, a Lina...” – mais silêncio reticente... Sob a suave luz lunar os olhos do Joáo não eram tão negros assim e o Sieg teve a sensação que se lançasse qualquer sementinha naquela alma impenetrável, dessa vez brotaria, talvez ele já não fosse tão duro. Curioso: por causa da Livi e da Lina, o Sieg encontrava o Joáo quase toda semana mas eles nunca conversavam, havia anos e anos que não tinham um a-parte, mesmo sendo gentis e alegres e se gostando e tudo-mais. Só agora o Sieg se dava conta do imenso tempo em que estiveram de espíritos divorciados... “Mas e a Livi? Você acha que ela me traiu? Ela te contou?” Ah! Então... Se tivesse sido com ele-Siegfried, seria traição? O Sieg esperava que não porque teve umas tardes de sexo ocasional com a Livi umas de vezes e em todas o João viajava porque o Sieg se recusava a transar sem dormir junto dela depois e sempre muito por-acaso e não teve penetração mesmo na maior parte delas e... “Tá-bom! Eu imagino o que você tiveram”. Então não fizesse aquela cara de ciumento, não tinha nada-a-ver e a última vez tinha sido havia mais de dois anos. Não era ciúme dela, era? “Não, Sieg, não mesmo... Ah!, deixa pra lá. E você, como anda a sua vida?” A voz de cansaço do Joáo quebrava as duas pernas que qualquer um que o conhecia tão enérgico. Mas não falaria mais sobre isso. A vida do Siegfried? Tava bem, tava calma. A Lina tomava quase todo o tempo que tinha pra pensar e isso dava paz lá dentro. E agora também já tava muito acostumado com os remédios, nunca mais tinha deixado de lado depois que a menina nasceu... Uhn... Não tinha mais levado ninguém a sério desde que o Marcos tinha morrido... Cacete, ele fazia uma falta danada! Mas até que tinha superado bem, os remédios ajudavam bastante nessas horas! Andava cansado, não fazia mais balada, só quando ia assistir as apresentações dos alunos... Não fazia muito sexo na verdade, quem diria né? Mas o corpo já dava sinais de cansaço sim... Claros sinais! “Cara, ce não tá transando? Não acredito mesmo, cara, que maus!...” Mas era verdade e fora isso, não tinha muito ânimo pra one-night-stand e nem pra começar um caso do zero... Tava velho, era isso, já tinha passado dos cinqüenta, né? Também não queria namorar gente novinha mas era só o que aparecia, assim preferia ficar sozinho. Mas não era tão maus não, seria se sentisse falta de sexo, mas não sentia. “Sorte a sua, viu! Eu não consigo, eu sinto sim... Achei que ia parar de sentir ficando mais velho mas...” Ah, o Joáo ainda tinha muito tempo até alcançar a idade do Sieg e como ele nunca se estragou nessa vida que-nem o Sieg, era provável que nunca perdesse o clima... Hahahaha! Mas ele e a Livi não andavam transando? Tava achando que sim... “Eu transo com ela... E é legal. Mas eu... Eu nunca tou na-boa, tou sempre pensando em comer mais alguém...” Olhasse, o erro dele era achar que ser marido e pai resolveria a vida e tava se esquecendo de que já era gay muito antes de ser marido e pai, não era? Nunca seria fiel porque não queria mulher, queria homem... Até ele-Sieg, que sempre foi uma louca-assumida, tinha mil vezes mais tara em mulher do que ele! “É, eu sei, eu sei... O Cláudio me falava isso direto... E tava certo, né?” O Cláudio...Tinha sido com aquele japonês um dos casos, né? E por que eles tinham terminado? “Porque eu na verdade... Eu gostava de... de outro cara...”&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;A última frase do Joáo ficou se roçando no pé-d’ouvido do Sieg, como se soprasse alguma doçurinha no pescoço, lambesse a orelha... Era bom estar com o Joáo ali, em casa, a filha dormindo e a Livi viajando por conta dum congresso. Pareciam um casal, um casal de verdade e não aquela aberração que eram quando estavam juntos, aquele amor difícil, doído, aquele desejo insano. Não, um casal, quase como era com o Marcos. Já fazia tanto tempo que o Sieg estava sozinho que o conforto repentino da situação deu uma narcose na alma que trouxe um sentimento que não tinha nome e nem era sentimento mesmo: um suspiro traduziria o que ele sentia melhor que qualquer palavra e por isso suspirou... Ahhhhhhhhhh... Fundo! Ahhhhh... Ia dar um abraço no Joáo, que se-fodesse se ele pensasse besteira, já não tinha mais tempo a perder se preocupando com o que os outros podem pensar. Abraçou, era bom, muito bom! Olhou no rosto dele, reparava uma certa surpresa ali, uma jovialidade que não havia há cinco minutos atrás, dava pra se ver o pulsar rápido da jugular. E o Sieg também se emocionava mas não tinha nada o que falar. Soltou-se delicado do abraço mas permaneceu segurando na mão. &lt;br /&gt;Agora, depois de vários minutos, ocorria uma questão que talvez ajudasse: ele já tinha pensado em se separar da Lívia? “Ah, já... Já sim, várias vezes. Mas tem a Lina, se eu separasse da Livi ia ficar com quem? Pra ter outra mulher eu prefiro a Livi mesmo, eu gosto dela, a gente se dá bem”. Ah!, a Lina de novo... Olhasse, esse raciocínio faria sentido se a Lina fosse criancinha. Mas ela tava grande, não era ingênua e muito-pelo-contrário, sabia o que era sexo e sabia o que era gente gay. E sabia, inclusive, que o papai e o titio eram bichas. O Joáo nem parecia espantado: “Tou ligado, a Livi que contou essas coisas... Disse que a gente se apaixonava e namorava quem queria, sem ligar se era homem ou mulher, e ela... Ela achou meio normal... Foi um papo que eu ouvi no ano passado. Eu nem achei ruim com a Livi, sempre achei que ia ser melhor ela saber, mas eu não tenho coragem de falar disso com ela...” Que medroso bobo, hein! Riram... riram... riram &lt;br /&gt;de novo. Agora pararam. Mas então, se o problema não era mais a Lina, era só... “Eu não vou terminar com a Livi, só se for pra casar de novo... E eu não vou casar de novo assim, com qualquer um...” O Joáo tinha um olhar firme e hesitante, dava pra farejar medo em redor dele, medo de criança em quarto escuro. Tinha mudado muito nesse meio-tempo em que não se falaram intimamente, tinha perdido o ar impositivo na fala e nos olhos, era mais paciente e menos nervoso, falava em tom mais baixo e menos cáustico... E tinha deixado crescer o cabelo gris e uma barba linda, que aparava com todo cuidado (porque ele nunca deixou de se gostar gostoso!). Naquele momento o Sieg daria tudo pra adivinhar no que o outro atinava. Não quis perguntar pra não ser invasivo, mas depois nem careceu: &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Sieg, eu não sei o que você vai pensar mas... Eu quero saber uma coisa: se eu te pedir em casamento, casamento mesmo, com papel e tudo, você casava?” Ah, nem em mil anos se pode prever uma coisa dessas, nunca, nunca! Meu-deus!, casar com o Joáo? Caralho!!! Tanta imagem rápida e estranha passou pelos fechados olhos naquele segundinho, tantos trechinho de músicas, tantos poemas, tantos filmes... Tanto tudo na vida, tanta vida... Vida que já tinha dividido havia tempos atrás... Vida... Era loucura, só podia ser... “Sieg, é sério, eu só caso se for com você, eu sempre gostei de você, eu não dei certo com os outros porque eu quero você”. Mas como-assim? E todos aqueles anos só se tratando como padrinhos?, maior distância! “Ah!, foi-mal. É que eu sempre tive medo, preferi ficar longe mesmo, mas não precisa ser assim, eu não tou mais com medo...” Tudo-bem, tudo-bem, era que tinha sido muito intensa aquela proposta, tava demorando pra entender... “Então não me entende, me ama. E casa comigo, eu apronto o meu divórcio em coisa de duas semanas e nossa palelada em uma. Daí eu venho morar aqui com você e com a Lina, a Livi fica em casa e vem ver a gente...” Mas esperasse, ainda não tinha casamento gay legalizado no Brasil não-senhor... Ria, sem saber do que, ria... “Declaração de união estável existe pra isso mesmo. Olha, se quiser pensar, tudo bem, mas me fala se quer ou não, se pode ser...”&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Pensar porra-nenhuma, era claro que queria!... Era tudo o que queria havia anos!, casar com um dos pais da própria filha (podia até ser c’os dois), porque amava os dois. Mas assim mesmo pediu uma semana de prazo (tendo o cuidado de beijar na boca pra afastar inseguranças): precisava pensar que os depois têm depois, queria dar um jeito de fazer tudo certo dessa vez.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-9047198389740360928?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/9047198389740360928/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=9047198389740360928' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/9047198389740360928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/9047198389740360928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-40.html' title='Ato 40'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2702714525068519312.post-7975079925315801477</id><published>2007-12-12T11:21:00.001-08:00</published><updated>2007-12-13T08:40:44.918-08:00</updated><title type='text'>Ato 41</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#ffccff;"&gt;Amor é coisa que a gente não sabe o que é. A gente sai amando, sai falando de amor, sai fazendo amor por aí, sabe até o que é amar mas saber o que é amor, vix, isso é muito difícil! Mas vai chegando uma certa idade em que essas coisas não têm mais muita importância, definições se tornam um palavrório inútil e gastador de tempo. O Sieg sempre foi um cara que pensou muito sobre amor, mas agora não mais, agora ele só amava e quase não realizava os amores. Amava, amava, amava. Amava a Lívia (que agora estava dançando com a Lina lá dentro), amava o Joáo (que agora estava preparando uma salada de verão pro jantar), amava a Lina (que estava sempre em todo lugar, tava lá dentro agora mesmo e já se materializou bem ali, juntinho). Ela assustava aparecendo assim! “Uhn, desculpa, Zigue!” – ela só não chamava de tio quando os pai não viam – “Tou fugindo da mamãe... Ih, ela me achou... Ah!” Gritava e saía correndo. Não custaria pra Livi aparecer... e dito-e-feito: “Sieg, se ela voltar, segura! Ela vai tomar um banho antes de comer, o Jac fica puto quando ela vai jantar suada desse jeito, com terra no pé...” Tava bom, segurava sim... Segurava nada! Hahaha! Gostava de permitir à Lina tudo o quanto queria (era como se vingava do Joáo, que além de ter querido ser pai sozinho, ainda era muito chato com criança!). Talvez fosse infantil da sua parte, mas que se-fodesse!&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos o Joáo não afastou o Sieg do convívio deles – isso acontecendo teria dado à vida um rumo bem outro, talvez nem estivesse vivo até agora (cuidar-se de-verdade foi um compromisso que assumiu com o Joáo logo que a Lina nasceu: ela tinha que viver no meio mais saudável possível). E foi muito bom, tendo por parâmetro o que a vida do Sieg foi até então, nada podia ser melhor do que estar sempre bem e pertinho da Lina... E dos pais também, como não? Mas o que o Siegfried queria mesmo era viver junto, morar na mesma casa, ser casado com eles dois e pai da Lina. Mas, como diria o Joáo, essa era questão cujo mérito era prejudicado: era libertarismo demais pra cabecinha burguesa do bom-pai-de-família (ele ia chamar de libertinagem, o nojentinho, hahaha). Mas tudo bem, fosse como fosse eram uma familinha muito simpática. Se dava muito bem com o Joáo, embora ele fosse um tanto distante sempre. Se dava muito bom com a Livi, ouvindo e chorando mágoas com ela e até dando uma namoradinha esporádica e sem conseqüências, bem raramente... Mas era a menina que valia a pena mais que tudo, ela era linda, tão linda, inteligente, tão viva! E o amava por tudo e por nada. Era isso: ela esverdeava o futuro, reluzia o presente e justificava o passado (passado tão íntimo que nem ele conhecia direito). Cada dia, cada mau-passo, cada alegria, cada instante de prazer, cada informação, tudo que havia vivido, tudo, tudo havia sido preparação, pintura do cenário espiritual onde a Lina atuaria até que sua luz dos olhos não mais pudesse brilhar a sobre ela, o dia do fim dessa porra-toda tão destemperada que é a vida.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Oiêêêêêê! Voltei, a mamãe me achou, me lavei rapidinho e a gente vai jantar. Mas será que você convencia o papai a fazer tipo jantar americano? Porque eu não queria ir pra mesa, queria ficar aqui fora, tá calor...” Claro, podia falar com o Joáo, mas se ele dissesse não, era não, tava bom? – franzia os olhos e exibia os perfeitos dentinhos num sorriso extasiante! Nossa, que menina! Iam pra dentro agora, ele na frente, escondendo o corpinho dela. Propunha o jantar no terraço... Mas o Joáo deixava, olha-só, deixava sim! Ele sempre era benevolente, mas só aos fins de semana, esse era ele: austero e correto, mas dava propininha quando convinha, era bom marida e tinha seus casinhos secretos, deixava a filha bagunçar, mas só aos findes... Ele nunca mudaria, ai-ai!... &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;O jantar foi agradável, a Lavínia atraindo sobre si todos os olhares e suspiros e expressões de admiração, ela era irresistível mesmo! Vinha se tornando parecida com a mãe agora, o corpo, o rostinho... Mas antes, era diferente. Por vezes não dava pra dizer que não era do Joáo, por vezes não dava pra dizer que não era do Siegfried. Hoje ela era a Livi escrita, a não ser pela cor da pele e olhos, Lina-Livi, um poema vivo em eterno movimento. Poderia gastar a vida olhando, olhando pra ela... E não seria vida mal gasta não! &lt;Br&gt;&lt;br /&gt;“Sieg, Lina, vamo entrar pra ver filme?” – Lina não queria, preferia tomar o vento da noite, sentar nas pedras perto da represa, ver a lua. Podiam deixá-la com o Siegfried, veriam o filme outra hora. “Tudo bem, sem problema, mas não andem sem sapatos pra imundar a cama de terra”. Em uníssono: tá-bom-papai! E nem bem entraram os dois: “Oba, Zigue! Legal! Faz o Zigue-griot pra mim agora?” Uáu! Fazia tempos que não sentavam fora pra que ele contasse estorinhas – o griot particular dela, vê se pode!, griot particular... Que bom!, reviver a infância dela um pouquinho... E que tipo de estorinha ela queria ouvir? “Alguma que meus pais não podem saber que você contou...” Vix, ela queria era confusão, né? Mas tudo-bem, fossem juntos então trazer lenha pra acender fogueira que uma situação-griot exige fogueirinha.&lt;Br&gt;&lt;br /&gt;E foram e acenderam fogo e se sentaram um de frente pro outro, o fogo entre eles, o Sieg de atabaquezinho entre as pernas pra alguns efeitos sonoros incidentes. Pensava agora na melhor história secreta pra se contar, pensava em sua vida, sua própria vida. Seria que ela queria saber? “Quero, começa contando de você e da mamãe que eu sei que vocês namoraram. Porque-que ces não casaram?” Ah!, ele até tinha querido se casar com ela, mas ela teve de morar em outro país por conta do trabalho e quando ela voltou, o tio já namorava outra pessoa... “E você já namorou o papai também?... Não, tem que contar! A mamãe já disse que o papai também namorou com meninos. Você namoravam?” Ai-ai-ai... Tinham se amado muito na verdade, se amado muito mais do que é permitido amar aos simples mortais. Mas não dava certo, eram muito diferentes. Daí o Sieg gostou muito do tio Marcos, lembrava dele? Sim? Bom! Então, e o papai gostou muito da mamãe... Foi a única pra ele, sempre foi só ela. “Ai, conta como aconteceu, deixa de ser chato! Tem chance de eu ser sua filha?” O Sieg, que esperava por aquela pergunta desde o nascimento da garota, não hesitou: ela era filha dele, claro que era, de alma e coração. Agora ouvisse, se queria saber das coisas, não podia ser só isso, tinha que acompanhar toda a extensão do mar, que o mar era muito maior que o que se podia ver da praia. Então... A mamãe já tinha dito o que era Karingana? “É o era-uma-vez da África, né?” Quase isso, é o era-uma-vez de uma das línguas de uma das muitas nações da África. Mas deixasse isso pra lá. Batia os dedos sobre o couro esticado com suavidade, inspirava forte. Karingana-ua-karingana: era uma mulher comunista, de um lugar que não existe mais como ela queria, a Iuguslávia. Ela se mudou pro Senegal, que é na África, e um dia conheceu a tia Aimeé por lá. Elas se apaixonaram e tiveram um filhinho que chamaram de Siegfried. Mas a mulher – o nome dela era Kiska, ela gostava de guerras. Então foi pra África do Sul com mulher e filho, pra fazer política... E de lá pra Moçambique. Mas a Aimeé era uma artista e não tinha estômago pra nada daquilo, queria ser feliz e ser mãe... Foi embora então... Foi pra América... E levou com ela com o Siegfried, esse griot que lhe falava... ... ...&lt;Br&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto! Acabou!!! Já-era!!!&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;FIM&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2702714525068519312-7975079925315801477?l=praiadalina.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://praiadalina.blogspot.com/feeds/7975079925315801477/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2702714525068519312&amp;postID=7975079925315801477' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7975079925315801477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2702714525068519312/posts/default/7975079925315801477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://praiadalina.blogspot.com/2007/12/ato-41.html' title='Ato 41'/><author><name>Lia Lee</name><uri>https://profiles.google.com/101768141180775442755</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-w54ka_F6eNs/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAADok/RKQUiPPnW9o/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
